Mostrando postagens com marcador Mudança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mudança. Mostrar todas as postagens

10 de set. de 2024

Um girassol nos teus cabelos

O despertador tocou, tinha uma longa mensagem sua no celular; passei uns dias decantando. 

Li numa crônica do Ivan Martins, em 2013, que “pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes”. Já revisitei muitas cidades e estava em paz com essa afirmativa até o dia que resolvi ser jovial no sul da Bahia. Na volta de uma festa desencontrada, de mil inseguranças, do chão de barro, do medo de perder um rim ou cair em algum golpe, eu abri a porta para aqueles cabelos cacheados e, sem saber, abri a porta para um sem fim de aventuras e para a desconstrução da afirmativa acima, porque eu descobri de novo aquele pedaço de areia e mar, mas dessa vez com toda uma cor local e um coração em ponto de fervura. 

Sou uma pessoa sem senso de direção, nascida em tempos de Guia Quatros Rodas impresso, e nem os satélites e os aplicativos atuais me ajudaram a desvendar e trafegar no que viria ao meu encontro. Grandes avenidas iluminadas e ruelas na penumbra, infinitos caminhos, encontros, desencontros, vistas incríveis e multas por infrações. 

Aquela porção de cachos, uma camisa de animal print, um sono tranquilo, um inesperado futuro à frente, tudo apoiado no meu braço dormente e formigando, que eu não mexeria por nada nessa vida para não estragar a cena. Era tempo de Gilsons nos streamings. Várias queixas de você, sem dúvidas, mas “algum ritmo em comum fez nos encontrar”, com pipoca e brigadeiro à vontade naquele microcosmo. 

E foram muitos cabelos, os seus e os meus, ainda que em tão pouco tempo. Se Einstein dizia que o tempo passa mais devagar para quem se move a uma velocidade alta, o que é a paixão se não a loucura no mais intenso acelerar?

- “Ih, filho, você tá diferente”, dizia minha mãe. “Tá com cara de apaixonado”. 
- Talvez eu esteja. 
- Vá devagar, hein. 

Como ir devagar se você já tinha percorrido quase dois mil quilômetros e instalado sua branquíssima roupa de cama no meu caleidoscópico apartamento?

Se tem uma coisa com a qual você não precisa se preocupar é com me despedaçar, porque alguém já dinamitou esse terreno antes, e de novo, e eu sigo acreditando que até a maneira como os corações se despedaçam é bonita. 

Até por isso virei um panfletário de "Amor Líquido", de Zygmunt Bauman, porque também acredito que “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada.” E para o quê mais vivemos senão tentar decifrar todas essas estradas, até entendermos que a viagem é tão preciosa e o destino talvez nem exista? Bora parar para abastecer e colocar a próxima playlist. 

Moreno, flor do desejo, ai, teu cheiro em meu lençol. Desço pra rua, sinto saudade. Suspiro quando o celular rememora alguma foto ou alguém me pede para contar o nosso causo. Espero e torço para que você seja feliz e siga realizando seus sonhos, no sono mais tranquilo, num abraço afetuoso, embalado em amor.



3 de mar. de 2023

Vem comigo que no caminho eu explico

Eu não sou uma pessoa que se sente confortável com grandes mudanças, rompimentos, o que o mercado de trabalho graciosamente buscou em língua estrangeira o termo “disrupção” para batizar. Brincava com os amigos e amigas que me ladeiam (peço que guarde esse segredo!) que minha vontade era fundar uma agência chamada “Zona de Conforto”, para quem é competente, gosta do que faz e também aprecia a sensação do conforto e acolhimento similar à do útero materno. 

Hoje, evoluindo com minha formação e minha carreira, também entendo que, no úmido ambiente uterino, seguimos o ritmo frenético das batidas do coração alheio, bem como as variações de humor e hormônios, sendo bombardeados por informações e cobrados a evoluir e “nos formar”, física e emocionalmente, desde que compusemos as primeiras divisões celulares. Já cheios de metas a cumprir e avaliações periódicas. Portanto, há que se encontrar um meio termo, aprender com as experiências, pivotar e evoluir. Reimaginar, recriar, repensar todo novo dia. 

Por isso agradeço ao Pedro Vitor de Melo Alves 🏳️‍🌈, mentor da minha carreira, parceiro nas trincheiras #LGBTQIAP+ e amigo, por ter me indicado e incentivado a fazer o eMBA na Fundação Dom Cabral, que concluí este mês depois de um período de grandes questionamentos, desafios, trocas, aprendizados e, claro, mudanças. Agradeço também a Mastercard e a Sarah Buchwitz por terem me proporcionado essa jornada, aos professores e professoras da FDC, que muitas vezes fizeram patê do meu cérebro, a Vanessa Amaral, Monique e Camila, que seguraram as rédeas da turma 112, aos colegas de turma, a minha mãe, que sempre deu todas as bases e condições pros meus estudos (e muito amor) e ao meu irmão, professor da Unicamp, com uma porção de doutorados e livros publicados, que é meu maior exemplo e esteio. 

Que eu seja um profissional cada vez mais consciente dos meus privilégios, inclusivo e trabalhando para um mundo mais justo e com oportunidades para todas as pessoas. Bora sacudir minha vida e esse planeta pra causar um impacto positivo, efetivo e duradouro.

3 de out. de 2022

A gente, a democracia

Declaração Universal dos Direitos Humanos, por Ruth Rocha e Otávio Roth 

As memórias tandem a ficar meio embaralhadas ao longo dos anos. Fico incerto com relação a lugares e coloco pessoas queridas em lembranças de acontecimentos e situações nas quais elas, na vida real/factual, não estavam.  

No encerramento do domingo do primeiro turno das eleições de 2022 lembrei de minha mãe, no idos de 1980, comigo e com meu irmão no banco traseiro de um Volkswagen, um Voyage branco, se não me engano, buzinando e gritando pelas ruas de Sorocaba, onde nasci, e de São Paulo, a capital do Estado, uma hora longe de onde passei a infância, em tempos de busca pelo direito de votar em eleições diretas e de escolher um governo democrático. 

Nessas viagens de carro minha mãe buzinava e gritava a plenos pulmões e com paixão. Eu não entendia muito bem, mas entrava no clima e entoava também as palavras que reforçavam seu coro. Eu não entendia bem pois minha vida foi cercada de privilégios, mas minha mãe gritava como uma menina que trabalhou desde muito nova, uma mulher que lutava por seus direitos e queria ter sua voz ouvida. Que carregava no banco do passageiro décadas de machismo, patriarcado, meritocracia e repressão. 

Minha mãe morava na mesma cidade e era quase da mesma idade de Alexandre Vannucchi Leme, estudante de Geologia da Universidade de São Paulo, primeiro colocado no vestibular, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), preso, torturado e morto durante a ditadura militar. 

Mandei um áudio para ela quando o Lula não venceu no primeiro turno, triste e choroso, perguntando sobre esses tempos em que ela nos levava para ver que o mundo precisa que nos posicionemos, com o vento das janelas abertas em nossos rostos, ao que ela me respondeu: “Era época das ‘Diretas já’, a gente queria poder votar em eleições diretas, vocês eram pequenininhos e iam com a mamãe”. 

Hoje, adulto, parte da população LGBTQIA+, eu entendo um pouco mais aquelas viagens de carro com essa mulher tão imensa que é minha mãe, que sempre colocou à frente de suas vontades o direito “da gente”, que sempre pensou no coletivo e fez o possível para passar esse olhar pro meu irmão e pra mim. 

Estamos, agora, buzinando e gritando pela democracia, por nossos direitos, por nossa vida, carregando no banco do passageiro o medo de termos por mais quatro anos um pária social na presidência, dando margem para essa insanidade e agressividade que vivemos nos últimos tempos. “A gente não pode desanimar, precisa ter esperança. Vocês ainda são jovens e podem lutar muito mais do que a mamãe. É a democracia, a gente precisa preservá-la. Você vai sempre ter a sua mãe lutando ao seu lado pelo que ela acredita que é certo, e quero que você e seu irmão também lutem”. É pela gente, mãe, e obrigado por ter me ensinado isso.

18 de abr. de 2021

A química do imponderável

Sempre que vou dar um conselho ou palpite para um dos meus melhores amigos, mais novo do que eu, começo a frase dizendo: “Eu, aqui do futuro...” . Obviamente a diferença de idade não me coloca no futuro, estamos vivendo simultaneamente. Cada um com suas especificidades e seu próprio tempo, mas juntos no calendário. Logo seremos todos mais uma camada geológica na terra.

A diferença de idade não me coloca no futuro nesse cenário, mas os anos de 2021 no calendário gregoriano ou de 5781 no calendário judaico me colocam no futuro para o Lucasof de uns 20 anos atrás. Vez por outra me pego pensando o que ele me perguntaria. E, o mais complicado, o que eu responderia?

Como diria Gabriel Garcia Marquez, eu não venho fazer um discurso ou interferir no seu caminho, afinal, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar e eu não quero tirar-lhe a imensidão e a beleza dessa trilha. Aqui, do futuro, posso dizer que as coisas estão indo bem. Loucas. Os carros não voam, mas os aviões estão mais rápidos. Interagimos e conversamos com pequenas telas que carregamos no bolso ou na bolsa e viramos nós mesmos paisagens solitárias de cartões postais chamados selfies. Escrevemos pequenas legendas para preencher um grande vazio, parecido com o que você sente sozinho em São Bernardo do Campo durante a faculdade, e enviamos para o mundo inteiro, sem saber ao certo quem vai receber. Em vez de um selo para poder enviar, esperamos carimbos de aprovação após o envio. Curtiu, amou?

Você virou mesmo um jornalista, trabalhou nas maiores editoras do país, realizou seu sonho naquele icônico prédio à margem do Rio Pinheiros. Hoje constrói novos sonhos trabalhando na bandeira do cartão de crédito. Fique tranquilo, ela também tem se reinventado ultimamente. Alguns dizem que você se casou, outros que só morou junto. Foi uma baita aventura! E tem outras por aí. Você teve - e nós teremos! - grandes e únicos amores.

Sim, você é gay. A mini Beyoncé que tomava conta do seu corpo durante as aulas de piano já nos dava uma pista. Poderia dizer para você Googlar esse nome, Beyoncé, mas também não faria sentido. Você ainda usa a enciclopédia da biblioteca para fazer suas pesquisas. Um dia você vai saber quem ela é e talvez tomem uma limonada juntos. Você vai ler Brecht e, em outros dias, vai usar toda a angústia como força para tentar fazer uma mínima diferença no mundo. O Duda vai abrir caminhos e a mãe vai peitar tudo e todos por você. Aliás, isso vai te livrar de passar um ano servindo o exército. “Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Você ainda não sabe dançar direito e nem andar de patins. Vai aceitar os cachos do seu cabelo, até que ele vai cansar e começar a cair. Tudo bem, você vai incentivar os cachos de um dos seus melhores amigos e raspar a cabeça durante uma pandemia. Pois é!

Uma a uma, você criou coragem pra pintar as unhas que parou de roer em nome da higiene e de frear a contaminação pelo corona vírus, o da pandemia. Estamos usando máscaras o tempo todo! Veja só se não é um grifo de Fernando Pessoa. Alguns dos seu maiores medos também cruzaram o caminho e você ainda duvida de suas qualidades e competências. No meio disso tudo e de uma jornada com a mãe, você vai tirar forças de várias caixas e gavetas para seguir adiante. A gente chora muito mais hoje em dia, enquanto vê o colágeno pelo retrovisor.

Falando em retrovisor, seus “amigos pra vida toda” viraram boas lembranças pra vida inteira. Ou até onde o cérebro mantiver arquivado. Mas você encontrou uma família pelo caminho, já que a sua oficial nem sempre cabia muito. Você escolheu o nome de uma de suas músicas favoritas para batizar sua cachorra, grande demais pro apartamento em que você vai morar. Ela, Ruby Tuesday, vai se mancomunar com a mãe e se refugiar na chácara. E vem o Costelinha, tão pitico. Eles são grandes companheiros.

As máquinas estão evoluindo e aprendendo, já a humanidade eu não posso confirmar. A gente ainda monta Lego. Digo a gente porque suas sobrinhas gêmeas também gostam! É mais fácil encaixar essas peças do que colocar cada pensamento e cada sentimento em seu devido lugar. Não bata muito a cabeça com isso. Agora chega de eu fazer o que a juventude atual chama de spoiler. Um último palpite: escreva muito, porque as novas gerações não são dadas a “textões”.

Encontre boas maneiras para falar o que pensa e o que sente. Você tem uma mágica que talvez perca pelo caminho. Ou esconda. A gente duvida do ar, mas acredita no vento. Confie na dica do Rugol e banho gelado da sua avó. Engate a marcha e venha tranquilo, porque a areia da ampulheta é macia ao tocar os pés. “A matéria-prima do ar, das rochas e da vida foi e continua sendo forjada pelas pressões gigantescas que existem no coração das maiores estrelas.” Somos todos poeira de estrelas. E eu, aqui do futuro, só existo porque você é uma supernova.
--


1 de jul. de 2020

Sobre sermos todos seres humanos

Quando eu era mais novo as pessoas eram mais homogêneas. Não porque o mundo era mais legal ou as coisas eram melhores, mas porque somos pasteurizados. Nossas individualidades são podadas desde cedo, o diferente é excluído. Por isso, a gente cresce aprendendo a ser a beirada. Aprendendo a mimetizar o que é socialmente aceito para driblar os preconceitos. Meninos não podem pentear a boneca. Poxa, isso talvez não gerasse meninos que penteassem suas namoradas com carinho, que aprendessem a demonstrar o amor aos amigos afagando, não batendo? Que entendessem melhor o corpo da mulher? Que respeitassem? As meninas não podem brincar com ferramentas, quando poderiam se divertir mais e abrir caminhos, inclusive profissionais. Não podemos todos jogar futebol juntos?

Somos segregados desde a mais tenra idade, quando ainda estamos abertos para o mundo. Meninos e meninas. Rosa e azul. Do mais alto pro mais baixo. Dos que foram melhor em matemática pros que foram pior. Futebol para eles e vôlei para elas. Saias e shorts. Tênis e sapatilhas. Esse só pode casar com aquela. E assim seguimos, sufocados e silenciados.

Depois disso sofremos demais para entender o que acontece dentro da gente. Para aprendermos a nos aceitar, a nos amar. Daí vem o hábito de soltar as mãos quando vemos um conhecido se aproximando ou quando estamos em mar aberto, não em algum porto seguro. É um reflexo de sobrevivência, pois o nosso redor é tormenta. A gente amealha amigos pelo caminho para compor uma família que nos ampara, aceita, abraça e fortalece. Que nos ama, no meio da trilha de rejeição.

O mais correto talvez não seja seja dizer que a gente cresce, mas sim que a maior parte de nós sobrevive. Sobrevive a um ódio à toa. Ninguém deveria ser obrigado a viver marginal ao amor, a sobreviver a uma raiva descabida. A gente engole o choro e se cobre com uma armadura de arco-íris. A gente apanha e cai. E ouve que certamente apanhou por algum motivo, por ter feito algo. Sim, por ser quem e como sou e não entender porque isso gera tanta recusa em algumas pessoas. Mas, por toda essa vida, a gente aprende a levantar com a cabeça mais erguida e a voz mais alta.

Eu era beirada até acordar da dolorida realidade das calçadas, mesmo em minha bolha de privilégios e padrões. Era festa ao meu redor e me foi imposta uma concussão. E foi o que precisei para elevar minha voz. E para o amor transbordar por essas feridas. Para que eu use o que tenho ao meu alcance para fomentar a mudança e para fortalecer essa causa e as causas com as quais dialogo.

Encerramos ontem o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e começamos hoje um novo mês em que não seremos mais beirada, ao longo do qual vamos nos orgulhar ainda mais. Nós somos todos os meses, todos os dias, todas as horas. Do nascer ao pôr do sol. Somos o mundo, somos uma explosão de cores, somos amor. E que abram caminho, porque também somos os cabelos das bonecas e as partidas de futebol, únicos em nossas semelhanças, imensos em nossas singularidades.

Eu sou grato a todos que cruzaram minha vida e me trouxeram até aqui, que são minha família e me possibilitaram ser quem sou. Meu irmão, minha mãe, o Carlão, a Bete, o Dr. Lauro, Gabriel, André Lucas, Vinny, Victor, Johnny, Pomba, Fe Fontes, Mayara, Lemp, Caio, Aline, meu pai, Karen, Raquel, Malu, Rod, Rafa Cescon, Pedro. Obrigado! Eu tenho muito orgulho. De mim, da gente. 

Como disse a atriz Dominique Jackson, “somos todos seres humanos. Trata-se de inclusão e nunca pedirei respeito a nenhum de vocês. Eu demando. Você não vai me dizer que me aceita. Você não vai dizer que me tolera. Você não tem esse poder. Você vai me respeitar por quem eu sou”.

É sobre o amor. E sobre não calar. 🌈

29 de out. de 2018

Super far

Não consigo definir a sensação de entrar em minha casa e parecer a primeira vez. Ter que reocupar os espaços e redecorar a memória. Mesmo após mais de uma década por aqui, são sensações tão novas, desconhecidas, intensas e desenfreadas que quebram a porteira, derramam. É estranho acompanhar as coisas sumindo aos poucos, assim como no filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Assim como sua risada rouca foi esmaecendo nos últimos tempos. Uma dolorida amnésia consciente.

A oposição entre as partes vazias dos armários, onde antes estavam suas coisas, com alguns objetos que ainda coabitam aquelas paredes é similar ao que se passa dentro de mim. Tento disfarçar, tento recuperar uma rotina antiga, mas não tem adiantado muito.

Sei que ainda vou, por um tempo, me pegar pensando se você está coberto ao dormir. Se vou encontrar um fio dental no ralo do box do banheiro. Se vai gostar da janta, quais seriam os planos para um fim de semana a dois. Não vou mais ter que esperar o cochilo para mudar o canal da TV, saber se você está em casa ou não pelas duas voltas da chave da porta. São coisas tão bobas, mas que se avolumam num tanto! As manhãs, agora, são silêncio sem os imaginários programas de TV na cozinha.

As luzinhas, por todos os cantos da casa, vão passar um tempo apagadas, até que tudo isso irá, aos poucos, arar a terra para que brotem novos planos. As músicas, que usualmente parecem sempre tão bobas, ainda mais para quem vive no dial das notícias, passam a fazer todo o sentido. Parecem plantadas em momentos específicos para nos fazer titubear.

Nos conhecemos à beira do furacão e encaramos o olho como uma calmaria perene. Até que a outra margem do vendaval passou, levando tudo. Eu teimei em não te encaixotar ao primeiro alerta e desdobrei meu coração, que havia guardado no bolso. Foi bom, pois com você eu aprendi que o amor pode ter uma deliciosa rotina. O cachorrinho e eu ainda ficamos olhando para a porta, pensando se algo poderia ter sido diferente. Escolhas e caminhos.

As fases da vida têm seus ritos de passagem. Talvez seja realmente o percurso a fazer a história, não a linha de chegada. Mas a dificuldade em mudar o caminho, em entender o caminhar, é de todo ser humano. A inércia talvez seja, além da física, inerente à nossa inexplicável existência emocional. Ainda que tenhamos caminhado lado a lado, nunca estivemos pisando a mesma terra.

Estou falando demais, né? Armando Antenore escreveu que "há despedidas que não encontram tradução. O que falar diante de um amigo que se muda para bem longe, um amor que morre, um projeto querido que se interrompe? Às vezes, o melhor - o mais preciso e eloquente - é dar adeus em silêncio." Mas eu nunca soube lidar direito com o silêncio.

Shiu! Consegue ouvir? O som de um coração espatifando? “Como cristal em um mundo de vidro”. Como uma sinfonia de infinitos silêncios, até que as cortinas se abaixem, as palmas cessem, a plateia seja trocada. Agora temos nossas vidas espatifadas em diversas telas. Logo mais teremos um quebra-cabeça, uma obra de arte em exibição no Memory Motel, um novo espetáculo.

Das berries eu farei um bolo. Afinal, da dupla, sempre fui o carboidrato.









“The idea that we are so capable of love, but still choose to be toxic.”
Rupi Kaur

29 de nov. de 2015

Chef's Table - Francis Mallmann

Cozinhar, amar, viver e incendiar:

"I don’t believe in flip and flopping food."

"When you cook with fire it’s much like making love. It could be huge, strong, or it could go very slow in ashes, a little cold. And that’s the beauty of fire. It goes 0 to 10 in strength, and in between 0 and 10 you have all these little peaks and different ways of cooking with it, and its very tender and fragile."

"Love is one of the most difficult things in life, certainly one of the most beautiful ones."

"You don’t grow on a secure path, all of us should conquer in life and it needs a lot of work and it needs a lot of risk."

--

--

20 de mar. de 2015

Sem miolo

Eu quero te encaixotar e esquecer tudo que tivemos, mas a memória nem sempre é obediente e simples como as líquidas conexões digitais. Não temos como nos esquivar de pequenos lembretes espalhados pela vida, como nos desconectar de estopins que nos remetem a momentos e pessoas, momentos com pessoas, pessoas em nossos momentos.

Lavo o rosto com água gelada para esfriar a cabeça e sua escova está ali, na caneca, ao lado da minha. Vou me trocar e a pequeníssima peça de roupa misturada entre as minhas ainda me faz rir. A camiseta de pinheirinhos junta-se aos escritos na janela pelo meu caminho. O prato de formigas não combina mais com meu brigadeiro de capim-limão.

Lembro quando você entrou em minha casa pela primeira vez, analisou tudo com as mãos para trás, como quem desbrava algo novo. Para mim, você parecia pertencer àquele lugar desde sempre. O seu sofá - e a brisa que nos acompanha - me desmanchou em poucos minutos.

Lembro quando vejo as flores de canudo, a cadeira branca de almofada florida ocupada por quem quer que seja, já sem graça alguma. Com os Aperof Spritzers e com tudo mais que fizemos nosso e trouxemos para o nosso mundo.

Para pegar a estrada, onde sempre consigo deixar tudo para trás, desenterro um CD e, surpresa, impossível brincar de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". A segunda música é Sugar Pie Honey Bunch, a terceira diz: "Se me acaba el argumento y la metodología cada vez que se aparece frente a mí tu anatomia".

O amor é realmente uma coisa brega. Mais que meu cabelo outrora vermelho ou minhas roupas mais coloridas e estampadas. Mas é tão mais fácil abrir mão dessas outras coisas todas! Você puxou pra preto e suas poucas variações o tom das minhas roupas e coloriu minha vida.

Por mais que tenhamos voado milhares de quilômetros, caminhado por terras ultramarinas, usado o banheiro para os fins tradicionais nos lugares mais inusitados, trocado presentes, forjado um vocabulário próprio, nos beijado à meia-noite de 31 de dezembro sob pontualidade britânica e um sem fim de coisas nesses poucos meses, depois que eu soube seu verdadeiro estado e ele prevaleceu, você será para sempre um amor que não aconteceu, como o anexo desta mensagem.

Ontem passei mal. Saí do trabalho cambaleando e fui para casa no começo da tarde. Minha vontade era usar isso como desculpa, já que agora você trabalha perto de casa, e pedir socorro. Não por estar mal, mas para te ver. Adormeci, acordei no meio da madrugada um pouco feliz, ainda que zonzo e dolorido. Estava melhor e havia conseguido me segurar. Não te ver e manter meu argumento. Amar também é entender momentos e saber a hora de afastar. De perder. De reescrever todas essas palavras e imaginar quanto tempo o ritual vai levar desta vez.

"A arte de perder não é nenhum mistério; (...)
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério
"

Forget about Montauk. Meet me in Berries.

--


28 de jan. de 2015

Birdman

- Truth or dare?
- Truth.
- You're boring.
- The truth is always more interesting.

--

15 de dez. de 2014

Cleaner

"My dad says that stains have memories. They remember their shape, their color, their smell. And the really deep ones return again and again. With these stains it's easier to start over than to try cleaning them. Sometimes you have a choice, sometimes you don't. All you can do is hope."

27 de nov. de 2014

White Collar

- You're the romantic. I mean, what's the deal with the bottle?
- It's an 82 Bordeaux.
- Yeah. Costs 800 bucks a pop.
- It does when it's full. I got it empty.
- Empty?
- Look, when Kate and I met, we had nothing. I got that bottle, and I used to fill it up with whatever cheap wine we could afford. And we'd sit in that crappy apartment and drink it over cold pizza and pretend we were living in the Côte d'Azur.
- How'd that work out for you?
- It didn't. Cause that bottle was a promise of a better life.

--

Sobre outro.

6 de out. de 2014

Into the Wild | Alexander Supertramp

"Some people feel like they don't deserve love. They walk away quietly into empty spaces, trying to close the gaps of the past."

--

"There is a pleasure in the pathless woods."

--

"Happiness only real when shared."

--

"The sea's only gifts are harsh blows and, occasionally, the chance to feel strong. Now, I don't know much about the sea, but I do know that that's the way it is here. And I also know how important it is in life not necessarily to be strong but to feel strong, to measure yourself at least once, to find yourself at least once in the most ancient of human conditions, facing blind, deaf stone alone, with nothing to help you but your own hands and your own head." (Primo Levi)

--

11 de jul. de 2014

Memory Motel

Em oito dias não vence nem um queijo branco, mas vence um amor.

--


        Post it noturno, Luiza Pannunzio

5 de abr. de 2014

This is our last dance

Aquela foi uma das poucas noite - talvez a única - que nunca consegui decifrar por completo. Suas causas, seus motivos, o saldo. O que sei é que algo mudou. Como nos filmes e nas séries, como na mais fácil das receitas da ficção, aquela foi uma noite fora do comum, com elementos fantásticos, que fez o amanhecer diferente de todos os anteriores e dos subsequentes. Muito havia mudado. Eu, embora as coisas talvez seguissem as mesmas. Dormi no prenúncio, acordei na mensagem, um carro caiu da ponte, cheguei de ônibus à praça ao lado de casa. Peguei meu carro, coloquei as músicas certas e tentei dissipar tudo na estrada. Eu me vi por inteiro, eu vi através de mim, e o ricochete me derrubou.  Não sei quanto fiquei sem dormir, até que peguei no sono em algum tempo. Acordei arrependido por ter sido a causa e a consequência. Acordei.

--

"I told him everything and I let my love there, by the river. All that I felt, he kept it. When I got home, I decided I would sleep on the couch. A last sacrifice. I would suffer for him. And I did. And it was awesome. I woke up at 5am and then I went to my bed (…)"

--

E eu ainda não sei.

--

30 de jan. de 2014

Pkou!

Uns oito anos atrás, não tenho muita certeza, quando "vacilava entre a infância e a juventude" e tremulava entre a adolescência e a vida adulta, vi um quadrinho do Laerte na Folhateen que conseguiu colocar em uma página – de jornal, para compor da melhor forma aquele momento de um estudante de jornalismo – toda a intensa enxurrada de sentimentos do período.

Separei a página, com o bonito som da folha rasgando na lombada do caderno, e enquadrei. Pendurei na parede do apartamento de São Bernardo. Postei em meu fotolog. Lembrei do quadrinho em várias ocasiões, dias, tardes, noites. Mudei para São Paulo e, até hoje, o quadro está pendurado na escada de casa, onde passo todos os dias. Ora adulto, ora adolescente. Sempre pensando no Apache.

E foi essa mesma história, foram esses traços e texto que Laerte escolheu para inaugurar seu espaço no Brasil Post (The Huffington Post Brasil). Talvez uma parte de minha alma confusa se encontre com a dele ao longo desses inesquecíveis nove retângulos.

--

P.S.: Hoje, coincidentemente, é o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. =)

7 de jan. de 2014

Ground Control to Major Tom

Passando 2013 em revista e relendo alguns comentários aqui do blog achei um da Bean, que, dez mil anos atrás, dizia: “Li uma vez que a maioria das nossas memórias de infância vêm de fotos e vídeos caseiros. Provavelmente a gente se lembre dos pais com uma roupa X, com um cabelo Y, com um sorriso congelado. Porque são ‘retalhos’ de várias fotos armazenadas na cabeça. Será?”.

Estou embalando coisas rumo ao congelador. Essa não precisa ser uma sensação ruim, finalmente passo a entender. É a composição da memória de uma forma que restem apenas os fragmentos que nos rasgam um sorriso ao serem resgatados. Os pés de uma tarde na praia, os cabelos de uma manhã de vento, o sorriso bobo da graça cotidiana que um dia houve, a blusa da festa, a camiseta do trabalho, uma careta, a calça já fora de moda, danças desengonçadas, pequenos lugares secretos de viagens... Toda essa marmita é de imagens estáticas, mas tem uma trilha sonora. Animada, como estes dias.

Eu não escovo os dentes toda noite, por mais cansado ou em qualquer estado físico ou mental que esteja, só por asseio ou costume. É porque, bem como sempre lavo os cabelos e nunca deixo de secar os vãos dos dedos dos pés, quero deixar para trás tudo que tenha acontecido e começar um tempo novo pelas manhãs. As lembranças boas não irão com a água, comporão meu corpo, e as ruins escorrem pelo ralo. Assim me renovo, com pequenos rituais particulares.

Minhas lembranças, hoje, voltam a ter o som de páginas virando. E a caixa do último brinquedo que ganhei diz “a partir de 30 anos”, embora continue sendo um quebra-cabeça.

--

“... mas se arriscar ainda é a única forma de não se tornar uma pessoa amarga. É preciso insistir no amor, apesar de tanta desordem por aí. (...) ‘Só me arrependo do que não faço’ é conversa fiada de gente bêbada. Você vai se arrepender de muita coisa que fez. Nem tudo que é quebrado pode ser consertado”

--

12 de nov. de 2013

Os Marleys e a gente

Chegamos a ter quatro Pastores Alemães convivendo conosco ao mesmo tempo na casa de minha mãe, no interior de São Paulo. O quintal era imenso e, para uma criança nos seus cinco, seis anos, era quase como dividir uma floresta particular com imensos e velozes animais. Tilim, Bruna, Ceci, Lion. O casal Tilim e Bruna teve seis ninhadas, o que me fez acompanhar várias vezes a gestação, o parto e perceber como uma cachorra lida com sua prole (Pacato e Lela são dois outros dos quais lembro bem). Além dos Pastores, tive um Cocker malhado, tenho uma vira-lata caramelo e minha mãe tem um Beagle grisalho.

Dois deles deixaram passagens intensas. Lion ficou conosco durante 15 anos, 15 sensacionais anos. Tempo suficiente para invertermos, em iguais proporções, a graça e alegria que ele nos deu no auge de seu vigor com o cuidado, carinho e atenção que demandou em sua velhice. Ele foi um grande companheiro, inteligente e safado como esperamos que todo cachorro seja. Velhinho, dormia durante longo tempo com a cabeça em meu colo, enquanto eu espantava os mosquitos que tentavam atrapalhar seu sono e fazia carinho em seus já desbotados pelos.

Uma noite, meu irmão e eu o encontramos deitado no jardim, fraco e muito ofegante. Tentamos animá-lo com leite, seu alimento favorito, com carinho, até que percebemos que ele só queria alento e companhia para que pudesse partir. Cerca de uma hora depois, percebendo seus olhos inquietos e em busca de algo, resolvemos chamar minha mãe, que estava dormindo. Um pouco assustada, ela se juntou à nós, fazendo cafuné em sua barriga e dizendo-lhe que ficasse em paz, que ele havia sido uma imensa alegria em nossas vidas e que era hora de descansar. Lion deu um suspiro longo, foi esmorecendo, fechou os olhos e relaxou as patas. Recolhemos sua coleira e, na manhã seguinte, o enterramos sob as bananeiras, bem perto das folhas de capim-cidreira nas quais ele adorava se coçar e se aninhar.

Quase dois anos depois, adotei um cachorro que encontrei nas ruas. Quando recuperado e em dia, pudemos ver que era um Cocker. Meu Bolacha. Seus pelos compridos, quando perto da hora do próximo banho, viravam um insolúvel emaranhado de folhas, galhos e demais coisas enroscadas ao longo de suas andanças pelo quintal. Ele era uma animação só, bobão e companheiro. Diferente do Teco, o Beagle, gostava de ficar deitado comigo na rede, balançando, nos finais de semana de descanso. Ele ficou doente e internado por bastante tempo, até que precisou ter sua vida abreviada. Eu nunca havia passado por um momento assim. Levamos ele de volta para a casa, para que ficasse conosco em sua última noite. Teco deitou ao seu redor de uma forma que parecia abraçá-lo. Ganhou muito carinho. No dia seguinte, fomos ao veterinário e me despedi, com o coração miúdo e uma confusão de sentimentos. Corri para um colo e para ser abraçado. Bolacha foi enterrado pertinho do Lion, e o Teco passou noites seguidas dormindo ali.

Hoje, essa dupla, Lion e Bolacha, está recepcionando uma pequena Poodle com nome de cantora teen, para que possam correr pelo infinito campo no qual os imagino. De cabelinhos brancos arrepiados, roupinha e um pouco trêmula, ela chega para contar toda a vida que dividiu com um menino aqui na terra, desde pequenos até hoje, um tempo bastante diferente e numa fase de tantos capítulos adultos, mas cujas lembranças e alicerces ainda justificam que ela se chamasse Sandy.

19 de ago. de 2013

Inferno, canto XXXIV


Fôlego renovado e prenúncio de alegria para a próxima parte da jornada.
 
--

Obrigado, Marcelo. =)

14 de ago. de 2013

Minha garganta pede um pouco d'água e os meus olhos pedem teu olhar

Nunca gostei de performances artísticas. A última que me abocanhou, à força, foi durante um passeio na Tate Modern. Adoro o lugar, embora não entenda metade do que está ali contido, mas não queria ter vivido a experiência de ser envolvido por dezenas de pessoas correndo, ávidas para confessar algo ao primeiro estranho passante. Eu. Ouvi o relato de um rapaz dizendo ficar constrangido por saber que seus pais, 81 e 83 anos, ainda faziam sexo. Obrigado. De nada. *sai correndo pela rampa*

Nos tempos em que achei que deveria entender sobre artes - ah, a juventude -, conheci, em texto e imagem, Marina Abramović. Li sobre sua performance com o então companheiro de relacionamento amoroso e peripécias, Ulay, na qual ela se inclinava para um lado segurando um arco e ele se inclinava para o lado oposto, segurando uma flecha tensionada no arco e apontada para Marina. Medo, desafio, confiança. Parecia válido e cabível até levar uma flechada, caso algo não corresse como esperado ou alguma rusga viesse à tona, vá saber. Seria arte, imaginei.

Li sobre a caminhada dos dois na Muralha da China. Passaram oito anos negociando permissões e estudando-a "como uma estrutura metafísica, uma réplica da Via Láctea na terra". Iriam sair de lados opostos e encontrar-se no meio, onde casariam. Quando estavam com tudo pronto, no entanto, o romance entre os dois havia esmorecido. Iniciaram sua andança. Ele partiu do deserto, o lado masculino, ela, do mar, o lado feminino. Essa foi a última performance deles como uma dupla.

"Each of us walked two and half thousand kilometers to meet in the middle and depart from each other, and continue working as a single artist. It was very dramatic and a very painful ending". Achei oportunista.

Agora, neste 2013, circula nas redes sociais on-line um vídeo de Marina reencontrando Ulay, 25 anos depois, em uma nova performance solo no MoMA, que recebia uma retrospectiva de sua carreira. Assisti repetidas vezes, a cada nova postagem em minha timeline, cada hora com um comentário, cada hora despertando um sentimento em algum amigo ou (des)conhecido. Uns sabendo quem eram os dois, outros apenas falando sobre o amor entre duas pessoas que se viam após tanto tempo separadas.

Ele ajeita as calças ao sentar, pés com All Star de cano alto. Ela levanta o rosto, tenta segurar uma cara de surpresa ao ver quem está ali (ainda que soubesse, tanto faz). Ele sacode os ombros, suspira. Ela chora e soluça, quebra a imobilidade prevista na peça e inclina-se, mãos percorrendo a madeira da mesa em direção a Ulay. Ele sorri, com certo alívio. Encontra as mão dela e diz algo que nunca tentei decifrar. Os espectadores aplaudem. Ele sai, ela limpa o rosto.

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo". O amor termina ao descer de um carro, numa performance qualquer. E seu eco é ouvido num museu décadas depois.

Os ultramodernos, os maestros do líquido, agora dizem que "estão" popularizando demais a arte de Marina, tão admirada por Lady Gaga (rememoremos o porquê do pseudônimo da cantora). Que a estão banalizando; "orkutizando" é o termo. Bom mesmo são velharias - ou novidades ininteligíveis - trancadas em grandes construções, ao alcance de poucos. Esquartejamos Danuza Leão quando disse algo similar sobre pessoas de todas as classes sociais poderem ir ao exterior.

Pois que a banalizem, que falem dela até a exaustão, que repercutam o vídeo. Que todos possam ter seus quinze minutos de performance. De releitura do vento, de se pintar com açúcar e se lamber. Que todo mundo possa amar de um jeito exibicionista, terminar em espetáculo e reaparecer feito ectoplasma no museu. Até quando? Até querermos de novo. Mais.

Queria eu ter percorrido toda a Muralha da China para desfazer-me aos poucos da bagagem, guardar a memorabilia e limpar o cômodo pelo caminho.

Que a gente não faça do amor uma arte metida a besta e trancada num museu. Orkutizemos, por que não? Conhecer coisas não nos faz melhor que ninguém. Ter com quem dividir uma interpretação e conversar talvez nos engrandeça. Ter para quem mostrar, de quem receber um direcionamento para o olhar.

"Ignition sequence start", digo, para mim mesmo, imitando em minha cabeça o forte sotaque sérvio de Marina.

--