O silêncio é sempre sintomático. Pode ser de constrangimento, alegria não compartilhada, reflexão, luto, repouso, apatia, um infinito de sensações e qualidades. Em mim, agora, é uma mistura de tudo. Gasto grande parte do meu tempo e queimo sinapses vasculhando um universo impalpável e ponderando o que seria mentira, o que seria verdade, o que seria insegurança, em minha vida e na de terceiros. O quanto já não foi tramado esses dias. Aguar na bateia o que é amor, deslumbre, novidade, medo, família, fome, cansaço, memórias, lembranças, saudade... Um acúmulo de pedras brutas.
Impossível conter a explosão. O pavio ardeu durante meses, correndo a terra, desbravando novos espaços, iluminando o redor, correndo, correndo. Chegou até a enorme carga, diminuiu a velocidade, entrou, incendiou, liberou energia sob diversas formas. Impossível conter os estilhaços.
Efervescência nervosa, riso adstringente.
O que tenho a perder, agora, é de vista.
Quebra-cabeça. Somos um mar de pedrinhas emboladas, com potencial para virar uma grande, única e coesa imagem de algo bonito. Mas isso requer trabalho, empenho e dedicação.
Quero uma boa temporada, novas bases comparativas.
--
“... Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”
“É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter. A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são ‘desconhecidas’, simbólicas do desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente.”
FP
1 de out. de 2012
21 de ago. de 2012
Das despedidas momentâneas
" (...) Mas porque eu passava o dia ao lado dos meus amigos. Juntos. Ou, como diria um amigo meu, em sueco: 'tillsammans'.
E isso é precioso demais.
O que me consola em grande parte nessa despedida é saber que eu não estou deixando para trás aquilo que me fez mais feliz nesse tempo todo.
Obrigado pela alegria de todos os dias, pelos ppt's de algumas madrugadas, pelos bolos repartidos e por ter a honra de poder aprender a trabalhar ao lado de vocês".
--
Despedida de Kristen Wiig do SNL, com Mick Jagger
E isso é precioso demais.
O que me consola em grande parte nessa despedida é saber que eu não estou deixando para trás aquilo que me fez mais feliz nesse tempo todo.
Obrigado pela alegria de todos os dias, pelos ppt's de algumas madrugadas, pelos bolos repartidos e por ter a honra de poder aprender a trabalhar ao lado de vocês".
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Despedida de Kristen Wiig do SNL, com Mick Jagger
17 de ago. de 2012
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Prometi que a próxima coisa que escreveria aqui seria algo feliz, como no começo do blog. Sou bom no humor (mentira, quando muito nos trocadilhos infames). Mas a pauta caiu.
Tenho vontade de, como o Super-Homem, carregar meu irmão em um braço, furar as nuvens e só descer quando tudo estiver em paz aqui no chão. Queria fazer isso para minha mãe não ser obrigada a engolir um menino tão grande para mantê-lo, novamente, seguro em sua barriga.
Com isso, fugir um pouco. Este meu confuso redor.
Frente aos 30, é tempo de não mais culpar a Providência, os reflexos, o passado. Ele, que estou aqui vasculhando para ver se entendo alguma coisa. É tempo de assumir.
Quando ainda moleque, os acordes que precediam “Games, changes and fears...”, na rouquidão suave de Macy Gray, empacotavam os ingênuos romances e seus dias nublados. Até perceber que a sequência dos versos é insolúvel: “When will they go from here, when will they stop”. Eles nunca irão, nunca cessarão. Estão em nós, a quem cabe driblar ou nutri-los.
Você foi a coisa que mais amei na vida – na vida que há –, e com quem, em igual medida, mais errei. Errei achando que tinha justificativas e que era charmoso. Errei para mascarar. Errei porque erraram, por um passado torto. Errei por não saber. Mas amar uma pessoa, depois que a paixão passa, também é entender a hora de desamarrá-la. De deixar ir, ainda que em pequenos passos, em arrepiantes fatias de desapego. E ainda não aprendi tudo. E envelheci. Você me salvou do completo amargor e de me afundar em outro rumo, por isso é e sempre será valoroso. Eu talvez deixe um legado feio, que posso melhorar um mínimo dessa forma.
Você escrevia "eu te amo" em minhas costas, com a ponta dos dedos. Jamais adivinharia se não tivesse dito. A cada toque, agora, busco uma mensagem a ser decifrada.
Amarello Amor from AMARELLO on Vimeo.
Tenho vontade de, como o Super-Homem, carregar meu irmão em um braço, furar as nuvens e só descer quando tudo estiver em paz aqui no chão. Queria fazer isso para minha mãe não ser obrigada a engolir um menino tão grande para mantê-lo, novamente, seguro em sua barriga.
Com isso, fugir um pouco. Este meu confuso redor.
Frente aos 30, é tempo de não mais culpar a Providência, os reflexos, o passado. Ele, que estou aqui vasculhando para ver se entendo alguma coisa. É tempo de assumir.
Quando ainda moleque, os acordes que precediam “Games, changes and fears...”, na rouquidão suave de Macy Gray, empacotavam os ingênuos romances e seus dias nublados. Até perceber que a sequência dos versos é insolúvel: “When will they go from here, when will they stop”. Eles nunca irão, nunca cessarão. Estão em nós, a quem cabe driblar ou nutri-los.
Você foi a coisa que mais amei na vida – na vida que há –, e com quem, em igual medida, mais errei. Errei achando que tinha justificativas e que era charmoso. Errei para mascarar. Errei porque erraram, por um passado torto. Errei por não saber. Mas amar uma pessoa, depois que a paixão passa, também é entender a hora de desamarrá-la. De deixar ir, ainda que em pequenos passos, em arrepiantes fatias de desapego. E ainda não aprendi tudo. E envelheci. Você me salvou do completo amargor e de me afundar em outro rumo, por isso é e sempre será valoroso. Eu talvez deixe um legado feio, que posso melhorar um mínimo dessa forma.
Você escrevia "eu te amo" em minhas costas, com a ponta dos dedos. Jamais adivinharia se não tivesse dito. A cada toque, agora, busco uma mensagem a ser decifrada.
Amarello Amor from AMARELLO on Vimeo.
13 de jun. de 2012
j. edgar
"Funny how even the dearest face will fade away in time. But most clearly I remember your eyes with a sort of teasing smile in them, and the feeling of that soft spot just northeast of the corner of your mouth"
12 de jun. de 2012
Primeira vez
Pela primeira vez entreguei os rascunhos, sem cópia, sem revisão, junto com minha alma. Pela primeira vez eu talvez tenha sentido tudo aquilo, implodido com todo aquele sentimento, e entregar aqueles papéis só confirma que, na verdade, os originais estão em mim.
Do último filme, em um trecho de espionagem, a ideia de que diz a verdade aquele que é capaz de contar a mesma história repetidas vezes, sem escorregar.
Seriam cinco.
Um milhão de músicas sustentam este post sobre meus alicerces abalados.
Do último filme, em um trecho de espionagem, a ideia de que diz a verdade aquele que é capaz de contar a mesma história repetidas vezes, sem escorregar.
Seriam cinco.
Um milhão de músicas sustentam este post sobre meus alicerces abalados.
1 de mai. de 2012
Sem título
Era o clima do Baile da Ilha fiscal, superlativo, abundante, cheio dos
mais diferentes tipos de pessoas. Pretenso. Um pouco de Tabacaria. Estou
hoje vencido, como se soubesse a verdade. Hoje os dois mascarados
procuram os seus namorados perguntando assim: "quem é você, diga logo,
que eu quero saber o seu jogo...". Um pouco de Eclesiastes no ritmo de
Byrds. A time to build up, a time to break down, a time to dance, a time
to mourn, a time to cast away stones. A time of love, a time of hate, a
time of war, a time of peace.
Quando não se sabe mais o que é verdade. Quando sentimentos pregam peças. Quando alguém tão íntimo vira um estranho. Os roteiristas voltaram das férias, depuseram minha pena, ataram minhas mãos e me colocaram sentado em frente a TV. O enredo fervilha. Há dezenas de personagens, não há inocência.
Come chocolates, Pequeno. Porque é chegado o tempo de curar, é chegado o fim da monarquia. Do riso alegre da carolina indo ao chão. Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu.
Quando não se sabe mais o que é verdade. Quando sentimentos pregam peças. Quando alguém tão íntimo vira um estranho. Os roteiristas voltaram das férias, depuseram minha pena, ataram minhas mãos e me colocaram sentado em frente a TV. O enredo fervilha. Há dezenas de personagens, não há inocência.
Come chocolates, Pequeno. Porque é chegado o tempo de curar, é chegado o fim da monarquia. Do riso alegre da carolina indo ao chão. Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu.
21 de out. de 2011
Talvez os momentos felizes estejam escondidos no passado
Fui nocauteado. Era um abraço, era afeto! Eu não tinha esse acesso. Já tive vários bons sexos, beijos, blues e poesias, mas contigo eu tive uma noite que transcendeu o vazio por milhares de quilômetros de distância de mim. Acordei atrasado, correndo. Já era hora de eu estar no trabalho, mas eu ali, dando beijos e dizendo: “Te vejo no almoço.” E assim me apaixonei. Tenho um fraco por olhos claros, paulistinhas, com cara de que a mãe fez tudo certo. Eu tenho, confesso. Não que eu tenha essa cara, você é quem tem! Você é desses que tem cara de “pai do ano”, e isso me deixa bobo, mesmo você não querendo ser pai.
Eu conheci o céu e o inferno com você, meu Deus! Foi tão pouco tempo, mas eu te dei tanto trabalho que até na próxima vida estarei em dívida contigo.
Fui amado, acolhido e confrontado pela primeira vez. E eu não pude fugir. Nunca vou esquecer você dizendo: “Eu vou fazer você se enxergar.” E fez! Eu olho para nossas memórias e vejo, através do teu doce olhar, quem eu realmente precisava ser. Você foi o cara mais incrível que eu conheci, em inúmeras, repito, inúmeras vertentes! E estou te escrevendo porque a tua voz, falando no diminutivo, do teu jeitinho, não sai da minha cabeça.
Essa é uma carta de amor, de agradecimento, de reconhecimento, de desejo de que a vida te faça feliz! Quero poder ver alguém chegar na tua vida, segurar a tua mão e não soltar! Eu quero aquela cena clichê! Eu quero chorar, eu quero ver teus lindos olhos azuis em um mar sereno, num abraço quente como o teu. Quero, de longe, assistir à tua felicidade, ver o riso verdadeiro e a alma genuinamente colorida transcender. Quero assistir ao teu romance como um filme de dois jovens de 15 anos que vão se amar até o fim da vida. Quero que ele te ame com muitos talheres, que te respeite e te admire como o homem que você é, como o amigo que todos deveriam ter. Eu quero a mega-sena do amor pra esse cara! Quero que ele te mereça!
Obrigado por ter virado, me tirado a cara de “apartamento decorado” e me feito aprender a viver.
Obrigado por me mostrar que a vida é curta demais para uma escala de cinza, que temos Keith Haring pra conhecer, que todos precisam ler “Amor Líquido” e que todo dia é um novo dia para se reencontrar.
Obrigado por ter me amado no meu momento mais frágil. E eu, imaturo, cru, magoado, despedacei você. Desculpa por não ter te merecido.
Com amor,
Xxx”
19 de ago. de 2011
Saturno
"Se faltava uma cereja, chuchu, é essa. São essas. Você tem a faca e os argumentos em mãos..."
17 de jul. de 2011
Cem bexigas no teto
“Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar,
há um adeus em cada gesto, em cada olhar,
mas nós não temos é coragem de falar”
A crônica de Ivan Angelo na Vejinha da semana passada começa com esses versos de Dolores Duran, e é toda sobre separação. Que momento dolorido e injusto com os começos, com as histórias! Embora, quem sabe, os começos já contenham traços de fim.
Eu vinha, sem dúvida, fatigado e triste. Eu vinha fatigante e entristecedor. Eu queria carinho e um chacoalhão, eu queria que me esfregassem o quão bom é sair pelo mundo de mãos dadas. Eu queria descansar e rir. Queria alguém que se impusesse e me botasse pra ver as coisas legais e ouvir histórias, embora eu achasse que adorava mostrar e contar. Nesse meio tempo, troquei alguns pés por mãos. Ao mesmo tempo, dei subsídios.
Você tinha certeza de que era de um jeito e de como seria sua história de amor, mas eu nunca me encaixei no papel de par.
Acabei fechando esse livro e sendo uma porta aberta para uma vida escondida (sufocada, insinuam alguns traços), mas não fui convidado a entrar. Abri meu espaço, minhas coisas, minhas baladas, meu mundo. Queria conhecer os seus amigos, mas você dizia não ter. Conforme surgiam, ficavam bem separados, por propósitos que hoje conhecemos.
A história contada, a coisa preferir casa em vez de muvuca, foi esmorecendo. Mas não fui participando disso, fomos virando paralelos, concorrentes. Fui virando um monstro, para que o monstro nunca conseguisse me engolir, como canta o U2. Sou um poço de medo e insegurança, agrido para esconder isso tudo.
Esses amigos passaram a ser a verdade, enquanto o que vivíamos era despedaçado a marretadas. A saída de um casulo de concreto. Borboletas ou morcegos, feios ou bonitos, noturnos ou diurnos, voamos. Explodimos.
As roupas não cabiam mais, ou eram largas, xadrez ou ingênuas demais. Os modelos não podiam mais ser aplicados, as verdades eram outras, mas o discurso, esse continuava o mesmo.
Eu talvez tenha estendido timidamente, mas você nunca quis dar-me a mão. Nossa história foi como a açucarada casquinha do crème brûlée. Embora pareça resistente, basta uma ligeira colherada para que ela se parta e perca toda a coesão e proteção que oferecia. Tentar restaurá-la acabaria queimando e amargando. Ainda assim, ela continuará sendo doce. E cumpriu o seu papel.
Fico com minha casa, que agora não serve mais a parte de seus propósitos, mas que devo encarar e voltar a fazê-la completa e minha. Quero parar de ser refém nesse espaço que sempre foi uma amada bolha blindada. Vou trocar de edredon.
Talvez eu não saiba o que é amor. E se ele é mesmo uma coisa fortemente vinculada a cumplicidade, como imagino, acho que nunca o vivi.
Eu, que sempre tento juntar as coisas e as pessoas, vou juntar as partes boas de todos os possíveis amores que tive, sorrir, cumprir os cerimoniais oficiais de término e seguir. Porque, fato, não sabemos o tempo de cada vida.
O discurso mudou. Foi tão dolorido ouvir a canção que eu não conseguiria cantar no tom certo.
Sem bexigas no teto.
há um adeus em cada gesto, em cada olhar,
mas nós não temos é coragem de falar”
A crônica de Ivan Angelo na Vejinha da semana passada começa com esses versos de Dolores Duran, e é toda sobre separação. Que momento dolorido e injusto com os começos, com as histórias! Embora, quem sabe, os começos já contenham traços de fim.
Eu vinha, sem dúvida, fatigado e triste. Eu vinha fatigante e entristecedor. Eu queria carinho e um chacoalhão, eu queria que me esfregassem o quão bom é sair pelo mundo de mãos dadas. Eu queria descansar e rir. Queria alguém que se impusesse e me botasse pra ver as coisas legais e ouvir histórias, embora eu achasse que adorava mostrar e contar. Nesse meio tempo, troquei alguns pés por mãos. Ao mesmo tempo, dei subsídios.
Você tinha certeza de que era de um jeito e de como seria sua história de amor, mas eu nunca me encaixei no papel de par.
Acabei fechando esse livro e sendo uma porta aberta para uma vida escondida (sufocada, insinuam alguns traços), mas não fui convidado a entrar. Abri meu espaço, minhas coisas, minhas baladas, meu mundo. Queria conhecer os seus amigos, mas você dizia não ter. Conforme surgiam, ficavam bem separados, por propósitos que hoje conhecemos.
A história contada, a coisa preferir casa em vez de muvuca, foi esmorecendo. Mas não fui participando disso, fomos virando paralelos, concorrentes. Fui virando um monstro, para que o monstro nunca conseguisse me engolir, como canta o U2. Sou um poço de medo e insegurança, agrido para esconder isso tudo.
Esses amigos passaram a ser a verdade, enquanto o que vivíamos era despedaçado a marretadas. A saída de um casulo de concreto. Borboletas ou morcegos, feios ou bonitos, noturnos ou diurnos, voamos. Explodimos.
As roupas não cabiam mais, ou eram largas, xadrez ou ingênuas demais. Os modelos não podiam mais ser aplicados, as verdades eram outras, mas o discurso, esse continuava o mesmo.
Eu talvez tenha estendido timidamente, mas você nunca quis dar-me a mão. Nossa história foi como a açucarada casquinha do crème brûlée. Embora pareça resistente, basta uma ligeira colherada para que ela se parta e perca toda a coesão e proteção que oferecia. Tentar restaurá-la acabaria queimando e amargando. Ainda assim, ela continuará sendo doce. E cumpriu o seu papel.
Fico com minha casa, que agora não serve mais a parte de seus propósitos, mas que devo encarar e voltar a fazê-la completa e minha. Quero parar de ser refém nesse espaço que sempre foi uma amada bolha blindada. Vou trocar de edredon.
Talvez eu não saiba o que é amor. E se ele é mesmo uma coisa fortemente vinculada a cumplicidade, como imagino, acho que nunca o vivi.
Eu, que sempre tento juntar as coisas e as pessoas, vou juntar as partes boas de todos os possíveis amores que tive, sorrir, cumprir os cerimoniais oficiais de término e seguir. Porque, fato, não sabemos o tempo de cada vida.
O discurso mudou. Foi tão dolorido ouvir a canção que eu não conseguiria cantar no tom certo.
Sem bexigas no teto.
1 de abr. de 2011
Cartas a mim mesmo
Nem o mais inspirado de seus poemas
Não, hoje eu não queria nada além
Do que repousar minha já pesada cabeça
E derramar minhas lágrimas
Em seus sofridos ombros.
E então, quem sabe,
(mesmo que eu não sonhasse)
Um só beijo terminasse
Esta distância insensata
Que me pôs aqui a encontrar
Palavras para um mudo sentimento.
Não, hoje eu não queria nada além
Do que repousar minha já pesada cabeça
E derramar minhas lágrimas
Em seus sofridos ombros.
E então, quem sabe,
(mesmo que eu não sonhasse)
Um só beijo terminasse
Esta distância insensata
Que me pôs aqui a encontrar
Palavras para um mudo sentimento.
Era
Ela acordou destroçada. A palma, os dedos, as unhas. O que o cérebro monta ela não pode, hoje, ajudar a colocar em outras formas, a emitir. Nem a caneta, nem o teclado, nem o toque. Encontrada em seu óbvio esconderijo, infantil, tentando fugir do enorme novelo de desgaste, dor, rusgas, brigas, angústias e outros sufocos, tentou dar vazão a tudo isso que, fazendo jus, manipulou durante longo tempo. Esmurrou um degrau, o mesmo, com toda a força possível. Não conseguiu. Explodiu a madrugada, explodiu o elo, a vida. Tombada, contraída, repousa em costas num longo abraço.
22 de fev. de 2011
30 de dez. de 2010
Ano
Termina com uma lágrima furtiva, um sorriso de canto, cabeça recostada. Das redes sociais, denso, mas impalpável. Um ano estrangulado que fugiu pelas beiras.
Dualista, ano de crescimento no trabalho, de escalar a árvore, de novos amigos, de amar os antigos, novas empreitadas. De conhecer a Rússia.
Este ríspido ano termina assim, sentado em minha mesa, na empresa com a qual sempre sonhei, vendo clipes de músicas ou trechos de shows. Com poucas palavras, muitas vontades, novos sonhos. Toda aquela insegurança.
Dualista, ano de crescimento no trabalho, de escalar a árvore, de novos amigos, de amar os antigos, novas empreitadas. De conhecer a Rússia.
Este ríspido ano termina assim, sentado em minha mesa, na empresa com a qual sempre sonhei, vendo clipes de músicas ou trechos de shows. Com poucas palavras, muitas vontades, novos sonhos. Toda aquela insegurança.
24 de nov. de 2010
Relendo, reescrevendo. Trapaceando.
A Adilia perguntou no Toques de Alma onde as pessoas estavam em maio de 1968, em um post com informações pessoais, juventude e muitas referências (Mandela, protestos, Quartier Latin, Martin Luther King Jr., ...). Eu ainda não estava – e nem era – em 68, mas fiquei pensando.
Em 1968 eu ainda nem era um sonho acalentado na cabeça de minha mãe, tampouco uma dúvida errante na de meu pai. Em 68 estava vagando em algum mundo por aí.
Rebentado, de 68 lembro que a juventude sempre vai ser o espelho universal no qual todos precisam ver-se refletidos, sim. É nela que mora o fôlego pra gritaria, mas nem sempre a cabeça para saber os motivos do alarde. E, como disse o Lobo da Estepe, eu estou cônscio da existência desse espelho, no qual tenho uma necessidade tão amarga de olhar-me e no qual temo mortalmente ver-me refletido. A boa juventude é a juventude velha.
Nelson Mandela conheci num livro do colégio, e depois em plantão da Rede Globo e na música do Simple Minds. Música que me mostrou também os “Bloody Sunday”, no swing dos versos lancinantes do U2, que conclamavam uma platéia em polvorosa a cantar “for the Reverend Martin Luther King”, aquele que teve um sonho do qual muitos hoje nem sequer ouviram falar. Mas eu ainda acredito que um dia estaremos sentados juntos “at the table of brotherhood”.
Demorei a entender – se é que o fiz – Hesse, e de Huxley sempre lembro que “se somos diferentes, é fatal que estejamos sós”. Era frio e adolescência quando li Salinger, e ele pareceu me entender, abraçar e acolher como o mundo jamais pensaria em fazer naquele meu momento. Holden Caulfield foi, então, meu primeiro nick na web. E nunca parei de pensar sobre o sonho de ocupação que tinha o jovem do livro: evitar que crianças caíssem de um precipício...
Hoje tento ser uma partícula sólida num copo d´água, saudoso do 68 que não vivi. Saudoso e em silêncio. Reticente.
--
Com muita saudade de Adília.
Em 1968 eu ainda nem era um sonho acalentado na cabeça de minha mãe, tampouco uma dúvida errante na de meu pai. Em 68 estava vagando em algum mundo por aí.
Rebentado, de 68 lembro que a juventude sempre vai ser o espelho universal no qual todos precisam ver-se refletidos, sim. É nela que mora o fôlego pra gritaria, mas nem sempre a cabeça para saber os motivos do alarde. E, como disse o Lobo da Estepe, eu estou cônscio da existência desse espelho, no qual tenho uma necessidade tão amarga de olhar-me e no qual temo mortalmente ver-me refletido. A boa juventude é a juventude velha.
Nelson Mandela conheci num livro do colégio, e depois em plantão da Rede Globo e na música do Simple Minds. Música que me mostrou também os “Bloody Sunday”, no swing dos versos lancinantes do U2, que conclamavam uma platéia em polvorosa a cantar “for the Reverend Martin Luther King”, aquele que teve um sonho do qual muitos hoje nem sequer ouviram falar. Mas eu ainda acredito que um dia estaremos sentados juntos “at the table of brotherhood”.
Demorei a entender – se é que o fiz – Hesse, e de Huxley sempre lembro que “se somos diferentes, é fatal que estejamos sós”. Era frio e adolescência quando li Salinger, e ele pareceu me entender, abraçar e acolher como o mundo jamais pensaria em fazer naquele meu momento. Holden Caulfield foi, então, meu primeiro nick na web. E nunca parei de pensar sobre o sonho de ocupação que tinha o jovem do livro: evitar que crianças caíssem de um precipício...
Hoje tento ser uma partícula sólida num copo d´água, saudoso do 68 que não vivi. Saudoso e em silêncio. Reticente.
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Com muita saudade de Adília.
Um pouco do pai, para o pai
Todas as pessoas são muitas. Muitas dentro de si mesmas. Todos nós somos trabalhadores, estudantes ou aposentados; ao mesmo tempo em que somos filhos, pais ou irmãos; amigos, esposos ou namorados; e assim por diante.
Com nosso pai, o Rui, não é diferente. Como ele mesmo fez questão de dizer, absolutamente todos que hoje estão aqui fizeram ou fazem parte da vida dele, tornando-o, portanto, o Rui pai, o Rui amigo, o Rui irmão, o Rui colega, o Rui ex-esposo, o Rui namorado, o Rui cunhado, o Rui etc. e tal, e, por que não, o Rui filho (pois temos certeza que a Vó Maria e o Vô Gabriel estão conosco de alguma forma no dia de hoje). Vocês tornaram o Rui em uma multidão e isso enriquece a vida de qualquer um. Logo, obrigado a todos por terem feito do nosso pai quem ele é hoje: um ser capaz de muito, uma vez que muito o compõe.
Mas não podemos falar do amigo, do esposo, do colega. Não o conhecemos assim. Podemos apenas falar do pai, do grande pai que o Rui é para nós dois. E esse Rui pai também é múltiplo e significa uma tonelada de coisas sobre as quais gostaríamos de compartilhar com vocês hoje.
O Rui como filho e irmão nasceu há exatos 60 anos e deixou uma impressão unânime: irmão dedicado e filho querido. Na escola, foi aluno dedicado, época em que ganhou um companheiro inseparável: seu par de óculos; um aliado e escudo a esconder seus frágeis e vivos olhos azuis do resto mundo. Quantas vezes ouvimos a história de quando ele foi para São Paulo, pequenino, e ficou sozinho no São Bento, tempo de medalhas, estudos, amizades, mas de angústias, saudades e algumas dificuldades. Isso sempre nos fez pensar e comentar: o quão duro deve ser esse sentimento de abandono ao qual nosso pequenino e futuro pai deve ter sido submetido? Ao mesmo tempo, quantas histórias fantásticas nos contou sobre o São Bento e os tempos em SP? Só podemos imaginar!
Ele voltou para Sorocaba e, jovem, foi estreitando amizades. As histórias com o Paulo Henrique, com o Eduardo e com tantos outros sempre nos fizeram rir, como as histórias de amizades juvenis devem ser!
A primeira faculdade veio por paixão: Letras. O literato que há dentro do Rui sempre foi famoso, embora ele o reprima por vezes ou por anos. Podia explodir como escritor. Foi trabalhar no Diário de Sorocaba e tentou dar aulas. Não deu certo! Era tímido para isso.
Necessidade mãe da razão e o Rui fez uma segunda faculdade: Administração. Lá conheceu a Tereza, nossa mãe. Acabou casando, fim de muitos namoros que começam em universidades. Trabalhou com ela no Camiseiro e acabou entrando na fiscalização, onde fez de tudo um pouco, de plebeu até tornar-se o Seo Rói da repartição!
Mas, do nosso ponto de vista, o principal veio lá em 1979: o Rui deixava de ser filho apenas. Nascia o Duda. Em 1983, ampliou a experiência com o nascimento do Lucas. E alguns anos mais para frente, abraçou a existência da Joyce ao seu rol patriarcal. Rui teve filhos e nós ganhamos sentido como família.
Do pai, temos muito a contar. Daria anos o relato. Para não dificultar para ninguém, façamos um resumo. Rui pai foi um cara fantástico. Muito, mas muito carinhoso mesmo, fazia lanchinho para levarmos à escola e deixava-o ao lado de um bilhetinho falando do amor que tinha por nós. Isso era todo dia e não uma vez ou outra. Ajudava com as tarefas, no preparo das refeições, na correção dos rumos. Nunca foi ríspido ou duro sem necessidade.
Viajamos nós quatro, ou com avós e tios, rimos juntos e vivemos uma festa. Que grande infância pudemos ter graças a isso. Mesmo quando as noites na chácara tornavam-se um breu de escuras, com as constantes quedas de energia que havia, ele nos levava para o quarto dele com a mãe, acendia um abajur, e lia capítulos de livros que jamais esquecemos: Tarzan, a Ilha do Tesouro e Origens (com um fóssil na capa!) foram acompanhados como novela, um capítulo atrás do outro, noite após a outra... Não à toa a leitura estar entranhada nos seus filhos!
O Rui, ao nos mostrar as fotos de sua infância, tornava-se o Super-homem. Era o Clark Kent, frágil olhos azuis com pesados óculos de jornalista, que ocultavam um super-pai. Tornou-se o escritor que relutou em ser ao nos deixar mensagens lindas todas as manhãs ou a narrar com vivacidade histórias de piratas. Tornou-se um modelo, uma referência de caráter, alguém a ser seguido. E o seguimos, orgulhosos. Pai, diz o mais primário da psicologia, é identidade e autoridade. Autoridade moral sempre teve, pelo exemplo, e não pelo autoritarismo. Pelo diálogo, paciência e carinho forneceu bases para quem somos no dia de hoje.
Mas, vida é vida, e o perdemos por um tempo. O Rui que se sentia sozinho no São Bento, atormentado por fantasmas de ausência, foi buscar a si próprio longe de nós. Ficamos ao longo de uma década, nós mesmos, com espíritos de ruína ao nosso redor, saudades raivosas de quem perde o chão e frustrações de quem perde o modelo a seguir.
Alguns mais ingênuos podem pensar: tem cabimento falar em coisas tristes em um momento tão feliz, de comemoração?! Permitam um aparte etimológico: Comemorar é palavra latina, cujo radical remete a memorar em conjunto, COM MEMORAR. Nem tudo de que lembramos é belo, mas, por isso mesmo, lembrar é importante. Ainda mais em conjunto. Ainda assim, o mesmo alguém poderia sugerir: mas pulem esse assunto espinhoso e difícil, esqueçam! Mas se o fizéssemos seria injusto com o melhor que poderíamos escrever sobre o Rui pai!
Qual seja: ele voltou! Voltou de sua busca por si próprio; e voltou a nos encontrar como pai. Ah, e como isso foi bacana! Momento de reinvenção: duas crianças eram então jovens adultos, perdidos em seus próprios sonhos, encontrando um adulto feito e desfeito, perdido em outros sonhos. Como foi legal, depois de alguns novos risos, lágrimas, muitas visitas, comidas e viagens, leituras e fotos, voltarmos a sonhar alguns sonhos juntos!
O Rui pai voltou com sua timidez, seu sorriso por detrás de um par de óculos. Seus olhos azuis traziam a companhia de cabelos grisalhos. Mas era o Rui pai, disposto a voltar a sê-lo. Nenhuma história de separação é completa se não flertar com a história da volta, da reconciliação, do perdão. Mútuo e definitivo. Perdoar não significa esquecer, mas lembrar para que não mais ocorra e, com isso, renovar as chances de erro mutuamente. Dar a chance para incontáveis acertos e poucos e novos erros. Perdoamo-nos, construímo-nos de novo. E isso foi muito legal.
Foi regado a vinho, restaurantes, livrarias, cozinhar juntos ou um para o outro, trocar novas confidências, dar e ouvir conselhos... até que ouvimos dele mesmo: a melhor fase da vida de um pai é essa a que eu vivo, quando posso ser companheiro de meus filhos. É isso: o Rui pai tornou-se um companheirão!
Ajudou-nos com as faculdades, com a compra do primeiro carro, do primeiro apartamento, com o casamento de um de nós, com os namoros dos demais. Planejou viagens e as fez conosco. E toca mais idas à cozinha e mais receitas de pai para filho ou de filhos para pai.
Hoje o Rui pai está quase aposentado! E faz 60 anos! Que legal, pai. Que legal mesmo! Que lindo que possamos estar juntos e planejar, logo a partir de amanhã, a festança dos 70, 80, 90 e quanto o muito mais que o bom Deus nos permita ficar sempre juntos.
Neste dia de festa, em que comemoramos um pouco do Rui Pai, desejamo-lhes muitas coisas. Sonhamos que o literato escondido e contido possa, finalmente, escrever seu primeiro romance; queremos que todos os amigos que aqui estão o lembrem de como você é especial, sendo único e múltiplo ao mesmo tempo; que a família o abrace como irmão; que esta noite seja mais um momento inesquecível em sua vida. Você merece!
Mas, acima de tudo, sonhamos e desejamos ver se iluminar o quarto do menino que você tem dentro de si e que ele possa mirar seus próprios olhos azuis no espelho de seu coração e sorrir, sem medo de mais nada: você é um grande pai, o melhor que poderíamos ter.
Um beijo e parabéns de seus filhos.
Duda e Lucas
Com nosso pai, o Rui, não é diferente. Como ele mesmo fez questão de dizer, absolutamente todos que hoje estão aqui fizeram ou fazem parte da vida dele, tornando-o, portanto, o Rui pai, o Rui amigo, o Rui irmão, o Rui colega, o Rui ex-esposo, o Rui namorado, o Rui cunhado, o Rui etc. e tal, e, por que não, o Rui filho (pois temos certeza que a Vó Maria e o Vô Gabriel estão conosco de alguma forma no dia de hoje). Vocês tornaram o Rui em uma multidão e isso enriquece a vida de qualquer um. Logo, obrigado a todos por terem feito do nosso pai quem ele é hoje: um ser capaz de muito, uma vez que muito o compõe.
Mas não podemos falar do amigo, do esposo, do colega. Não o conhecemos assim. Podemos apenas falar do pai, do grande pai que o Rui é para nós dois. E esse Rui pai também é múltiplo e significa uma tonelada de coisas sobre as quais gostaríamos de compartilhar com vocês hoje.
O Rui como filho e irmão nasceu há exatos 60 anos e deixou uma impressão unânime: irmão dedicado e filho querido. Na escola, foi aluno dedicado, época em que ganhou um companheiro inseparável: seu par de óculos; um aliado e escudo a esconder seus frágeis e vivos olhos azuis do resto mundo. Quantas vezes ouvimos a história de quando ele foi para São Paulo, pequenino, e ficou sozinho no São Bento, tempo de medalhas, estudos, amizades, mas de angústias, saudades e algumas dificuldades. Isso sempre nos fez pensar e comentar: o quão duro deve ser esse sentimento de abandono ao qual nosso pequenino e futuro pai deve ter sido submetido? Ao mesmo tempo, quantas histórias fantásticas nos contou sobre o São Bento e os tempos em SP? Só podemos imaginar!
Ele voltou para Sorocaba e, jovem, foi estreitando amizades. As histórias com o Paulo Henrique, com o Eduardo e com tantos outros sempre nos fizeram rir, como as histórias de amizades juvenis devem ser!
A primeira faculdade veio por paixão: Letras. O literato que há dentro do Rui sempre foi famoso, embora ele o reprima por vezes ou por anos. Podia explodir como escritor. Foi trabalhar no Diário de Sorocaba e tentou dar aulas. Não deu certo! Era tímido para isso.
Necessidade mãe da razão e o Rui fez uma segunda faculdade: Administração. Lá conheceu a Tereza, nossa mãe. Acabou casando, fim de muitos namoros que começam em universidades. Trabalhou com ela no Camiseiro e acabou entrando na fiscalização, onde fez de tudo um pouco, de plebeu até tornar-se o Seo Rói da repartição!
Mas, do nosso ponto de vista, o principal veio lá em 1979: o Rui deixava de ser filho apenas. Nascia o Duda. Em 1983, ampliou a experiência com o nascimento do Lucas. E alguns anos mais para frente, abraçou a existência da Joyce ao seu rol patriarcal. Rui teve filhos e nós ganhamos sentido como família.
Do pai, temos muito a contar. Daria anos o relato. Para não dificultar para ninguém, façamos um resumo. Rui pai foi um cara fantástico. Muito, mas muito carinhoso mesmo, fazia lanchinho para levarmos à escola e deixava-o ao lado de um bilhetinho falando do amor que tinha por nós. Isso era todo dia e não uma vez ou outra. Ajudava com as tarefas, no preparo das refeições, na correção dos rumos. Nunca foi ríspido ou duro sem necessidade.
Viajamos nós quatro, ou com avós e tios, rimos juntos e vivemos uma festa. Que grande infância pudemos ter graças a isso. Mesmo quando as noites na chácara tornavam-se um breu de escuras, com as constantes quedas de energia que havia, ele nos levava para o quarto dele com a mãe, acendia um abajur, e lia capítulos de livros que jamais esquecemos: Tarzan, a Ilha do Tesouro e Origens (com um fóssil na capa!) foram acompanhados como novela, um capítulo atrás do outro, noite após a outra... Não à toa a leitura estar entranhada nos seus filhos!
O Rui, ao nos mostrar as fotos de sua infância, tornava-se o Super-homem. Era o Clark Kent, frágil olhos azuis com pesados óculos de jornalista, que ocultavam um super-pai. Tornou-se o escritor que relutou em ser ao nos deixar mensagens lindas todas as manhãs ou a narrar com vivacidade histórias de piratas. Tornou-se um modelo, uma referência de caráter, alguém a ser seguido. E o seguimos, orgulhosos. Pai, diz o mais primário da psicologia, é identidade e autoridade. Autoridade moral sempre teve, pelo exemplo, e não pelo autoritarismo. Pelo diálogo, paciência e carinho forneceu bases para quem somos no dia de hoje.
Mas, vida é vida, e o perdemos por um tempo. O Rui que se sentia sozinho no São Bento, atormentado por fantasmas de ausência, foi buscar a si próprio longe de nós. Ficamos ao longo de uma década, nós mesmos, com espíritos de ruína ao nosso redor, saudades raivosas de quem perde o chão e frustrações de quem perde o modelo a seguir.
Alguns mais ingênuos podem pensar: tem cabimento falar em coisas tristes em um momento tão feliz, de comemoração?! Permitam um aparte etimológico: Comemorar é palavra latina, cujo radical remete a memorar em conjunto, COM MEMORAR. Nem tudo de que lembramos é belo, mas, por isso mesmo, lembrar é importante. Ainda mais em conjunto. Ainda assim, o mesmo alguém poderia sugerir: mas pulem esse assunto espinhoso e difícil, esqueçam! Mas se o fizéssemos seria injusto com o melhor que poderíamos escrever sobre o Rui pai!
Qual seja: ele voltou! Voltou de sua busca por si próprio; e voltou a nos encontrar como pai. Ah, e como isso foi bacana! Momento de reinvenção: duas crianças eram então jovens adultos, perdidos em seus próprios sonhos, encontrando um adulto feito e desfeito, perdido em outros sonhos. Como foi legal, depois de alguns novos risos, lágrimas, muitas visitas, comidas e viagens, leituras e fotos, voltarmos a sonhar alguns sonhos juntos!
O Rui pai voltou com sua timidez, seu sorriso por detrás de um par de óculos. Seus olhos azuis traziam a companhia de cabelos grisalhos. Mas era o Rui pai, disposto a voltar a sê-lo. Nenhuma história de separação é completa se não flertar com a história da volta, da reconciliação, do perdão. Mútuo e definitivo. Perdoar não significa esquecer, mas lembrar para que não mais ocorra e, com isso, renovar as chances de erro mutuamente. Dar a chance para incontáveis acertos e poucos e novos erros. Perdoamo-nos, construímo-nos de novo. E isso foi muito legal.
Foi regado a vinho, restaurantes, livrarias, cozinhar juntos ou um para o outro, trocar novas confidências, dar e ouvir conselhos... até que ouvimos dele mesmo: a melhor fase da vida de um pai é essa a que eu vivo, quando posso ser companheiro de meus filhos. É isso: o Rui pai tornou-se um companheirão!
Ajudou-nos com as faculdades, com a compra do primeiro carro, do primeiro apartamento, com o casamento de um de nós, com os namoros dos demais. Planejou viagens e as fez conosco. E toca mais idas à cozinha e mais receitas de pai para filho ou de filhos para pai.
Hoje o Rui pai está quase aposentado! E faz 60 anos! Que legal, pai. Que legal mesmo! Que lindo que possamos estar juntos e planejar, logo a partir de amanhã, a festança dos 70, 80, 90 e quanto o muito mais que o bom Deus nos permita ficar sempre juntos.
Neste dia de festa, em que comemoramos um pouco do Rui Pai, desejamo-lhes muitas coisas. Sonhamos que o literato escondido e contido possa, finalmente, escrever seu primeiro romance; queremos que todos os amigos que aqui estão o lembrem de como você é especial, sendo único e múltiplo ao mesmo tempo; que a família o abrace como irmão; que esta noite seja mais um momento inesquecível em sua vida. Você merece!
Mas, acima de tudo, sonhamos e desejamos ver se iluminar o quarto do menino que você tem dentro de si e que ele possa mirar seus próprios olhos azuis no espelho de seu coração e sorrir, sem medo de mais nada: você é um grande pai, o melhor que poderíamos ter.
Um beijo e parabéns de seus filhos.
Duda e Lucas
1 de out. de 2010
“Yeah, I'm gonna have to move on…
Hora de posicionamento, de passo. Dia cinza, de angústia. Noite de dormir no sofá, evitar ter que dividir algumas lembranças com os lençóis.
...before we meet again”.
...before we meet again”.
Dos rascunhos da vida
Eu penso quase em tempo integral sobre qual teria sido o momento em que toda a beleza da ingenuidade, o impulso do mundo a descobrir e a complementaridade de duas vidas tão opostas, que compunham uma paixão, acabaram tornando-se uma concorrência, uma busca por um Santo Graal que, sabemos, jamais será encontrado e não coroará nenhum de nós.
Qual foi o momento em que a explosão alegre de uma carolina descongelada indo ao chão virou uma briga pela sujeira e desperdício. Em que a dança, ainda que etílica e buscando extravasar outras coisas, passou de lazer a motivo para briga. A hora em que olhares se descruzaram, perderam a cumplicidade e passaram a procurar pela pista, tão à meia-luz e pulsante como nosso confuso relacionamento. Ali também não encontraríamos respostas, só mais distância.
Qual foi o momento em que a explosão alegre de uma carolina descongelada indo ao chão virou uma briga pela sujeira e desperdício. Em que a dança, ainda que etílica e buscando extravasar outras coisas, passou de lazer a motivo para briga. A hora em que olhares se descruzaram, perderam a cumplicidade e passaram a procurar pela pista, tão à meia-luz e pulsante como nosso confuso relacionamento. Ali também não encontraríamos respostas, só mais distância.
19 de fev. de 2010
Próxima à direita
Minha vida está igual a primeira vez que dirigi em São Paulo sozinho. Perdi “aquela” entrada da Marginal e parecia que nunca mais acharia o caminho. Nem precisava ser a volta, apenas um caminho.
No fim, passada a angústia, muitas ruas e muitas placas, achei. Só respirar.
No fim, passada a angústia, muitas ruas e muitas placas, achei. Só respirar.
3 de fev. de 2010
A questão
Ontem, durante uma conversa, dessas sem muito nexo na pausa para o café e retomada de fôlego, perguntei para uma amiga se ela já teve a sensação de acordar sem voz, muda, e contar até três ou dizer alô para certificar-se do contrário. A resposta ganhou da pergunta: “não, mas já acordei sem saber quem eu era. Eu sabia que era, mas tive que pensar um tempo e refletir, tipo ‘sou, mas quem eu sou? Como sou?’, até voltar”.
Estou assim faz alguns dias, do acordar ao dormir, e ainda não voltei. Talvez também não tenha pensado muito em quem ou como sou. Talvez nunca tenha nem ido e continue como sempre. Seja a vida um palco, seja a pergunta de Shakespeare ou não. Hoje estou num dia para cantar alto "These are the days of our lives". Inferno astral.
O próximo post será o ducentésimo. Que virá?
Estou assim faz alguns dias, do acordar ao dormir, e ainda não voltei. Talvez também não tenha pensado muito em quem ou como sou. Talvez nunca tenha nem ido e continue como sempre. Seja a vida um palco, seja a pergunta de Shakespeare ou não. Hoje estou num dia para cantar alto "These are the days of our lives". Inferno astral.
O próximo post será o ducentésimo. Que virá?
20 de jan. de 2010
Ponto.
Decretar o fim antes de um fato marcante ou da perda do respeito é
para os muito fortes ou determinados. Os demais temem estar errando, a
solidão, a carência, as possibilidades, o que quer que o cérebro
invente nesses tempos líquidos para driblar a decisão.
Seja por qualquer via ou causa, terminar é um ritual. Um cerimonial de
encaixotar coisas, desengavetar outras. Dar destinos a cartas
inacabadas ou nunca enviadas, encontrar espaço para sentimentos
reaproveitáveis, apagar palavras nunca ditas. Tentar rearranjar a
casa, para que cada canto perca a história acumulada e volte a ser um
espaço a ser desbravados pela próxima pessoa que, cada vez mais
difícil, entrar pela porta.
Cada cerimonial gasta um pouco da verba total. O coração fica mais
resistente em fazer concessões, os abraços, beijos e entregas parecem
sempre custar muito mais caro a cada novo planejamento.
Tirar a roupa, tomar um banho, olhar atentamente a água que escorre. Pensar na trilha perfeita, escrever, curtir a fossa.
É difícil ser atropelado enquanto se atravessa a rua pensando.
Dos clichês, sozinho ninguém morre.
Tudo entra no arquivo da memória, que podemos moldar como bem queiramos.
para os muito fortes ou determinados. Os demais temem estar errando, a
solidão, a carência, as possibilidades, o que quer que o cérebro
invente nesses tempos líquidos para driblar a decisão.
Seja por qualquer via ou causa, terminar é um ritual. Um cerimonial de
encaixotar coisas, desengavetar outras. Dar destinos a cartas
inacabadas ou nunca enviadas, encontrar espaço para sentimentos
reaproveitáveis, apagar palavras nunca ditas. Tentar rearranjar a
casa, para que cada canto perca a história acumulada e volte a ser um
espaço a ser desbravados pela próxima pessoa que, cada vez mais
difícil, entrar pela porta.
Cada cerimonial gasta um pouco da verba total. O coração fica mais
resistente em fazer concessões, os abraços, beijos e entregas parecem
sempre custar muito mais caro a cada novo planejamento.
Tirar a roupa, tomar um banho, olhar atentamente a água que escorre. Pensar na trilha perfeita, escrever, curtir a fossa.
É difícil ser atropelado enquanto se atravessa a rua pensando.
Dos clichês, sozinho ninguém morre.
Tudo entra no arquivo da memória, que podemos moldar como bem queiramos.
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