22/05/2013

Para minha mãe

Acabei de assistir a um vídeo, por conta dos estudos, e meus olhos inundaram. O que rompeu os diques de contenção, cada vez mais frágeis após os 30, foi ver uma porção de mães falando sobre o que ninguém contou para vocês a respeito da maternidade antes de sua primeira gravidez. Loucura, mãe! Que mudança, que coisa assustadora! Para mim, que arrepio ao pensar em mudanças e novidades - e como trabalhei esses temas -, dá mais frio na barriga que a subida antes do looping da montanha-russa. Quantas coisas vocês aguentam, sorrindo, felizes da vida, mesmo com a gente reclamando feito louco.

Pois tem muitas coisas sobre as quais os filhos também não recebem instruções de uso. Embora me orgulhe demais de sua independência, fico aflito cada vez que penso em você zanzando de carro em tempos inseguros e de miopia, minha Miss Magoo.

Quando viaja, também passo horas no ar, torcendo para que bote logo os pés de volta em terra firme e comece a diversão. Se fica doente, quero correr para sua casa, cozinhar a sopinha que ensinou a mim e ao meu irmão, e tantas vezes confirmou a receita e o passo-a-passo ao telefone depois que mudamos de cidade. E cuidar, por mais que seja difícil um filho entender os tipos de cuidado que uma mãe precisa, porque nessas horas elas tendem a mentir um bocado.

Será que está comendo direito? Será que a pressão do seu olho está controlada, continua com os exercícios, não pega friagem, está dormindo bem, está feliz, não está viciada demais no Facebook, não abusa dos privilégios de quem tem mais de 60 anos? Não estou deixando a desejar no zelo por você?

Acho incrível como se atira nas coisas. O seu coração é um saco sem fundo. Cuida de mim, do Du, cuida dos hóspedes da ABOS, com sua “princesa” em merecido destaque, da tropa no trabalho, dos amigos, da família, do Teco, do papagaio, das orquídeas, ainda que você acabe vindo só depois disso tudo. Hoje, adulto - putz! -, entendo que isso é sua vida. Esse monte de pecinha é o que te compõe.

Imagino todo dia você encontrando o próximo grande amor da sua vida, fazendo uma mala e indo viajar sem rumo. Aí me dá aquele ciúme louco de filho menino! E rememoro os dias em que passei a entendê-la como mulher e a respeitá-la e admirá-la ainda mais.

Não tenho porque colocar aqui o quanto você também é geniosa, cabeça dura, birrenta. O seu signo denuncia um pedaço e o que eu puxei dessas características quase completa o quadro. E já falei um pouco disso lá no dia das mães de 2006.

Talvez eu nunca consiga agradecer e amá-la o suficiente para deixar claro e pleno em seu coração a importância de entender quem eu sou, como eu sou e estar comigo para o que der e vier, mesmo que ali nos anos 60 ou 70 algumas coisas não estivessem previstas ou sequer aparecessem em canções ou novelas, e nos seus sonhos de maternidade talvez eu e o Du fôssemos um dedinho diferentes. Se não me falham a memória e o Google, Balzac diz: “o coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre o perdão”. Mais que isso, a compreensão, o amor, o acolhimento, a segurança.

Você nasceu para ser mãe de meninos.

A parte chata é que, quanto mais a gente cresce, menos tempo para conviver acaba tendo e mais escondemos a vontade/necessidade de colo, de bobos que viramos. Foi de você também que veio o ensinamento de que os momentos juntos, lado a lado, mesmo que poucas horas do relógio, podem ser um infinito quando estamos nos divertindo como bem sabemos fazer.

Lembra do post com a Jodie Foster, no qual falo sobre você enfrentar suas noites mais escuras para manter meus dias ensolarados? Nele ela diz para a mãe ficar tranquila, pois ela fez tudo certo na vida. Sim, está tudo certo. Sigamos aproveitando! Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Feliz aniversário, que Deus siga te dando uma vida repleta de bênçãos e alegrias.

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09/05/2013

O próprio viver é morrer

- I want to be forever young
- Do you really want to live forever?
- Forever, or never
- If you stay forever, hey, we can stay forever young
- May your heart always be joyful
- May your song always be sung, may you stay forever young
- Carve your number on my wall and maybe you will get a call from me
- Instead of carving up the wall, why don’t you open up, we talk?
- I am ready for a fall
- We are ready for the floor
- I'm hoping with chance, you might take this dance

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08/05/2013

Checklist

( ) Noção de que está tudo bem com você
( ) Alegria
( ) Companhias
( ) Amigos
( ) Amores
( ) Quebradas de cara
( ) Fôlego

My heart skipped a beat.

07/05/2013

Amor numa madrugada qualquer

Estou na firma, voltando agora do curso que lota minhas noites de segunda e quarta e alguns sábados. Deveria estar pilhado refletindo sobre tudo que vi por lá, sobre os projetos e desafios. Ou sobre o incrível show dos Paralamas, que comemoraram 30 anos - meus e deles - no Rio de Janeiro e que curti com pulos adolescentes, cantando em voz alta e dançandinho com Fe Fontes até duas e tanto da madrugada. "Você não sabe quantos planos eu já fiz, tudo que eu tinha pra perder eu já perdi, o seu exército invadindo o meu país". No trabalho. No filme que assisti. Mas estou pensando no amor. Não na paixão, na conquista, no frisson, mas no amor. E pensei nele antes da aula e do show, durante a aula e o show, durante o vôo de volta, durante o trabalho, na praia, ao longo do filme, o tempo todo.

Estou na firma porque não quero o silêncio cheio de lembranças de casa. O filme está no aparelho de DVD, o bolo está em cima do fogão, com apenas uma fatia comida. O colchão branco está no chão da sala, tem bebidas na geladeira. Eu estou na firma e o lustre colorido está com suas sete lâmpadas apagadas.

Tudo já foi dito sobre o amor, é verdade. Escrito, cantado, versado, vendido, acertado, estragado, gritado, chorado, sorrido...

Ele é fogo que arde sem se ver, é líquido, impulsiona heróis, gera ridículas cartas de amor. É como ser poeta, coisa difícil de definir. "É amar-te, assim perdidamente, é seres alma e sangue e vida em mim e dizê-lo cantando a toda a gente". É rédea, é deslumbre. Não tem fim.

Eu não sabia nada sobre amor até que passei um ano olhando para meu reflexo. Um ano dolorido e sozinho. Eu sabia sobre paixão, disputas, medo, concorrência, sexo (talvez), companhia, ser deixado para trás e replicar modelos. No entanto, nunca soube o amor e o respeito. E a alegria dessa dupla.

... I watched you suffer a dull aching pain, now you decided to show me the same...”

Aí, ao fim desse ano e de uma década, eu tive um estalo. Eu me vi nos livros, nas cartas, nos poemas, filmes e tudo mais. Eu quis olhar de dentro, não com um pé no resguardo. O que, sejamos honestos, ferve a cabeça e confunde ainda mais o dia a dia.

Talvez eu até agora não saiba, ninguém nunca vá saber, mas acredito na Carolina Ferraz. Diz ela que foi um amor, um único amor que veio, cruzou sua vida, tocou sua alma e ficou marcado em sua pele. E que numa quinta-feira a tarde de um ano qualquer, tropeçamos nesse amor já supostamente esquecido e percebemos que amor igual não há, e que aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referência afetiva mais sincera e profunda.

Marcado na pele. Elis está cantando algo semelhante ao lado deste post.

E acredito em Dante e que, ao fim de todo inferno, “do ledo céu as cousas belas, por circular aberta divisamos: saindo a ver tornamos as estrelas”.

Ele é oposto aos planos e aos portos seguros. Talvez eu esteja começando a entender o que é amar. Talvez esteja com síndrome do pânico.

O amor não é tecnologia. Sua história é batucada em uma máquina de escrever. Seu som é o de teclas, firme, lúdico, identificável, decifrável apenas se decodificado na página timbrada. O amor é o enroscar do mecanismo da máquina de escrever ao se digitar duas teclas simultaneamente. Velho, inevitável, errado e charmoso.

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Porque essa noite eu tive um pesadelo recorrente sem ter sido um mau menino.

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30/04/2013

As canções que você fez pra mim

- Ela adora um caráter jesuíta nas amizades
- Você é muito diferente, né
- Sou muito diferente. Meu caráter jesuíta não é só para amizades, é para o universo. E todos mais que houver
- (Risos) Para a galáxia
- Dou espelhos e quero devoção. E fé
- Cega
- Faca amolada
- Vaca atolada. Minha mãe cantava assim pra mim, demorei pra descobrir
- Eu demorei a saber que faca amolada não era uma faca que alguém deixou de saco cheio

24/04/2013

Bellini

O relâmpago “Je serais content quand tu seras mort” a despertou. Era o resto da fita que pusera para tocar.

Talvez por discordar do verso é que tenha conseguido voltar à consciência. “Je t'ai reçu à bras ouvert”, e de braços paralelos ao corpo seria a despedida. Aquilo fora uma construção, sufocante e linda. Este último dueto – não o fim da ópera – servira apenas para marcar na pele o início de uma ária.

Aquela foi a última vez em que se viram fisicamente. Quando conseguiu levantar da poltrona, sem saber se passou horas ou tempo demais escangalhada ali, pensou em fugir de sua própria vida e tentar algo novo e longe.

O pensamento óbvio era por onde começar. Por onde recomeçar. O que?

Jogou a comida, fria e enrugada. A comida fora sempre uma personagem coadjuvante. Lavou a louça, virou e recombinou a mobília. Abriu o armário do quarto. Os melhores textos foram no baú que ele mandou buscar dias antes. Sem rascunhos. As roupas foram na primeira mala. Lembrava-se da blusa listrada, com furos para os dedos. Pela foto imortalizada digitalmente, talvez. De resto não tinha memória exata.

Espreguiçou-se e resolveu ficar. Andar.

Por mais que fugisse, tocasse fogo na casa, corresse, é certo que carregaria aquela construção consigo. A cabeça não poderia ser renovada ou deixada no passado, estava pregada ao corpo e era muito mais rápida e honesta que o desejável para o tempo. Os tijolos e telhas seriam pesados demais e os alicerces teriam que ficar para trás.

Mudou alguns hábitos.

Teve outros amores, nunca acreditou em apenas um. Do terceiro trazia a agonia de nunca tê-lo deixado passar do tapete da porta de entrada. Do quinto uma sensação morna. Do sexto a retomada da sensação de beleza e segurança. Perdeu as contas. Não por serem muitos, mas por serem outros.

Tê-lo como seu nunca mais era o que menos lhe azedava a boca. Tê-lo como uma bruma envolvendo a estrada e obrigando a transitar sempre devagar e com atenção é que empapuçava. Já sabia que ele não era a personificação da beleza e alegria, tal qual Tadzio, mas ainda não sabia como não tropeçar em um narcísico fim similar ao de Aschenbach. A morte pelo desejo do reflexo.

Tantos anos que perdeu tentando ser o filme, quando poderia ser a trilha sonora. Esta ária era para que ela aprendesse sobre ela mesma! Obrigada a assumir. Pediu, em sua mente, algumas desculpas. Ah, como se arrependeu de coisas...

Ele e ela trocaram mensagens, algumas mais que amenas. Cartas íntimas. Ela conversava com os filmes. Foram desconhecendo-se em um terreno de intimidade que espectadores jamais entenderiam e julgavam a todo tempo. Ela mantinha poucos amigos.

O que ele estaria fazendo enquanto ela escrevia? O que ela fez enquanto ele assistiu ao filme do qual cita um trecho na última carta? Por que não podemos ser amigos, ele pergunta? Porque nunca fomos, responde a tela. Qual lugar mais teria gostado de conhecer? Com quem comentar coisas cotidianas? Seu toque fora superado? Esquecido?!

Descontou a ausência de uma companhia com quem fazer planos em conjunto no cartão de crédito. Tempo.

Um dia pendurou-se na escada, sacodiu o corpo, como quem dança ao balançar suspenso pelos braços, soltou um sorriso tímido, de cantinho. Era um passo. A névoa começava a orvalhar.

A vida possui mais fantasmas que nossos sonhos.

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"É como se eu não te convidasse pra festa, e mesmo assim ficasse bravo por você não ir."

10/04/2013

Cinco maiores arrependimentos antes de morrer

#1. "Eu gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim."

#2. "Eu gostaria de não ter trabalhado tanto."

#3. "Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos."

#4. "Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos."

#5. "Eu gostaria de ter me deixado ser mais feliz."

13/03/2013

Para brincar na gangorra: dois

- Te odeio.
- Por que, agora?
- Não, acho que desde sempre. Desde aquele dia em que você me pegou em casa, me tirou de casa, desde o dia em que nos beijamos no balanço do parquinho.
- Grandes ódios nascem assim, de tardes lindas e incríveis.
- Nascem e permanecem, guardados na dúvida, na esperança, na espera, na incerteza, no convívio casual.
- Não, quem nasce assim somos nós. Eu só estava sendo irônico. Os sentimentos, diria o clássico, nascem da insustentável leveza do ser. Do bonito, do incerto, do querer, do tocar. Aí a gente joga farinha, medo e vaidade, amassa tudo e embatuma.
- Também.
- Sempre te quis bem, mesmo quando brincamos na gangorra do parquinho.
- Eu quero.
- Chega de farinha, podemos ser carolinas?
- Podemos ser tudo e qualquer coisa, juntos.
- Todas as duplas, todas as combinações? Gosto das suas certezas frente a todo meu forro de gesso.
- Todas as possibilidades frente ao primeiro - do não primeiro - encontro.
- Desencontro. Desencanto. E meu vazio?
- Cheio de tudo de mim.

11/03/2013

Rede de Parceiros

Nunca escrevi um e-mail de despedida ao sair das empresas em que trabalhei. Rascunhei, agendei horário de envio, inseri os endereços das pessoas, mas nunca apertei enviar. Tudo por simbolismo, talvez. Não gostaria de encerrar nada ali. Queria carregar comigo os bons momentos, as pessoas que transpassaram minha vida além do profissional, o quanto aprendi e cresci em cada um desses lugares, o quanto me diverti, o quanto não me arrependi por ter seguido meus instintos na carreira. Ou o quanto aquilo foi chato pra caramba, sejamos honestos.

E ainda que seja um adulto_profissional, com Linkedin, carteira assinada, responsabilidades e obrigações, nada disso interessa ou conta quando nos pegamos fantasiando nossas vidas, como fossem os dias um perfeito roteiro, com o melhor dos finais. Minha passagem pela área de parcerias foi um pouco assim. O convite era para assumir uma área “cansada”, a qual não sabiam muito bem para onde apontar. Vim imaginando que seria um grande pepino e que teria uma porção de problemas. Longe disso.

Tive pouco a ensinar. A maior parte de meus quase dois anos aqui foi tentar extrair de cada um de vocês um potencial esmorecido pelo histórico. Vocês sabiam muito bem o tamanho de cada um, o espaço e especialidade de cada um e como fazer com isso uma trama firme, uma equipe coesa e que sabe trabalhar e encontrar saídas para as mais diversas situações, com pouca margem de manobra. E quem foi chegando logo percebeu esse perfil e soube se posicionar, agregar e entender que é parte fundamental do trabalho dos demais. E crescemos.

Aprendi muitíssimo. A ter uma equipe, o que refletir, o que absorver, o que é lealdade, honestidade e o real sentido de um time e trabalhar junto para um objetivo comum. Pude contar com vocês em todos os momentos. Imagino serem raros os “chefes” que nunca se sentiram desamparados ou “na mão” um dia sequer durante mais de um ano de trabalho em grupo.

Que nos cruzemos outras vezes pelo mundo profissional, como chefes, chefiados ou pares, que suas carreiras sejam alegres e abençoadas.  =)

Obrigado.

28/02/2013

Moonrise Kingdom

- Why do you always use binoculars?
- It helps me see things closer. Even if they're not very far away. I pretend it's my magic power.
- That sounds like poetry. Poems don't always have to rhyme, you know. They're just supposed to be creative.

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- I'm sorry, Walt.
- It's not your fault. Which injuries are you apologizing for, specifically?
- Specifically? Whichever ones still hurt.
- Half of those were self-inflicted.

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- I love you, but you don't know what you're talking about.
- I love you too.


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Das vontades de uma fuga em um universo pequeno e infinito, em tons saturados. Uma dança sem pé nem cabeça, de roupas de baixo, na areia da praia. Dormir ao som daquela voz lendo aos seus ouvidos. A vida em um mala, uma mala para encontrar a vida.

Hoje tive dois momentos para notar como nossa existência vai se refazendo. A seu tempo, não ao tempo de nossa pressa. Em uma intrincada arqueologia, escavando os campos do coração e cabeça, sem que parem sístole, diástole e sinapses, selecionando o que se restaura, o que se reconstrói, o que se descarta e buscando algumas tímidas peças para o Museu de Grandes Novidades. 

27/02/2013

Aquário - Dreams of visions

"A quadratura entre a Lua e Plutão pode fazer você avaliar de uma forma muito dura as possíveis falhas no seu conhecimento e na sua cultura. Em vez de tentar disfarçar a insegurança, faça perguntas. E dê aos outros, e a você mesmo, a permissão para não saber tudo. Você pode sentir uma atração muito grande por qualquer coisa que seja capaz de mudar radicalmente a rotina do dia a dia. Planeje as mudanças com cuidado."

13/02/2013

O que leva um dia até outro dia

Eu nasci apressado em uma quarta-feira de cinzas. Eu sou um pouco quarta-feira de cinzas - a Marcha da Quarta-feira de Cinzas -, característica que tatuei na panturrilha esquerda. Solidões e eterna sensação de fim. Não sei se isso está mudando com a idade ou se estou passando a entender melhor.

Na véspera desta quarta, cheguei em casa um pouco mais tarde do que planejei. Carnaval por todas as ruas, por todas as pessoas, diversão obrigatoriamente imensa. As coisas estavam em silêncio e, estranhamente, não liguei a TV ao entrar, gesto praticamente automático. Subi lentamente as escadas, tomei banho, organizei algumas coisas e roupas. Durante esse ritual, sussurrei a música "The Parting Glass". Não sei o que ela fazia em minha cabeça após tantas marchinhas, sambas e axés. O tom talvez fosse um pouco mais melancólico que o desejável para a data. 

A primeira vez que ouvi essa canção foi em um seriado, durante uma cena em que uma família se despede da sede de seus negócios, que chegam ao fim. Apagam as luzes, uma a uma, desejam boa noite à empresa. Não se despedem uns dos outros, mas do lugar. Do tempo. Muitos simbolismos para ilustrar um daqueles raros momentos em que temos a consciência de que as coisas não mais serão as mesmas. Podem ser melhores, mas certamente mudarão.

Aproveito a sensação para pegar meu caderno de rascunhos e a caixa de lembranças. Estranho vasculhar dentro da gente. Quem fomos, o que somos, o que planejamos, o que aconteceu. Algumas frases ainda fazem sentido, soam, quem sabe, como uma mensagem enviada ao futuro. Passo a vasculhar memórias digitais. Há um post de setembro de 2004 com uma foto do prédio da firma e a legenda: “Quem sabe um dia”. Este, agora. Estão ali grandes amores, grandes momentos. Encenação, também. Escolhas. Muita coisa mudou, dentro e ao redor, mas ainda sou um menino (menino?) das mesmas músicas, dos mesmos poemas, das mesmas besteiras.

Ouço "The Parting Glass", três versões diferentes. Encontro a cena do seriado. O sono, tão raro, veio. E a calma. Apaguei as luzes, desejei boa noite. Este talvez seja um desses momentos.

Eu comecei em uma quarta-feira de cinzas.

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar (...)
Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

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12/02/2013

Like Crazy

"I just have to say this one thing, and it's really important that you listen to me. It just doesn't feel like this thing is ever gonna go away. It's always there. I can't get on with my life. The things that we have with each other, I don't have with any other person, with any other human being."


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Dos filmes do carnaval.

07/02/2013

Mr. Gorbachev, tear down this wall

- What do I do when my love is away?
- Does it worry you to be alone?
- How do I feel by the end of the day?
- Are you sad because you're on your own?
- No, I get by, high, gonna try with a little help from my friends.
- Do you need anybody?
- I need somebody to love.
- Could it be anybody?
- I want somebody to love.
- Would you believe in a love at first sight?
- Yes, I'm certain that it happens all the time.
- What do you see when you turn out the light?
- I can't tell you, but I know it's mine.

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Dez últimos dias de uma bela década e um imenso frio na barriga.

31/01/2013

A small voice said "resist"

- Upon my heart: just one slow dance, I'll rescue you
- American Pie: can you teach me how to dance real slow?

I knew if I had my chance that I could make those people dance and maybe they'd be happy for a while…

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30/01/2013

Não vá ainda

- Não vai. Espera amanhecer. Não é isso que diz aquela música?
- É espera anoitecer. A noite é linda, me espera adormecer. Risos.
- Já está noite. Linda. Tanto melhor.
- Mas preciso...
- Ainda tem tanta novidade pra gente caçar.
- Talvez eu esteja cansado...
- Talvez você esteja fugindo.
- Talvez eu esteja inventando.
- Talvez você esteja machucado.
- Só o tempo, não?
- O remédio está aí dentro. Aí, ó. Não desconta no tempo.
- Descontar?!
- Vem logo. O novo acelera, se seu problema é o tempo.
- Tenho medo do novo, tenho medo do passar do tempo.
- Fecha os olhos, então. Te levo pela mão e vou contando, até que você não resista a espiar com esses olhos esbugalhados.

29/01/2013

Sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou

Da Folha de S. Paulo / NYT

(...) Criados na era do "ficar", os jovens da geração do milênio (também conhecidos como geração Y), que agora estão começando a pensar em se assentar, vêm subvertendo as regras da sedução.

(...) Eles entram em contato por mensagens de texto, posts no Facebook, MSN ou semelhantes e outras formas de "não encontros". Tudo isso vem deixando uma geração que não sabe como conseguir um namorado ou uma namorada.

"O novo encontro não é um encontro, é passar tempo juntos", comentou Denise Hewett, 24, produtora de TV em Nova York que está criando um seriado sobre essa nova paisagem romântica. Como um amigo lhe disse: "Não gosto de levar uma garota para sair. Gosto que ela me encontre em alguma coisa que estou fazendo - ir a um evento, um show, por exemplo".

(...) O problema, disse ela, é que "os jovens de hoje não sabem o que fazer além de 'ficar'.

(...) Para fazer a corte a alguém do modo tradicional - ou seja, pegar o telefone e convidar a pessoa para sair - era preciso coragem, planejamento e um investimento considerável de ego (uma rejeição ouvida pelo telefone dói).

Não é o caso com as mensagens de texto, os e-mails, o Twitter. (...) No contexto do relacionamento, esses tipos de comunicação dispensam o charme, em grande medida.

Diante de um fluxo interminável de solteiros entre os quais escolher nos sites de encontros on-line, muitas pessoas têm medo de estar perdendo alguma coisa interessante, então optam pela abordagem "speed-dating" - ou seja, passam rapidamente por grande número de pretendentes. (...)

"É como jogar dardos contra um alvo", disse Joshua Sky, 26, coordenador de "branding" em Manhattan. "Alguma hora uma das setas vai grudar no alvo."

Há outra razão que explica por que os encontros à moda tradicional tornaram-se obsoletos. Se o objetivo do primeiro encontro era saber um pouco sobre as origens do pretendente, seu grau de instrução, suas tendências políticas e seus gostos, hoje o Google e o Facebook cuidam de tudo isso. (...)


Matéria completa: Jovens subvertem regras da sedução com 'não encontros'

28/01/2013

Janeiro

Até o meio da adolescência olhava para o Rio com a cara amarrada. Eram memórias dos tempos da separação de meus pais, a idéia de violência, a resistência com o sal e a areia. Até que, nas catracas do metrô de São Paulo, dei um passo na direção contrária e voltei a calçar meus chinelos e fazer uma pequena mala.

Gabriel me fez entender a vida no Rio, os cariocas e seu abraço. Nossos dias na Tijuca ainda tinham muito dessas linhas que escrevi acima, mas foi o começo do desmanchar. Foi o tempo da cidade, não da praia. Scrumble, Gummy, comida da Tia Wanda, família, flauta transversa e passeios alternativíssimos para o Lucasof de então. A Floresta da Tijuca de All Star, foto lá no topo e bolhas nos pés. Os amigos, a faculdade, a estação Saens Peña e a praça Varnhagen, que o sotaque transformava em algo engraçado. As despedidas. "A onda ainda quebra na praia, espumas se misturam com o vento", canta Lenine quando rememoro.

Thais, a superlativa Thata, que define o Rio como "o mar, quatro quadras e uma enorme pedra", quando fomos juntos à um casamento, me fez voltar a pisar a areia, comer empada dos vendedores ambulantes, ouvir a música que entoam para vender mate, sanduíche natural, biscoito Globo. Entrar no mar, sorrir para o sol, caminhar sem rumo, sem porquê, feliz.

Com o Caio foram dias que alguns posts anteriores sintetizam melhor do que poderia fazer neste texto. Foram lindos. Foram tantas regatas e caipirinhas na praia, lanches no quarto do hotel. Shopping, claro, porque somos paulistas. As caminhadas no calçadão, ainda que trôpegas, poderiam ser uma gravação de videoclipe para música de Avril, que perseguimos e assustamos. A graça de um macaquinho comendo bolacha no caminho para o Cristo e seus incansáveis braços erguidos. E, asseguro, as memórias todas ainda estão lá. Acabei de conferir. As melhores, as coradas, sustentadas por muita isca de peixe. As outras, nubladas, choveram, permearam a areia e refizeram-se.

Bethânia declama o lado que menos visito, mas a aura do todo. “Foi Copacabana quem me recebeu, com seu cheiro de batata-frita e gasolina, suas tardes de raios e trovões inesperados e as suas noites inesquecíveis, mágicas”. O botão "stop" apertado na década de 1970.

Toda ida para lá carrega comigo um pouco de angústia; desafiar minha inerente solidão, o nada do mundo de História Sem Fim. Passa ao desembarcar, porque sei que ali existe alegria e calor. Em vez de Fantasia se desfazendo, é Pleasantville ganhando cores. Technicolor. São todas as músicas já compostas. 



Por entre túneis escuros, ruas decadentes, casarões esfarelando, morros e artérias vermelha e amarela chega-se a visuais incríveis. São caminhos. Passagens.

O Rio e eu estamos constantemente fazendo as pazes, melancólicos como a voz de Johnny Cash. Pedindo um ao outro 'perdão pela duração dessa temporada, dizendo pros da pesada que vamos levando'.

Agora, cercado de amigos das mais diversas origens e corações, junto mais uma porção de lembranças sobre a cidade. Fe Fontes regeu esses dias com seu encanto que transborda. Lets e seu sorrisão atravessaram comigo a avenida atrás do bloco de carnaval, embaixo da chuva, depois de muito sol. É assim, mistura. Vinny e sua busca pela fuga de todo o concreto de Brasília. E gente nova. Conhecer. Rir. Mudar. Continuar.


Aprendi a fazer do Rio minha notícia boa.

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