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25 de out. de 2023

Chicken or pasta?

Esses dias, para tentar aplacar um pouco a ansiedade fugindo da rotina (e me aproximando cada vez mais do Serasa), fui de última hora encontrar um amigo em Salvador. Um pulinho, de quinta à domingo. Os dias estavam nublados, mas iluminados por tranquilidade e sorrisos. Fomos jantar. Surpresa, eram frutos do mar. 

Eu comi bem, Rod comeu o dobro, pois eu não gosto de frutos do mar. Então ele desatou a refletir que, mesmo depois de uns dez anos de amizade, ainda não sabia que eu não gosto de frutos do mar. Quem me apresentou o Rod foi a Malu, um dia em que a convidei pra jantar em casa e ela perguntou se poderia levar um amigo. Trabalhávamos todos na Editora Abril, eu fiz pão de linguiça; éramos jovens, a digestão era boa, o fluxo ainda não trazia o “re” e as veias eram mais abertas que as da América Latina (uma piada “sin grasa”). Aquela noite foi um encontro de três almas perdidas nadando em uma cumbuca. Ele e eu engatamos uma amizade que já viu mais coisas do que nossa kombi filosófica possa imaginar. 

Por falar em filosofia, ele é a parte mais racional da dupla, mas o espírito obsessor paira em ambos e o tanto de aventuras e loucuras que somamos já foge da possibilidade de auditoria para confirmar os números atuais. E as conversas reflexivas atritando o asfalto nas idas e vindas entre Sorocaba, nossa terra natal, e São Paulo, onde moro, sempre me sacodem e engrandecem. 

Ele andou quilômetros à toa - e à pé - comigo enquanto um ex-namorado tirava as coisas de casa após o término. Ele me acolheu na casa dele, na vida dele, estando eu sóbrio ou não. Ele cuida do Costelinha com todo o carinho, ele visita minha mãe e anima os fins de tarde e noites de domingo, nos enchendo de fôlego e fazendo tudo parecer mais leve e divertido.

É um dos amigos mais nômades, um cigano vagando pelo mundo em busca de um acordo entre a luxúria e o afeto. Onde quer que ele esteja, entre as outras inúmeras coisas que me lembram da nossa amizade, toda vez que driblo um tentáculo ou preciso tomar um imenso gole de água para engolir uma ostra eu dou um largo sorriso.

O Rod não sabia que eu não gosto de frutos do mar, mas conhece cada cantinho do emaranhado de sinapses do meu cérebro e cada loucurinha do repique das sístoles e diástoles do meu coração. Ele sabe me abraçar e me fazer feliz. E, afinal, o que seriam das próximas horas e novas histórias de uma boa amizade sem uma pitada do desconhecido e do mistério, não é mesmo?



18 de abr. de 2021

A química do imponderável

Sempre que vou dar um conselho ou palpite para um dos meus melhores amigos, mais novo do que eu, começo a frase dizendo: “Eu, aqui do futuro...” . Obviamente a diferença de idade não me coloca no futuro, estamos vivendo simultaneamente. Cada um com suas especificidades e seu próprio tempo, mas juntos no calendário. Logo seremos todos mais uma camada geológica na terra.

A diferença de idade não me coloca no futuro nesse cenário, mas os anos de 2021 no calendário gregoriano ou de 5781 no calendário judaico me colocam no futuro para o Lucasof de uns 20 anos atrás. Vez por outra me pego pensando o que ele me perguntaria. E, o mais complicado, o que eu responderia?

Como diria Gabriel Garcia Marquez, eu não venho fazer um discurso ou interferir no seu caminho, afinal, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar e eu não quero tirar-lhe a imensidão e a beleza dessa trilha. Aqui, do futuro, posso dizer que as coisas estão indo bem. Loucas. Os carros não voam, mas os aviões estão mais rápidos. Interagimos e conversamos com pequenas telas que carregamos no bolso ou na bolsa e viramos nós mesmos paisagens solitárias de cartões postais chamados selfies. Escrevemos pequenas legendas para preencher um grande vazio, parecido com o que você sente sozinho em São Bernardo do Campo durante a faculdade, e enviamos para o mundo inteiro, sem saber ao certo quem vai receber. Em vez de um selo para poder enviar, esperamos carimbos de aprovação após o envio. Curtiu, amou?

Você virou mesmo um jornalista, trabalhou nas maiores editoras do país, realizou seu sonho naquele icônico prédio à margem do Rio Pinheiros. Hoje constrói novos sonhos trabalhando na bandeira do cartão de crédito. Fique tranquilo, ela também tem se reinventado ultimamente. Alguns dizem que você se casou, outros que só morou junto. Foi uma baita aventura! E tem outras por aí. Você teve - e nós teremos! - grandes e únicos amores.

Sim, você é gay. A mini Beyoncé que tomava conta do seu corpo durante as aulas de piano já nos dava uma pista. Poderia dizer para você Googlar esse nome, Beyoncé, mas também não faria sentido. Você ainda usa a enciclopédia da biblioteca para fazer suas pesquisas. Um dia você vai saber quem ela é e talvez tomem uma limonada juntos. Você vai ler Brecht e, em outros dias, vai usar toda a angústia como força para tentar fazer uma mínima diferença no mundo. O Duda vai abrir caminhos e a mãe vai peitar tudo e todos por você. Aliás, isso vai te livrar de passar um ano servindo o exército. “Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Você ainda não sabe dançar direito e nem andar de patins. Vai aceitar os cachos do seu cabelo, até que ele vai cansar e começar a cair. Tudo bem, você vai incentivar os cachos de um dos seus melhores amigos e raspar a cabeça durante uma pandemia. Pois é!

Uma a uma, você criou coragem pra pintar as unhas que parou de roer em nome da higiene e de frear a contaminação pelo corona vírus, o da pandemia. Estamos usando máscaras o tempo todo! Veja só se não é um grifo de Fernando Pessoa. Alguns dos seu maiores medos também cruzaram o caminho e você ainda duvida de suas qualidades e competências. No meio disso tudo e de uma jornada com a mãe, você vai tirar forças de várias caixas e gavetas para seguir adiante. A gente chora muito mais hoje em dia, enquanto vê o colágeno pelo retrovisor.

Falando em retrovisor, seus “amigos pra vida toda” viraram boas lembranças pra vida inteira. Ou até onde o cérebro mantiver arquivado. Mas você encontrou uma família pelo caminho, já que a sua oficial nem sempre cabia muito. Você escolheu o nome de uma de suas músicas favoritas para batizar sua cachorra, grande demais pro apartamento em que você vai morar. Ela, Ruby Tuesday, vai se mancomunar com a mãe e se refugiar na chácara. E vem o Costelinha, tão pitico. Eles são grandes companheiros.

As máquinas estão evoluindo e aprendendo, já a humanidade eu não posso confirmar. A gente ainda monta Lego. Digo a gente porque suas sobrinhas gêmeas também gostam! É mais fácil encaixar essas peças do que colocar cada pensamento e cada sentimento em seu devido lugar. Não bata muito a cabeça com isso. Agora chega de eu fazer o que a juventude atual chama de spoiler. Um último palpite: escreva muito, porque as novas gerações não são dadas a “textões”.

Encontre boas maneiras para falar o que pensa e o que sente. Você tem uma mágica que talvez perca pelo caminho. Ou esconda. A gente duvida do ar, mas acredita no vento. Confie na dica do Rugol e banho gelado da sua avó. Engate a marcha e venha tranquilo, porque a areia da ampulheta é macia ao tocar os pés. “A matéria-prima do ar, das rochas e da vida foi e continua sendo forjada pelas pressões gigantescas que existem no coração das maiores estrelas.” Somos todos poeira de estrelas. E eu, aqui do futuro, só existo porque você é uma supernova.
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29 de jan. de 2014

Cantigas de amigo

- As cantigas de amigo sempre foram as mais legais. Gosto de uma na qual a moça lava as garcetas. Tempos de pura ousadia.
- Gosto que você lembra de alguma coisa. Eu jamais conseguiria.
- Eu sei a Cantiga da Ribeirinha de cor, achava que poderia, um dia, flertar em galego-português. Nunca me serviu de nada, além de ocupar espaço em um cérebro com uma organização e prioridades duvidosas.
- As que eu sabia de cor são todas da escola mais óbvia, Romantismo.
- Eu adorava, o Lulu Santos também.
- Mal do Século era meu assunto favorito. Não conversava muito.
- Talvez vocês sejam os últimos românticos. Spleen.
- Bom, pelo menos um de nós ganhou uma puta grana com isso.
- Nãnãnãnã, aperta minha mão. Agora eu sou Dadaísta, o trabalho me fez empacar nessa escola.
- Antes Dadaísmo que Parnasianismo, detesto Parnasianismo. Gostava de Modernismo, também. O 'r-r-r' no meio das estrofes dava uma sonoridade bacana.
- Rapaz! É o triunfo das rimas ricas, arte pela arte!
- Adoro rimas ricas, mas não aguentava aqueles poemas longos, que não diziam nada.
- É, não diziam nada, fato. Prefiro o Simbolismo de rimas paupérrimas. E amanhã podemos falar sobre Haroldo de Campos.
- Adoro a palavra 'paupérrima', devia usar mais no cotidiano.
- Eu gosto demais. Vem a Elis cantando em minha cabeça, tipo o sax da barba: "É pau, é pérrima, é o fim do caminho, tchararara".
- Nossos tópicos são meio que experiências cognitivas.
- Um tratado para gerações futuras, que estarão evaporando a liquidez destes tempos, sem entender nada.
- Já temos mais para a introdução do nosso livro.
- Pirata barba macia, vou me recolher aos meus aposentos.
- Não soa como um nome de pirata de grande credibilidade, mas funciona. Também vou dormir para ver se amanhã faço algo que preste, tipo uma Cantiga de Amigo.
- Acho bem contemporâneo e consistente. E patrocinável. Eu vou lavar minhas garcetas pela manhã e perguntar algo tenso para as flores de meu verde pinho. Boa noite, até amanhã, beijo simbolista.

- O meu beijo de boa noite vai seguir o clichê e ser romântico. Beijo e boa noite.
- Um beijo subjetivo e idealizado ou grotesco e sublime? A resposta você confere na próxima aula.
- Aguardaremos. Eu, o subjetivo, o idealizado, o grotesco e o sublime.

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"We'd like to know a little bit about you for our files, we'd like to help you learn to help yourself"

22 de ago. de 2013

Fui ao Orkut e resgatei um testimonial

"Lucasof é um menino-homem travestido de ditador mexicano que, apesar de toda a sua experiência e maturidade, persiste em esconder seus medos e sua fragilidade por trás de lindos olhos azuis. É tão genial que consegue construir uma imagem de 'cara insuportável', mas logo se contradiz, quando deixa seu lado moleque-palhaço a solta. Filosofa e chora e canta e ri e abraça e pede colo. No fim, sempre tira de mim uma expressão de 'ooooown, que fofo!', que eu odeio. Passou de chefe a conselheiro e ganhou um status incrível no meu coração.

Só posso dizer que hoje, 1 ano e meio depois de ter te conhecido, sorrio ao lembrar de cada conversa, cada bronca, cada piada, cada Skittles... E carrego por todos os cantos daquele prédio na marginal, as tuas últimas palavras, no meu dia de despedida da Rua Amauri. Você, Lucasof, é foda!"

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Obrigado, Alininha! =)
Direto "daquele prédio na marginal", o qual dividimos por pouco tempo, infelizmente. 

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"(...) Lo importante no es entrar
en todas la casas, sino no estar
totalmente afuera de ellas (...)"

6 de ago. de 2013

Caleidoscópio

A aproximação foi via amigos em comum na faculdade, mas não consigo recordar se houve um momento específico depois do qual estreitamos ou se foi uma evolução natural da espécie.

Um ano após a formatura, em 2007, falei sobre você. Era um testemunho no Orkut - bons tempos - no qual grifava aspectos divertidos. A síntese era uma menina que habitava um mundo "Rock & Roll hype vintage hypercool", seja lá o que isso signifique, e me ensinava que "amizade não é sufoco e silêncios podem ser cúmplices, não constrangedores". Já era linda aos meus olhos e ao meu coração. Amiga lá de longe, da beira da capital, e nas caronas de ida e vinda sempre aproveitei para dividir pedaços de mim. Talvez você seja a primeira-dama do Cibié.

Agora você mora perto, posso ir andando. E como fujo para sua casa! Com paredes de chita colorida e quadros de viagem, cinema e rock. E, sim, com um terracinho todo seu. Gosto de saber que sou parte disso. Gosto de poder achar que estou cochilando escondido enquanto vemos filmes, e que você vela essa soneca porque sabe que, nesse momento, é o que preciso além do seu abraço. Em troca, aceito dividir a pipoca no cinema.

Quando não trabalhávamos juntos, ia de São Bernardo até a Casa das Rosas para passar tardes com você e Lemp, comendo cocada e falando besteiras.

Viajamos. Desde o planejamento de longas viagens, tentando encaixar 153 lugares e afazeres em 30 dias de férias, até fugas rápidas para a praia ou indo aos shows de bandas de nossa adolescência.

Você me leva ao estádio para os jogos do Corinthians, ao samba, dança minhas músicas, cantamos juntos caminhando pelo bairro. “Quando piso em folhas secas”. "We came to far to give up who we are". "Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho". Elogia a bricolagem, embora nem sempre confie de primeira nos meus feitos. Diz que sou forte quando carrego coisas pesadas, me faz dançar forró e diz que dancei direitinho. Não pelo peso ou pela força, pelos passos corretos ou pelo ritmo, mas pela graça.

Sabe meus maduros e meus podres. E dá broncas! Você me desarma. Faz com que eu entenda a vida, meus pais, meus amigos, meu irmão. Meus irmãos, talvez. E quão importante é entender algo antes de alguns sentimentos.

Não sei mais imaginar um dia sem pensar que você será parte dele. Se não imediatamente ao lado, nas mensagens, nas ligações, nas ideias. Tenho a sensação de sermos infinitos. Todavia, caso o mundo físico se altere, você vai continuar para sempre a fazer parte da minha existência, disso estou certo. Em meus pensamentos, em minha pele, em minhas palavras e em meu coração.

Você é um terremoto que bota tudo no lugar e me dá fôlego. Você me salva dia após dia durante tempestades e engrandece meu sorriso quando não estou envolto em besteiras.

Obrigado. Te amo.


     Desde 2003, a gente só fez foi ficar cada vez mais lindo. =)

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19 de jul. de 2013

A alma viaja com a velocidade de um camelo

Não sei se você já assistiu ao lançamento de um ônibus espacial. Estão na base, juntos, o ônibus, o tanque externo e dois foguetes propulsores, acoplados como uma coisa única, dependentes. Ao redor, muita expectativa. Protocolos precisam ser seguidos, uma extensa lista de tarefas precisa ser cumprida, várias pessoas de olho. Na parte inferior da imensa armação metálica e dos braços mecânicos que sustentam o conjunto, nota-se o momento da ignição.

10, 9, ignition sequence start, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0, all engines running. Liftoff!

De perto é uma grande explosão, calor e fumaça. De longe, um pontinho ascendente com um arqueado rastro branco. Em poucos segundos, dois foguetes ficam para trás e caem no mar. Em órbita, o tanque vai para um lado, o ônibus espacial segue sua rota. Estiveram juntos e dependentes o tempo necessário para a subida, complementares. Agora seguem destinos diferentes e separados, mas ambos estão no caminho certo, pois podemos olhar isso de qualquer ângulo, sob qualquer ótica, girando o mapa estelar como bem quisermos. E só foi possível chegarem ali porque estiveram lado a lado, cumprindo uma missão.

É um momento bonito, de ansiedade, mudança, energia, explosão, rompimento de barreiras, descobertas.

Sobre nós, naves loucas, aqui, da terra, é característico pensarmos que somos os únicos com determinado sentimento. Ninguém ao nosso redor está nessa sintonia, o que nos torna um pouco marginais. Grande mentira.

Não é com alegria que a recebo, dizendo, com um sorriso, que estarei sempre aqui (não neste blog, mas ao seu lado) para o que quiser ou precisar, sejam conversas, silêncios, colo ou excessos.

Imaginei que ao longo da vida evoluiríamos para tranquilidade ou situações sob controle, mas não é bem assim. Tenho dias de intensa melancolia e sequer consigo explicar o motivo. A parte válida é que parecemos manter uma boa qualidade física. Tudo bem termos encontrado uma metade de laranja e não sabermos se é lima ou pêra. Vamos de uva e kiwi para nos divertirmos. Será uma sombreada natureza-morta de Caravaggio, até a vida retomar a fase de alegria espontânea e noites estreladas de Van Gogh.

A gente vai se doutrinando a depender de pouco, a encontrar conforto em nós mesmos, para depois agregar coisas ao redor, o contrário do ônibus.

Você vai achar que isso é um monte de baboseira vazia e que estou inventando, mas, como já te disse, passa. Demora, é ruim e, em parte, um grande exercício, mas passa.

Para acelerar, a única saída é se forçar a novos hábitos, ocupar todos os momentos com qualquer coisa, até criar uma rotina nova e viver cercada de amigos.

Assiste-se a uma porção de filmes, chora-se com um monte de músicas. É um aprendizado. Entortei três namoros para tatear a necessidade de estarmos bem e seguros sozinhos para depois dividirmos uma vida, ou depositaremos valores errôneos em outra pessoa e cobraremos juros impagáveis.

Não somos sozinhos em um relacionamento. Vale buscar ajustes, mudança, crescimento, mas não vale muito tentar colocar marcos e características.

O tempo vira a gente do avesso. Parece mágica, parece piegas, mas eles estavam certos. O tempo rouba os anéis de Saturno e traz juízo. E com as coisas que não passam, como alguns sentimentos, a gente vai ganhando serenidade pra saber lidar, driblar, seguir.

Dá muito medo o terreno desconhecido e incontrolável, até que você vai entendendo que não tem a rédea, mas pode descer do cavalo e caminhar ao lado dele. E que o medo é um mix de vários outros sentimentos embalados para viagem.

Não bata de frente quando os momentos pegarem pesado. Mande um pivô ao melhor estilo Luiza Brunet e corra para a minha casa. Tenha um colchão itinerante e antiácidos. Para balancear, não fuja de vez da solidão. Como diz Contardo Calligaris, ela “é a condição do diálogo moral de cada um com sua consciência”.

Estamos bem. Estamos prontos para a próxima decolagem.

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30 de abr. de 2013

As canções que você fez pra mim

- Ela adora um caráter jesuíta nas amizades
- Você é muito diferente, né
- Sou muito diferente. Meu caráter jesuíta não é só para amizades, é para o universo. E todos mais que houver
- (Risos) Para a galáxia
- Dou espelhos e quero devoção. E fé
- Cega
- Faca amolada
- Vaca atolada. Minha mãe cantava assim pra mim, demorei pra descobrir
- Eu demorei a saber que faca amolada não era uma faca que alguém deixou de saco cheio

28 de jan. de 2013

Janeiro

Até o meio da adolescência olhava para o Rio com a cara amarrada. Eram memórias dos tempos da separação de meus pais, a idéia de violência, a resistência com o sal e a areia. Até que, nas catracas do metrô de São Paulo, dei um passo na direção contrária e voltei a calçar meus chinelos e fazer uma pequena mala.

Gabriel me fez entender a vida no Rio, os cariocas e seu abraço. Nossos dias na Tijuca ainda tinham muito dessas linhas que escrevi acima, mas foi o começo do desmanchar. Foi o tempo da cidade, não da praia. Scrumble, Gummy, comida da Tia Wanda, família, flauta transversa e passeios alternativíssimos para o Lucasof de então. A Floresta da Tijuca de All Star, foto lá no topo e bolhas nos pés. Os amigos, a faculdade, a estação Saens Peña e a praça Varnhagen, que o sotaque transformava em algo engraçado. As despedidas. "A onda ainda quebra na praia, espumas se misturam com o vento", canta Lenine quando rememoro.

Thais, a superlativa Thata, que define o Rio como "o mar, quatro quadras e uma enorme pedra", quando fomos juntos à um casamento, me fez voltar a pisar a areia, comer empada dos vendedores ambulantes, ouvir a música que entoam para vender mate, sanduíche natural, biscoito Globo. Entrar no mar, sorrir para o sol, caminhar sem rumo, sem porquê, feliz.

Com o Caio foram dias que alguns posts anteriores sintetizam melhor do que poderia fazer neste texto. Foram lindos. Foram tantas regatas e caipirinhas na praia, lanches no quarto do hotel. Shopping, claro, porque somos paulistas. As caminhadas no calçadão, ainda que trôpegas, poderiam ser uma gravação de videoclipe para música de Avril, que perseguimos e assustamos. A graça de um macaquinho comendo bolacha no caminho para o Cristo e seus incansáveis braços erguidos. E, asseguro, as memórias todas ainda estão lá. Acabei de conferir. As melhores, as coradas, sustentadas por muita isca de peixe. As outras, nubladas, choveram, permearam a areia e refizeram-se.

Bethânia declama o lado que menos visito, mas a aura do todo. “Foi Copacabana quem me recebeu, com seu cheiro de batata-frita e gasolina, suas tardes de raios e trovões inesperados e as suas noites inesquecíveis, mágicas”. O botão "stop" apertado na década de 1970.

Toda ida para lá carrega comigo um pouco de angústia; desafiar minha inerente solidão, o nada do mundo de História Sem Fim. Passa ao desembarcar, porque sei que ali existe alegria e calor. Em vez de Fantasia se desfazendo, é Pleasantville ganhando cores. Technicolor. São todas as músicas já compostas. 



Por entre túneis escuros, ruas decadentes, casarões esfarelando, morros e artérias vermelha e amarela chega-se a visuais incríveis. São caminhos. Passagens.

O Rio e eu estamos constantemente fazendo as pazes, melancólicos como a voz de Johnny Cash. Pedindo um ao outro 'perdão pela duração dessa temporada, dizendo pros da pesada que vamos levando'.

Agora, cercado de amigos das mais diversas origens e corações, junto mais uma porção de lembranças sobre a cidade. Fe Fontes regeu esses dias com seu encanto que transborda. Lets e seu sorrisão atravessaram comigo a avenida atrás do bloco de carnaval, embaixo da chuva, depois de muito sol. É assim, mistura. Vinny e sua busca pela fuga de todo o concreto de Brasília. E gente nova. Conhecer. Rir. Mudar. Continuar.


Aprendi a fazer do Rio minha notícia boa.

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21 de ago. de 2012

Das despedidas momentâneas

" (...) Mas porque eu passava o dia ao lado dos meus amigos. Juntos. Ou, como diria um amigo meu, em sueco: 'tillsammans'.

E isso é precioso demais.

O que me consola em grande parte nessa despedida é saber que eu não estou deixando para trás aquilo que me fez mais feliz nesse tempo todo.

Obrigado pela alegria de todos os dias, pelos ppt's de algumas madrugadas, pelos bolos repartidos e por ter a honra de poder aprender a trabalhar ao lado de vocês".

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Despedida de Kristen Wiig do SNL, com Mick Jagger

19 de ago. de 2011

Saturno

"Se faltava uma cereja, chuchu, é essa. São essas. Você tem a faca e os argumentos em mãos..."

3 de fev. de 2010

A questão

Ontem, durante uma conversa, dessas sem muito nexo na pausa para o café e retomada de fôlego, perguntei para uma amiga se ela já teve a sensação de acordar sem voz, muda, e contar até três ou dizer alô para certificar-se do contrário. A resposta ganhou da pergunta: “não, mas já acordei sem saber quem eu era. Eu sabia que era, mas tive que pensar um tempo e refletir, tipo ‘sou, mas quem eu sou? Como sou?’, até voltar”.

Estou assim faz alguns dias, do acordar ao dormir, e ainda não voltei. Talvez também não tenha pensado muito em quem ou como sou. Talvez nunca tenha nem ido e continue como sempre. Seja a vida um palco, seja a pergunta de Shakespeare ou não. Hoje estou num dia para cantar alto "These are the days of our lives". Inferno astral.

O próximo post será o ducentésimo. Que virá?

8 de dez. de 2009

Eu sou uma castanha

Enquanto isso, no messenger:

Andrea diz:
achei uma castanha grávida de gêmeos
tavam tipo abraçadinhos

Lucasof - Eu sou uma castanha diz:
Uahuahauhauahuah
Tira foto e twitta!

Andrea diz:
tá doido, ja mandei pra dentro
sou sem sentimentos

*Este é o primeiro post no blog que menciona o Twitter.

2 de abr. de 2009

"To everything (turn, turn, turn), there is a season..."

Desligo o telefone depois de falar com uma grande amiga. Uma hora e tanto trocando vozes, parece adolescência. Mas hoje já me preocupo com o valor da conta, a hora de acordar e o trabalho.

Dividimos as mesmas angústias. Rompimentos. Coisas que não entendemos. Estendemos o ombro com o som de nossos sorrisos, ora angustiados, ora graciosos, ora constrangidos. Sinceros, nessa época de quaisquer coisas. Sinceridade que perturba, como espelho, e conforta ao ser dividida.

Perguntamos como nunca ninguém nos contou que depois de alcançar um desafio, de realizar um sonho, entrar pela porta da arvorezinha, ia bater aquela sensação de "e agora, para onde"?

É crescer, perder cabelos, lutar contra a barriga enquanto enrugamos a testa, mudar a ótica, querer correr para casa da mãe e ter de resolver os problemas de nossas próprias casas. Alugadas.

Até a crise econômica, assunto de nossos pais naqueles tempos de plano verão e dinheiro congelado, agora aparece. "Vamos sair, sim, só espera o salário cair..."

Tanta conversa de mudanças.
É tanto medo, tanto erro, tantos rumos para pernas esquálidas que titubeiam.
É tudo líquido.

Como terminamos? "A vida se resolve com os lemas do Arcadismo. Coisas que o coração quer dizer e só o latim consegue". Sorrisão de besteira e boa noite, segue o abraço com beijo morno e fraternal por esse cordão helicoidal.
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"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma de nossos corpos e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia. E se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos
."

FP

28 de dez. de 2007

Retrospectiva Água de Tomate 2007

O cinema, microcosmo do mundo, perdeu Antonioni e Bergman e eu penei para construir com palavras uma imagem que sintetize esse ano. A retrospectiva, feita às pressas, ficou trôpega e reflete um pouco esse espírito.

As celebridades perecíveis se acabaram nas drogas e rehab não feita foi um hit. A moda perdeu grandes pessoas, no último suspiro Benazir Buttho foi assassinada e eu entreguei, aflito, um pedaço de mim aos céus.

Diverso, áspero. Como diria minha avó, 2007 foi um ano carepento. Mas teve seus encantos e serviu, ao menos, para traçar rumos para os dias vindouros.

O calor da Zâmbia dominou o clima, os vinhos – embora continue achando todos com gosto de uva podre – tiveram alta na minha vida e comi muito e bem. Ano estranho, definitivamente.

Um quarto de século
Não estou aceitando bem essa coisa da idade e do passar do tempo. À beira dos 25 anos, me bateu uma nostalgia opressora, um aperto. Os cabelos não param de cair, o peso de subir, as memórias de aumentar. Terapia!

Ao meu amado tio
Faltou a sua voz grave e clerical, seu acentuado sotaque italiano para engrossar o Pai Nosso rezado pela família neste Natal. As garrafas de vinho estavam na mesa, mas nenhuma delas com um bom “Sitião” produzido por você.

Faltaram as suas muitas histórias, de um homem que conseguiu transformar os horrores da guerra em ternas lembranças das brincadeiras com o irmão e os primos. Como disse meu irmão, “nem os raivosos ‘Tedeschi’ conseguiram abalar seu peito armado até os dentes de paz”!

E foi na Itália, palco dessas memórias, vendo seu abraço em sua mãe e a expressão de seu rosto, numa disfarçada despedida no jardim da casa – para que ela não sentisse aquilo como outra partida do filho –, que eu pude vislumbrar e entender o que são o amor e a saudade. Ela subiu as escadas para dormir e você voltou para a América.

Agora foi você quem subiu as escadas, dissimulando uma despedida, para encontrar com a Nonna, Luciano, a Vó, o Vo e todos mais que o aguardam com um bom gole de grappa.

Eu chorei e sofri, porque não sei como ajustar meus dias à ausência de sua mão grande espalmada em minha cabeça, ao som de “pensa, filhotón”, e ter quem me explique como funciona o Sudoku, como fazer licores, como amar com sinceridade. Mas me acalmei quando entendi que enquanto todos esperavam ao seu lado por um milagre, você foi o maior de todos. Um beijo, padrinho.

Saio de SP de avião, chego em Buenos Aires de ônibus
Fui muitas vezes ao Rio e estou quase embarcando novamente para o México, mas a viagem do ano certamente foi para a Argentina com os outros três Minhocões. A primeira viagem só com amigos, com momentos deliciosos e inesquecíveis, embora tenhamos visto “a notícia acontecer diante de nossos olhos” e pastado com o caos aéreo e a falta de teto no aeroporto de Buenos Aires.

"Give me the beat boys and free my soul..."
Os Minhocões seguem firmes e fortes trabalhando no mesmo lugar, saindo juntos, viajando e prometendo uma duradoura amizade. Os Quatro do Apocalipse Sorocabano se viram menos, mas todos os encontros foram ótimos. Mania de grupos com o mesmo número de pessoas! O saldo é um fardo tirado das costas, sinceridade, alguém novo com mais idade e menos juízo, abraços em grupo, redenções na festa da firma e uma pendência grave para se resolver.

À mesa
Segui, gentilmente convidado, o roteiro do Prêmio Paladar de gastronomia e comi nos melhores restaurantes de São Paulo. Sai para comer com os amigos no mínimo duas vezes por semana. Recebi os amigos em casa com comida. Jantei pizza com a minha mãe quase todos os sábados. Gastei todos os centavos do meu vale refeição almoçando diariamente. Apresentei novos sabores a alguém que só conhecia arroz e batata-frita. E fechei com chave de ouro essa sanha gulosa com um churrasco na sacada de minha casa, com amigos queridos, patrocínio do grill adquirido via Shoptime e seis quilos a mais.

“E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...”Em julho recebi uma gentil proposta de emprego, para trabalhar com Natasha, mas depois de muita angústia, negociações e espera, continuei no iG. As bancadas não são mais laranja, a maquiagem é profissional, mas continuamos sendo o portal do “pepino na home”. Os astros previram um ano estranho nesse segmento, e assim foi. Entro em 2008 mais sensato, mais contido, com mais canais, planos e idéias. Um curso e algumas palavras trocadas com Matinas Suzuki deram o empurrão necessário para pisar janeiro com disposição. E segue Majara ao meu lado! Nada como roçar os braços e ter alguém para me aturar e me atormentar loucamente assim tão perto. E Fe Fontes atrás, Lemp na sala ao lado. Sem falar de Thais na frente, Carocha na ponta da bancada, Paula logo ali, Adilia e os especiais...Pessoas contam na hora da tomada de decisões.

Pqno
Meu coração foi se enfiar numa dessas coisas que a cabeça não consegue conter. Como têm brigado esses dois, cabeça e coração! Um diz “vai, se atira, seja o que Deus quiser”, o outro está sempre arquitetando, procurando razões para cessar, lembrando das vezes que o conjunto se estilhaçou. É um sorriso bobo que desfaz o impasse e me faz seguir de mãos dadas.

Palavra: angústia

Música: “Elderly woman behind the count in a small town”, Pearl Jam

Livro: “O Amor Líquido”, Zygmunt Bauman

Show: Paralamas (“...em cima dessas rodas também bate um coração”) e Police, no Maracanã.

Restaurante: Casa do Espeto! Quer contar algo, fofocar, desabafar? Casa do Espeto! E o D.O.M. (pode parecer esnobe, mas a comida é sensacional e jantar lá ao lado de Hervé This é marcante).

Viagem: Argentina com os Minhocões.

Filme: Pequena Miss Sunshine

Um lugar: o boteco onde comi empanadas e tomei o tenebroso “Cielito Lindo” na Argentina.

(Re)Descobri: a estampa xadrez.

Uma loja: onde a mãe trabalha, sempre com uma história nova e personagens incríveis.

Uma frase: “A vida te pega na esquina”, certamente.

O que mais valeu a pena: enfrentar um pouco dos meus medos, ser pleno e verdadeiro com os amigos de verdade.

Um momento: ficar ilhado no aeroporto, as jantinhas com meu pai, os jantares com Horta, algumas tardes na Brigadeiro, os finais de semana na casa de minha mãe, a noite "Marie Antoinette" em casa, com macarons, champagne, Ligia Helena e Helena, o aniversário do meu tio...tantos e tantos...

Planos para 2008: manter a casa mais organizada, pagar as contas em dia, gastar menos, perder 6 quilos e parar de comer unha!

O ano acaba assim: ávido para bater os pés no tapete, respirar fundo e começar o próximo com todo o fôlego do mundo. Quase embarcando para uma viagem com a mãe, como há tempos não fazemos, para encontrar o irmão e a cunhada.

Como não poderia deixar de ser, a frase de Chaparro, o primeiro patrão: “que 2008 lhes sorria”!

PS: leio a dos anos anteriores, tão melhores, e começo a pensar que estou perdendo a criatividade e a capacidade de escrever. Fica em 2007, crise!

29 de nov. de 2007

Nessum dorma

Sair da entrega do Prêmio Paladar 2007, depois de ter provado mais de duas dezenas de pratos nos melhores restaurantes de SP (convidado por um grande amigo e na companhia de muitos vinhos e Coca light) e passar no Habib´s para matar a fome é meio triste.

Só pensava no petit gâteau de limão do Due Cuochi e no Bassi cantando como o Pavarotti em seu grande e renovado salão...

21 de nov. de 2007

Dos jantares

“Admirad bien la luna, antes que corten los juncos del río.

Que enólogo escreveria algo assim no seu vinho? Todo vinho feito com esta dedicação é feito para ser admirado como o luar, antes que suma, antes que os juncos que margeiam o rio sejam cortados. Que pessoa que divide a mesa entenderia isto? Os companheiros de um jantar podem ser os de uma vida, antes que ela termine, seja em traços longos da mão, seja em borra de café. Tudo é transitório demais para perdermos tempo!”

Roubado, mas eu li a mão e a borra!

10 de out. de 2007

Dos diálogos sem voz

- Então janta em casa, comigo, para repor todas as calorias que você perdeu na academia.

- A única coisa que eu perdi na academia foi a fé.

11 de set. de 2007

Quantas calorias?

Sair da academia, depois de um dia moribundo e uma dúzia de exercícios pífios, descabelado e com roupas mundanas, e passar na casa de um amigo para uma taça de Porto Niepoort, pouco mais jovem – bem pouco – que eu.

Naquele oásis de calma fincado na São Paulo de regular qualidade do ar, notei, sendo olhado pelo Nuno Ramos enrolado no sofá, que é de conversas engraçadas e com algum conteúdo que tenho sentido falta. Nem só a pança de Britney tem graça, nem só o pop é assunto, nem só a internet conecta (quem falar em BlackBerry morre).

Bebo pouco, saio logo. Era noite sem lua.

“(…) Comme ils ont beaucoup bu
Ils titubent un petit peu
Mais la haut dans le ciel
La lune veille sur eux.”

Jacques Prévert

PS: Um abraço ao Comendador Cancela.

10 de ago. de 2007

Por que feijão, meu Deus?

Antes de eu revelar minha angústia sobre a roupa certa para encontrar com Pascal Barbot, do L'astrance e das três estrelas no Michelin, Luiz Horta se adiantou. Segue nossa intimidade dialogal revelada, em pormenores sórdidos:

Luiz diz:
Estou quebrando a cabeça sobre o dress code

Luiz diz:
Sou muito formal, não sei ir à feijoada de sábado

Lucasof - Zygmunt Bauman é meu amigo diz:
Eu bem ia te perguntar sobre a vestimenta

Lucasof - Zygmunt Bauman é meu amigo diz:
Uma camisa de linho branco, calça cáqui, chapéu e sandálias?

Lucasof - Zygmunt Bauman é meu amigo diz:
Ou vamos de franceses dandies?

Luiz diz:
HAHAHAHAH

Luiz diz:
De boina e com uma baguete debaixo do braço e bigode pintado com rolha queimada

Luiz diz:
E um acordeom na mão

(...)

Lucasof - Zygmunt Bauman é meu amigo diz:
Eu não sei falar a língua dele. Vou tentar me comunicar com contas, espelhos e uma mulata

E terminamos em seu “Decálogo de 15” sobre a elegância:

1. Never brown in town.
2. Até 17 horas: ternos claros.
3. Depois das 17 horas: ternos escuros.
4. Preto é para luto, mafiosos e audiências no Vaticano.
5. Branco para bicheiros e quem está nas Bahamas.
6. Nunca comer pão com garfo.
7. Bêbado é quando não se consegue dar um double Windsor knot.
8. Não mencione.
9. Não importa quanto custou.
10. Melhor não tocar no assunto.
11. Sendo Príncipe de Gales pode tudo.
12. Never explain.
13. Never complain.
14. Gravata é um assunto sério.
15. Não intua. Não conclua...

Do 6 ao 10 estou indo mal, no 14 pequei. Meu score é triste!

2 de ago. de 2007

Um golinho de vinho, se lhe agrada

Pedir as dicas de vinho ao Luiz acabou transformando um encontro de amigos que harmonizam tudo muito bem com refrigerantes em um jantar com algumas responsabilidades. Trocamos os copos pelas taças e aguçamos nossas curiosidades e paladares pensando no que teríamos pela frente.

A boa pedida da noite era um fondue com base de queijo gruyère e um de chocolate, para a sobremesa. As indicações foram um branco – não devemos temer nem menosprezá-los – e um Porto. Quebramos um pouco o protocolo e compramos também um tinto para bater com o queijo.

E assim desenrolou-se a noite, entre suspiros de agrado e caretas de reprovação:

Usei uma receita básica para o fondue, que não é uma coisa que exija muitos segredos, com pão italiano, filão e ciabatta. O primeiro a ser desarrolhado foi o branco, Alamos Chardonnay, safra 2006 (Mistral). Para quem pensa que os brancos são levinhos, bem a cara de “lançamentos em livrarias chiques”, esse é uma surpresa. É bem intenso, casou perfeitamente com o gruyère. Aplaudido!

Terminada essa rodada, fomos para o tinto (sugestão minha, não culpem o Horta!), um Isla Negra, safra 2006, com 85% de Syrah e 15% de Cabernet Sauvignon (Enoteca Fasano). Com a boca e papilas limpas, ele é suave, bastante frutado, puxando para o cassis e com linda cor vermelho rubi, aveludada. Depois do queijo, ficou bastante adstringente, merecendo uma discreta careta.

Quando os pães acabaram e enxergamos o fundo da panela, partimos para o de chocolate, feito com barras de 70% de cacau e uma pitada de “ao leite”. Hora do convidado mais ousado e difícil de encontrar, um Porto Niepoort. Mais adocicado, com notas (finos que somos!) de frutas secas e especiarias. Ficou saboroso com nossa sobremesa, cada um com seu espaço merecido, sem concorrência. Mas tomamos pouco, porque gente leiga acha que Porto é pra ser apreciado em pequenos goles sorvidos de tacinhas miúdas.

Um sucesso! Será a rendição de jovens da geração “de cola não alcoólica” ao mundo do “mosto de uvas viníferas fermentado, com duração indefinida"?

*Publicado originalmente no Glupt!, de Luiz Horta.