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  17/07/2011
Cem bexigas no teto

“Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar,
há um adeus em cada gesto, em cada olhar,
mas nós não temos é coragem de falar”


A crônica de Ivan Angelo na Vejinha da semana passada começa com esses versos de Dolores Duran, e é toda sobre separação. Que momento dolorido e injusto com os começos, com as histórias! Embora, quem sabe, os começos já contenham traços de fim.

Eu vinha, sem dúvida, fatigado e triste. Eu vinha fatigante e entristecedor. Eu queria carinho e um chacoalhão, eu queria que me esfregassem o quão bom é sair pelo mundo de mãos dadas. Eu queria descansar e rir. Queria alguém que se impusesse e me botasse pra ver as coisas legais e ouvir histórias, embora eu achasse que adorava mostrar e contar. Nesse meio tempo, troquei alguns pés por mãos. Ao mesmo tempo, dei subsídios.

Você tinha certeza de que era de um jeito e de como seria sua história de amor, mas eu nunca me encaixei no papel de par.

Acabei fechando esse livro e sendo uma porta aberta para uma vida escondida (sufocada, insinuam alguns traços), mas não fui convidado a entrar. Abri meu espaço, minhas coisas, minhas baladas, meu mundo. Queria conhecer os seus amigos, mas você dizia não ter. Conforme surgiam, ficavam bem separados, por propósitos que hoje conhecemos.

A história contada, a coisa preferir casa em vez de muvuca, foi esmorecendo. Mas não fui participando disso, fomos virando paralelos, concorrentes. Fui virando um monstro, para que o monstro nunca conseguisse me engolir, como canta o U2. Sou um poço de medo e insegurança, agrido para esconder isso tudo.

Esses amigos passaram a ser a verdade, enquanto o que vivíamos era despedaçado a marretadas. A saída de um casulo de concreto. Borboletas ou morcegos, feios ou bonitos, noturnos ou diurnos, voamos. Explodimos.

As roupas não cabiam mais, ou eram largas, xadrez ou ingênuas demais. Os modelos não podiam mais ser aplicados, as verdades eram outras, mas o discurso, esse continuava o mesmo.

Eu talvez tenha estendido timidamente, mas você nunca quis dar-me a mão. Nossa história foi como a açucarada casquinha do crème brûlée. Embora pareça resistente, basta uma ligeira colherada para que ela se parta e perca toda a coesão e proteção que oferecia. Tentar restaurá-la acabaria queimando e amargando. Ainda assim, ela continuará sendo doce. E cumpriu o seu papel.

Fico com minha casa, que agora não serve mais a parte de seus propósitos, mas que devo encarar e voltar a fazê-la completa e minha. Quero parar de ser refém nesse espaço que sempre foi uma amada bolha blindada. Vou trocar de edredon.

Talvez eu não saiba o que é amor. E se ele é mesmo uma coisa fortemente vinculada a cumplicidade, como imagino, acho que nunca o vivi.

Eu, que sempre tento juntar as coisas e as pessoas, vou juntar as partes boas de todos os possíveis amores que tive, sorrir, cumprir os cerimoniais oficiais de término e seguir. Porque, fato, não sabemos o tempo de cada vida.

O discurso mudou. Foi tão dolorido ouvir a canção que eu não conseguiria cantar no tom certo.

Sem bexigas no teto.

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