Ontem fui ao pré-lançamento do livro “Preconceito: uma história”, escrito por Leandro Karnal e Luiz Estevam e publicado pela Companhia das Letras. Conheci o Leandro nos idos de 1998/99, em uma aula que fui assistir na Unicamp acompanhando meu irmão, então estudante de história. Leandro já tinha uma oratória, uma rapidez de raciocínio e uma capacidade de traçar paralelos e exemplificar situações que tornavam impossível desviar a atenção de sua fala. Depois ele foi orientador do meu irmão no mestrado, no doutarado e o apadrinhou em seu casamento.
O Luiz Estevam, por sua vez, eu conheci logo que minha mãe me deu à luz; descontando a equipe médica, acho que ele foi a terceira pessoa que conheci no planeta. Ele é meu irmão e foi quem primeiro me acolheu quando sai do armário e me deu a mão para que eu pudesse me entender e enfrentar o mundo para encontrar meu lugar. Mesmo cercado por uma série de privilégios, esse não foi um momento fácil da minha vida. Anos depois, foi muito interessante ver o Leandro também se posicionando sobre ser parte da comunidade LGBTQIAP+.
Poder pegar em mãos o livro que acompanhei a produção desde 2019 e que aborda um tema tão presente em nossa sociedade e tão urgente foi emocionante: “uma obra que examina os efeitos deletérios do preconceito a partir de sua construção histórica. Se o preconceito é aprendido socialmente, ele pode ser desconstruído – um movimento essencial para que conquistemos uma vida mais harmônica e justa”.
Obrigado ao Leandro por se debruçar e esmiuçar esse tema para que possamos combatê-lo cada vez mais. Obrigado ao meu irmão, seu pomposo título de professor doutor da Unicamp, sua alma de educador, seu coração sem tamanho e seu abraço acolhedor por ter se proposto a uma desconstrução e me dado o suporte e a força para que eu possa ser quem eu sou e por fomentar esse debate. Eu morro de orgulho! Para quem se interessar: https://www.amazon.com.br/Preconceito-uma-hist%C3%B3ria-Leandro-Karnal/dp/8535935495
Quando eu era mais novo as pessoas eram mais homogêneas. Não porque o mundo era mais legal ou as coisas eram melhores, mas porque somos pasteurizados. Nossas individualidades são podadas desde cedo, o diferente é excluído. Por isso, a gente cresce aprendendo a ser a beirada. Aprendendo a mimetizar o que é socialmente aceito para driblar os preconceitos. Meninos não podem pentear a boneca. Poxa, isso talvez não gerasse meninos que penteassem suas namoradas com carinho, que aprendessem a demonstrar o amor aos amigos afagando, não batendo? Que entendessem melhor o corpo da mulher? Que respeitassem? As meninas não podem brincar com ferramentas, quando poderiam se divertir mais e abrir caminhos, inclusive profissionais. Não podemos todos jogar futebol juntos?
Somos segregados desde a mais tenra idade, quando ainda estamos abertos para o mundo. Meninos e meninas. Rosa e azul. Do mais alto pro mais baixo. Dos que foram melhor em matemática pros que foram pior. Futebol para eles e vôlei para elas. Saias e shorts. Tênis e sapatilhas. Esse só pode casar com aquela. E assim seguimos, sufocados e silenciados.
Depois disso sofremos demais para entender o que acontece dentro da gente. Para aprendermos a nos aceitar, a nos amar. Daí vem o hábito de soltar as mãos quando vemos um conhecido se aproximando ou quando estamos em mar aberto, não em algum porto seguro. É um reflexo de sobrevivência, pois o nosso redor é tormenta. A gente amealha amigos pelo caminho para compor uma família que nos ampara, aceita, abraça e fortalece. Que nos ama, no meio da trilha de rejeição.
O mais correto talvez não seja seja dizer que a gente cresce, mas sim que a maior parte de nós sobrevive. Sobrevive a um ódio à toa. Ninguém deveria ser obrigado a viver marginal ao amor, a sobreviver a uma raiva descabida. A gente engole o choro e se cobre com uma armadura de arco-íris. A gente apanha e cai. E ouve que certamente apanhou por algum motivo, por ter feito algo. Sim, por ser quem e como sou e não entender porque isso gera tanta recusa em algumas pessoas. Mas, por toda essa vida, a gente aprende a levantar com a cabeça mais erguida e a voz mais alta.
Eu era beirada até acordar da dolorida realidade das calçadas, mesmo em minha bolha de privilégios e padrões. Era festa ao meu redor e me foi imposta uma concussão. E foi o que precisei para elevar minha voz. E para o amor transbordar por essas feridas. Para que eu use o que tenho ao meu alcance para fomentar a mudança e para fortalecer essa causa e as causas com as quais dialogo.
Encerramos ontem o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e começamos hoje um novo mês em que não seremos mais beirada, ao longo do qual vamos nos orgulhar ainda mais. Nós somos todos os meses, todos os dias, todas as horas. Do nascer ao pôr do sol. Somos o mundo, somos uma explosão de cores, somos amor. E que abram caminho, porque também somos os cabelos das bonecas e as partidas de futebol, únicos em nossas semelhanças, imensos em nossas singularidades.
Eu sou grato a todos que cruzaram minha vida e me trouxeram até aqui, que são minha família e me possibilitaram ser quem sou. Meu irmão, minha mãe, o Carlão, a Bete, o Dr. Lauro, Gabriel, André Lucas, Vinny, Victor, Johnny, Pomba, Fe Fontes, Mayara, Lemp, Caio, Aline, meu pai, Karen, Raquel, Malu, Rod, Rafa Cescon, Pedro. Obrigado! Eu tenho muito orgulho. De mim, da gente.
Como disse a atriz Dominique Jackson, “somos todos seres humanos. Trata-se de inclusão e nunca pedirei respeito a nenhum de vocês. Eu demando. Você não vai me dizer que me aceita. Você não vai dizer que me tolera. Você não tem esse poder. Você vai me respeitar por quem eu sou”.