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18 de abr. de 2021

A química do imponderável

Sempre que vou dar um conselho ou palpite para um dos meus melhores amigos, mais novo do que eu, começo a frase dizendo: “Eu, aqui do futuro...” . Obviamente a diferença de idade não me coloca no futuro, estamos vivendo simultaneamente. Cada um com suas especificidades e seu próprio tempo, mas juntos no calendário. Logo seremos todos mais uma camada geológica na terra.

A diferença de idade não me coloca no futuro nesse cenário, mas os anos de 2021 no calendário gregoriano ou de 5781 no calendário judaico me colocam no futuro para o Lucasof de uns 20 anos atrás. Vez por outra me pego pensando o que ele me perguntaria. E, o mais complicado, o que eu responderia?

Como diria Gabriel Garcia Marquez, eu não venho fazer um discurso ou interferir no seu caminho, afinal, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar e eu não quero tirar-lhe a imensidão e a beleza dessa trilha. Aqui, do futuro, posso dizer que as coisas estão indo bem. Loucas. Os carros não voam, mas os aviões estão mais rápidos. Interagimos e conversamos com pequenas telas que carregamos no bolso ou na bolsa e viramos nós mesmos paisagens solitárias de cartões postais chamados selfies. Escrevemos pequenas legendas para preencher um grande vazio, parecido com o que você sente sozinho em São Bernardo do Campo durante a faculdade, e enviamos para o mundo inteiro, sem saber ao certo quem vai receber. Em vez de um selo para poder enviar, esperamos carimbos de aprovação após o envio. Curtiu, amou?

Você virou mesmo um jornalista, trabalhou nas maiores editoras do país, realizou seu sonho naquele icônico prédio à margem do Rio Pinheiros. Hoje constrói novos sonhos trabalhando na bandeira do cartão de crédito. Fique tranquilo, ela também tem se reinventado ultimamente. Alguns dizem que você se casou, outros que só morou junto. Foi uma baita aventura! E tem outras por aí. Você teve - e nós teremos! - grandes e únicos amores.

Sim, você é gay. A mini Beyoncé que tomava conta do seu corpo durante as aulas de piano já nos dava uma pista. Poderia dizer para você Googlar esse nome, Beyoncé, mas também não faria sentido. Você ainda usa a enciclopédia da biblioteca para fazer suas pesquisas. Um dia você vai saber quem ela é e talvez tomem uma limonada juntos. Você vai ler Brecht e, em outros dias, vai usar toda a angústia como força para tentar fazer uma mínima diferença no mundo. O Duda vai abrir caminhos e a mãe vai peitar tudo e todos por você. Aliás, isso vai te livrar de passar um ano servindo o exército. “Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Você ainda não sabe dançar direito e nem andar de patins. Vai aceitar os cachos do seu cabelo, até que ele vai cansar e começar a cair. Tudo bem, você vai incentivar os cachos de um dos seus melhores amigos e raspar a cabeça durante uma pandemia. Pois é!

Uma a uma, você criou coragem pra pintar as unhas que parou de roer em nome da higiene e de frear a contaminação pelo corona vírus, o da pandemia. Estamos usando máscaras o tempo todo! Veja só se não é um grifo de Fernando Pessoa. Alguns dos seu maiores medos também cruzaram o caminho e você ainda duvida de suas qualidades e competências. No meio disso tudo e de uma jornada com a mãe, você vai tirar forças de várias caixas e gavetas para seguir adiante. A gente chora muito mais hoje em dia, enquanto vê o colágeno pelo retrovisor.

Falando em retrovisor, seus “amigos pra vida toda” viraram boas lembranças pra vida inteira. Ou até onde o cérebro mantiver arquivado. Mas você encontrou uma família pelo caminho, já que a sua oficial nem sempre cabia muito. Você escolheu o nome de uma de suas músicas favoritas para batizar sua cachorra, grande demais pro apartamento em que você vai morar. Ela, Ruby Tuesday, vai se mancomunar com a mãe e se refugiar na chácara. E vem o Costelinha, tão pitico. Eles são grandes companheiros.

As máquinas estão evoluindo e aprendendo, já a humanidade eu não posso confirmar. A gente ainda monta Lego. Digo a gente porque suas sobrinhas gêmeas também gostam! É mais fácil encaixar essas peças do que colocar cada pensamento e cada sentimento em seu devido lugar. Não bata muito a cabeça com isso. Agora chega de eu fazer o que a juventude atual chama de spoiler. Um último palpite: escreva muito, porque as novas gerações não são dadas a “textões”.

Encontre boas maneiras para falar o que pensa e o que sente. Você tem uma mágica que talvez perca pelo caminho. Ou esconda. A gente duvida do ar, mas acredita no vento. Confie na dica do Rugol e banho gelado da sua avó. Engate a marcha e venha tranquilo, porque a areia da ampulheta é macia ao tocar os pés. “A matéria-prima do ar, das rochas e da vida foi e continua sendo forjada pelas pressões gigantescas que existem no coração das maiores estrelas.” Somos todos poeira de estrelas. E eu, aqui do futuro, só existo porque você é uma supernova.
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10 de abr. de 2020

Hoje eu quero ser...

...uma ampulheta, para fazer o passar parecer lúdico e só revelar o fim ao deslizar do último grão de areia pela goela de vidro, quando já não há mais tempo.

...uma agulha, para juntar partes, ajudar a tirar farpas, cutucar e causar dor.

...uma Coca-Coca de máquina, um pouco aguada, bem gelada, descendo por uma garganta áspera.

...um relógio, para poder parar de trabalhar sem muitas conseqüências, mas achar que, assim, tenho o poder de controlar as horas e dominar o mundo.

...uma roupa extravagante atravessando uma passarela, sustentada por um corpo esquálido iluminado por flashes.

...um apagão aéreo, para deixar pessoas ilhadas em outros países e testar os limites do ser humano.

...um bobo apaixonado, com tudo a que tenho direito.

...um balão meteorológico, para voar alto e longe e ouvir: "É OVNI!".

...uma bunda, daquelas bem redondas, que parecem ter sido desenhadas com compasso, para ser admirada depois da passagem por cabeças que torcem pescoços.

...o estepe de um carro, para ficar esquecido a maior parte do tempo e virar protagonista nas horas mais chatas.

...o movimento de rotação da Terra, para inverter minha lógica de funcionamento e fazer o dia virar noite.

...um milho de pipoca, que em pouco tempo muda de cor, forma e sabor, mas mantém a essência.

...uma garrafa de vinho vazia ao lado de um grupo sorridente de pessoas ruborizadas, que discutem coisas bobas como se fossem o que de mais importante há no mundo.

...um clássico do cinema europeu, no qual o tempo passa arrastado em preto e branco, com ótima trilha sonora, numa coleção menos acessada que a dos blockbusters e séries.

...uma roda-gigante, com luzes super coloridas, para girar o dia inteiro e nunca ficar zonzo. E vez ou outra flagrar um jovem casalzinho apaixonado.

...um pingüim, para ser uma ave que nada, protagonizar filmes e anda como se estivesse com as calças no tornozelo.

...um bicho preguiça, para passar o dia grudado numa árvore com cara de sono.

...um perfume doce para, em um esbarrão numa calçada, sair grudado em um corpo anônimo.

...uma batedeira, para misturar coisas rapidamente e sem medo.

...o tapete azul do meu banheiro, que não liga para fios de cabelo caídos e os pisões úmidos.

...uma pausa de mil compassos.

26 de jul. de 2017

O tempo e os valores

- To no Serasa.
- Por que?
- Esqueci de devolver um VHS na locadora.
- Um VHS?!
- Sim.
- Quando isso?
- Em 2001. A dívida está em R$ 5.234,00.
- Talvez esse seja o VHS mais caro da história. Mais que a cópia original de E.T.

20 de mar. de 2015

Sem miolo

Eu quero te encaixotar e esquecer tudo que tivemos, mas a memória nem sempre é obediente e simples como as líquidas conexões digitais. Não temos como nos esquivar de pequenos lembretes espalhados pela vida, como nos desconectar de estopins que nos remetem a momentos e pessoas, momentos com pessoas, pessoas em nossos momentos.

Lavo o rosto com água gelada para esfriar a cabeça e sua escova está ali, na caneca, ao lado da minha. Vou me trocar e a pequeníssima peça de roupa misturada entre as minhas ainda me faz rir. A camiseta de pinheirinhos junta-se aos escritos na janela pelo meu caminho. O prato de formigas não combina mais com meu brigadeiro de capim-limão.

Lembro quando você entrou em minha casa pela primeira vez, analisou tudo com as mãos para trás, como quem desbrava algo novo. Para mim, você parecia pertencer àquele lugar desde sempre. O seu sofá - e a brisa que nos acompanha - me desmanchou em poucos minutos.

Lembro quando vejo as flores de canudo, a cadeira branca de almofada florida ocupada por quem quer que seja, já sem graça alguma. Com os Aperof Spritzers e com tudo mais que fizemos nosso e trouxemos para o nosso mundo.

Para pegar a estrada, onde sempre consigo deixar tudo para trás, desenterro um CD e, surpresa, impossível brincar de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". A segunda música é Sugar Pie Honey Bunch, a terceira diz: "Se me acaba el argumento y la metodología cada vez que se aparece frente a mí tu anatomia".

O amor é realmente uma coisa brega. Mais que meu cabelo outrora vermelho ou minhas roupas mais coloridas e estampadas. Mas é tão mais fácil abrir mão dessas outras coisas todas! Você puxou pra preto e suas poucas variações o tom das minhas roupas e coloriu minha vida.

Por mais que tenhamos voado milhares de quilômetros, caminhado por terras ultramarinas, usado o banheiro para os fins tradicionais nos lugares mais inusitados, trocado presentes, forjado um vocabulário próprio, nos beijado à meia-noite de 31 de dezembro sob pontualidade britânica e um sem fim de coisas nesses poucos meses, depois que eu soube seu verdadeiro estado e ele prevaleceu, você será para sempre um amor que não aconteceu, como o anexo desta mensagem.

Ontem passei mal. Saí do trabalho cambaleando e fui para casa no começo da tarde. Minha vontade era usar isso como desculpa, já que agora você trabalha perto de casa, e pedir socorro. Não por estar mal, mas para te ver. Adormeci, acordei no meio da madrugada um pouco feliz, ainda que zonzo e dolorido. Estava melhor e havia conseguido me segurar. Não te ver e manter meu argumento. Amar também é entender momentos e saber a hora de afastar. De perder. De reescrever todas essas palavras e imaginar quanto tempo o ritual vai levar desta vez.

"A arte de perder não é nenhum mistério; (...)
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério
"

Forget about Montauk. Meet me in Berries.

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10 de ago. de 2014

Hermitage

Eu escrevo sobre tudo, mas ainda não tinha escrito sobre você. Talvez por você ter toda a erudição que sonhei ter, pelos textos e poesias que deixava com nosso café pelas manhãs. Talvez por ainda ter questões pendentes desde que você encerrou as atividades do meu Banco Sacul S/A e o despejou do guarda-roupa de sua casa, aos meus oito anos, quando, com todas as resoluções de um menino dessa idade, decidi que não queria mais te ver e dei um mosh na vida. Mãe, Du, Cecília (minha professora da 4ª série), Tuto, Tio Domenico, Carlão e outros tantos braços que me carregaram no alto até eu descer nos 18 anos, quando você me procurou.

Era bem diferente de tudo que eu lembrava e imaginava. Adolescente clichê, chutei portas e tentei botar pra fora toda a raiva acumulada. Você se desculpou, explicou, aguentou, insistiu. Até que, no ano mais difícil da minha vida, me carregou no colo sem fazer muitas perguntas, deixando claro que me entendia, aceitava e permitindo que eu fizesse da sua casa em SP um bunker onde me escondi inúmeras vezes.

Nesse tempo, você fazia janta e deixava bilhetes pela manhã, ao sair pro trabalho. Ah, os bilhetes pela manhã! Escrevia longos e-mails pra mim, ouvia minhas baboseiras, criou coragem pra me dar a primeira bronca. Do fundo do meu poço, entendi minha solidão – o eremita que herdei de você – e, em vez de dividi-la, deixei que me ajudasse a sair dela e fizesse companhia. Você segurou uma barra imensa e voltei a te chamar de pai em meus pensamentos.

Abaixei a guarda e ganhamos o mundo. Rimos alto quando você foi trapaceado por uma pimenta disfarçada na Cidade do México. Bebemos vodka nas noites de sol infinito do verão russo. Vi uma alegria infantil nos seus olhos azuis, sempre camuflados pelos óculos, e seus pés balançando quando pode pilotar uma lancha pela primeira vez na vida, ladeado por ilhas cheias de vinhedos.

Fomos ao show do Eric Clapton, seu primeiro show em estádio. Ao Paul McCartney. Vimos juntos Bruce Springsteen cantar Thunder Road nos meus 30 anos. Gosto de ver você batendo tímidas palmas e levantando os pés, no que não caracteriza um pulo, quando está curtindo um show. E não seguro um sorriso emocionado quando você transcende e pula na pista ao som de Jump, do Van Halen.

Conversamos muito sobre a vó e família. Du e eu vivemos tantas coisas com ela, como netos, e é bonito poder unir com suas lembranças de filho. Eu gosto da sua história, até das partes em que troca os pés pelas mãos.

Foi por sua história torta que acabei destituído do meu posto de caçula para ganhar uma irmã mais nova, entender isso tudo e me emocionar ao vê-la de noiva e casando.

Jantamos juntos, ficamos trilili tomando vinho, que você tanto gosta e eu faço graça ao avaliar aromas, falamos sobre a vida e rimos. Gosto quando faço você rir com minhas besteiras.

Hoje estamos todos indo para a casa do Duda, eu como tio e padrinho, você como avô babão de gêmeas, para comemorar o primeiro dia dos pais dele. Vamos cozinhar!

Você está em duas das minhas tatuagens. Está no meu coração. Eu não escrevi sobre você até hoje porque esperei a hora e a coragem de dizer pra todo mundo o quanto eu te amo.

Feliz dia dos pais.  =)


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Um pouco do pai, para o pai

(...) Viajamos nós quatro, ou com avós e tios, rimos juntos e vivemos uma festa. Que grande infância pudemos ter graças a isso. Mesmo quando as noites na chácara tornavam-se um breu de escuras, com as constantes quedas de energia que havia, ele nos levava para o quarto dele com a mãe, acendia um abajur, e lia capítulos de livros que jamais esquecemos: Tarzan, a Ilha do Tesouro e Origens (com um fóssil na capa!) foram acompanhados como novela, um capítulo atrás do outro, noite após a outra... Não à toa a leitura estar entranhada nos seus filhos!

(...) O Rui pai voltou com sua timidez, seu sorriso por detrás de um par de óculos. Seus olhos azuis traziam a companhia de cabelos grisalhos. Mas era o Rui pai, disposto a voltar a sê-lo. Nenhuma história de separação é completa se não flertar com a história da volta, da reconciliação, do perdão. Mútuo e definitivo. Perdoar não significa esquecer, mas lembrar para que não mais ocorra e, com isso, renovar as chances de erro mutuamente. Dar a chance para incontáveis acertos e poucos e novos erros. Perdoamo-nos, construímo-nos de novo. E isso foi muito legal.

(...) Mas, acima de tudo, sonhamos e desejamos ver se iluminar o quarto do menino que você tem dentro de si e que ele possa mirar seus próprios olhos azuis no espelho de seu coração e sorrir, sem medo de mais nada: você é um grande pai, o melhor que poderíamos ter.

11 de mai. de 2014

Tenho medo de ser um só

Paixão é furtar uma blusa de alguém e vesti-la pra se sentir abraçado, o toque, o cheiro.

Amor é lavar uma camiseta esquecida em seu quarto junto com as suas, porque você emprestou outra limpa para o trabalho, e sorrir ao vê-la dobrada na gaveta de seu guarda-roupa, torcendo pra ela querer voltar sempre ou nunca mais sair.

Namorar é tentar nunca parar de roubar a blusa e rir ao olhar pra camiseta. E ter vontade de usar tudo ao mesmo tempo, até no verão.

Mas, na maioria das vezes, a gente só percebe isso quando vê a blusa em algum canto de algum brechó, por um preço simbólico, e acha a camiseta, desbotada e esgarçada, no fundo da pilha de pijamas e pondera se é tempo dela deixar o armário.

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25 de fev. de 2014

Um ano. Novo.

Quando penso em catalogar 2013 como ruim, lembro que pulei para os 30 anos em casa, com meus amigos, mergulhando na piscina de bolinha. Saímos para dançar logo após a meia-noite. E segui festejando com mais amigos, Lego, pizza e brownie na casa de minha mãe.

Caminhei pela Rue Balzac, tomei vinho nos degraus do Trocadéro enquanto a Torre Eiffel piscava, vi uma Rainha saindo de seu palácio, visitei um bunker de guerra. Casei a Pedra de Roseta com o Código de Hammurabi, em segredo, num cantinho de minha imaginação dentro do British Museum, com fish&chips para comemorar.

Chorei enquanto cantava “Thunder Road" muito alto e desafinado no show do Bruce Springsteen. Meu irmão me abraçou apertado e meu pai nos observava e batia raras palmas. “So you're scared and you're thinking that maybe we ain't that young anymore...”

Alguém escolheu meu shampoo pela primeira vez e fez espuma em minha cabeça numa manhã etérea.

Os Paralamas do Sucesso cantaram as melhores músicas (ou as minhas favoritas) de seus 30 anos de carreira para Fe Fontes e para mim, em nosso relógio sem órbita no Rio de Janeiro. Fui várias vezes ao Rio de Janeiro.

Elba Ramalho seguiu com a brasilidade e ameacei uns passos de forró.

Vi duas estrelas cadentes no limpo céu do interior e fiz os pedidos mais clichês.

Melhorei meu corpo, cortei o cabelo e mantive os cachos possíveis. Adotei Ruby Tuesday, mudei minha relação com minha casa. Troquei todos os lustres de casa. E a cama. E tirei muitos enfeites que já não faziam sentido. Mantive o quadrinho do Laerte na parede da escada.

Vi muito mais os meus amigos, com conversas leves e divertidas. Procurei os meus amigos. Fui convidado para ser padrinho em três casamentos e um nascimento em dose dupla.

Os trocadilhos voltaram, junto com minha empatia desengonçada e subserviente à hierarquia.

Entendi um pouco mais a minha loucura.

Reencontrei a alegria ali no finalzinho, voltando para minha casa na manhã do dia primeiro de 2014, pé ante pé para não acordar minha mãe, que preferiu dormir após a virada em vez de ir para a balada comigo. Sua respiração era tranquila em minha cama. Deitei no chão de madeira da sala, com um sorriso de adolescente safado, e percebi que tudo havia conspirado para o bem.

“...show a little faith, there's magic in the night”.

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30 de jan. de 2014

Pkou!

Uns oito anos atrás, não tenho muita certeza, quando "vacilava entre a infância e a juventude" e tremulava entre a adolescência e a vida adulta, vi um quadrinho do Laerte na Folhateen que conseguiu colocar em uma página – de jornal, para compor da melhor forma aquele momento de um estudante de jornalismo – toda a intensa enxurrada de sentimentos do período.

Separei a página, com o bonito som da folha rasgando na lombada do caderno, e enquadrei. Pendurei na parede do apartamento de São Bernardo. Postei em meu fotolog. Lembrei do quadrinho em várias ocasiões, dias, tardes, noites. Mudei para São Paulo e, até hoje, o quadro está pendurado na escada de casa, onde passo todos os dias. Ora adulto, ora adolescente. Sempre pensando no Apache.

E foi essa mesma história, foram esses traços e texto que Laerte escolheu para inaugurar seu espaço no Brasil Post (The Huffington Post Brasil). Talvez uma parte de minha alma confusa se encontre com a dele ao longo desses inesquecíveis nove retângulos.

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P.S.: Hoje, coincidentemente, é o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. =)

21 de jan. de 2014

There is a truth and it's on our side

- Sabe do que mais sinto falta do nosso namoro?
- O que?
- A borda de massa tostadinha da pizza do lado da sua casa.
- E eram só R$ 7,90, calabresa ou mussarela.
- Casávamos um pedaço de cada, sem sequer sabermos ficar juntos.
- Foram anos incríveis.

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7 de jan. de 2014

Ground Control to Major Tom

Passando 2013 em revista e relendo alguns comentários aqui do blog achei um da Bean, que, dez mil anos atrás, dizia: “Li uma vez que a maioria das nossas memórias de infância vêm de fotos e vídeos caseiros. Provavelmente a gente se lembre dos pais com uma roupa X, com um cabelo Y, com um sorriso congelado. Porque são ‘retalhos’ de várias fotos armazenadas na cabeça. Será?”.

Estou embalando coisas rumo ao congelador. Essa não precisa ser uma sensação ruim, finalmente passo a entender. É a composição da memória de uma forma que restem apenas os fragmentos que nos rasgam um sorriso ao serem resgatados. Os pés de uma tarde na praia, os cabelos de uma manhã de vento, o sorriso bobo da graça cotidiana que um dia houve, a blusa da festa, a camiseta do trabalho, uma careta, a calça já fora de moda, danças desengonçadas, pequenos lugares secretos de viagens... Toda essa marmita é de imagens estáticas, mas tem uma trilha sonora. Animada, como estes dias.

Eu não escovo os dentes toda noite, por mais cansado ou em qualquer estado físico ou mental que esteja, só por asseio ou costume. É porque, bem como sempre lavo os cabelos e nunca deixo de secar os vãos dos dedos dos pés, quero deixar para trás tudo que tenha acontecido e começar um tempo novo pelas manhãs. As lembranças boas não irão com a água, comporão meu corpo, e as ruins escorrem pelo ralo. Assim me renovo, com pequenos rituais particulares.

Minhas lembranças, hoje, voltam a ter o som de páginas virando. E a caixa do último brinquedo que ganhei diz “a partir de 30 anos”, embora continue sendo um quebra-cabeça.

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“... mas se arriscar ainda é a única forma de não se tornar uma pessoa amarga. É preciso insistir no amor, apesar de tanta desordem por aí. (...) ‘Só me arrependo do que não faço’ é conversa fiada de gente bêbada. Você vai se arrepender de muita coisa que fez. Nem tudo que é quebrado pode ser consertado”

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12 de nov. de 2013

Os Marleys e a gente

Chegamos a ter quatro Pastores Alemães convivendo conosco ao mesmo tempo na casa de minha mãe, no interior de São Paulo. O quintal era imenso e, para uma criança nos seus cinco, seis anos, era quase como dividir uma floresta particular com imensos e velozes animais. Tilim, Bruna, Ceci, Lion. O casal Tilim e Bruna teve seis ninhadas, o que me fez acompanhar várias vezes a gestação, o parto e perceber como uma cachorra lida com sua prole (Pacato e Lela são dois outros dos quais lembro bem). Além dos Pastores, tive um Cocker malhado, tenho uma vira-lata caramelo e minha mãe tem um Beagle grisalho.

Dois deles deixaram passagens intensas. Lion ficou conosco durante 15 anos, 15 sensacionais anos. Tempo suficiente para invertermos, em iguais proporções, a graça e alegria que ele nos deu no auge de seu vigor com o cuidado, carinho e atenção que demandou em sua velhice. Ele foi um grande companheiro, inteligente e safado como esperamos que todo cachorro seja. Velhinho, dormia durante longo tempo com a cabeça em meu colo, enquanto eu espantava os mosquitos que tentavam atrapalhar seu sono e fazia carinho em seus já desbotados pelos.

Uma noite, meu irmão e eu o encontramos deitado no jardim, fraco e muito ofegante. Tentamos animá-lo com leite, seu alimento favorito, com carinho, até que percebemos que ele só queria alento e companhia para que pudesse partir. Cerca de uma hora depois, percebendo seus olhos inquietos e em busca de algo, resolvemos chamar minha mãe, que estava dormindo. Um pouco assustada, ela se juntou à nós, fazendo cafuné em sua barriga e dizendo-lhe que ficasse em paz, que ele havia sido uma imensa alegria em nossas vidas e que era hora de descansar. Lion deu um suspiro longo, foi esmorecendo, fechou os olhos e relaxou as patas. Recolhemos sua coleira e, na manhã seguinte, o enterramos sob as bananeiras, bem perto das folhas de capim-cidreira nas quais ele adorava se coçar e se aninhar.

Quase dois anos depois, adotei um cachorro que encontrei nas ruas. Quando recuperado e em dia, pudemos ver que era um Cocker. Meu Bolacha. Seus pelos compridos, quando perto da hora do próximo banho, viravam um insolúvel emaranhado de folhas, galhos e demais coisas enroscadas ao longo de suas andanças pelo quintal. Ele era uma animação só, bobão e companheiro. Diferente do Teco, o Beagle, gostava de ficar deitado comigo na rede, balançando, nos finais de semana de descanso. Ele ficou doente e internado por bastante tempo, até que precisou ter sua vida abreviada. Eu nunca havia passado por um momento assim. Levamos ele de volta para a casa, para que ficasse conosco em sua última noite. Teco deitou ao seu redor de uma forma que parecia abraçá-lo. Ganhou muito carinho. No dia seguinte, fomos ao veterinário e me despedi, com o coração miúdo e uma confusão de sentimentos. Corri para um colo e para ser abraçado. Bolacha foi enterrado pertinho do Lion, e o Teco passou noites seguidas dormindo ali.

Hoje, essa dupla, Lion e Bolacha, está recepcionando uma pequena Poodle com nome de cantora teen, para que possam correr pelo infinito campo no qual os imagino. De cabelinhos brancos arrepiados, roupinha e um pouco trêmula, ela chega para contar toda a vida que dividiu com um menino aqui na terra, desde pequenos até hoje, um tempo bastante diferente e numa fase de tantos capítulos adultos, mas cujas lembranças e alicerces ainda justificam que ela se chamasse Sandy.

22 de ago. de 2013

Fui ao Orkut e resgatei um testimonial

"Lucasof é um menino-homem travestido de ditador mexicano que, apesar de toda a sua experiência e maturidade, persiste em esconder seus medos e sua fragilidade por trás de lindos olhos azuis. É tão genial que consegue construir uma imagem de 'cara insuportável', mas logo se contradiz, quando deixa seu lado moleque-palhaço a solta. Filosofa e chora e canta e ri e abraça e pede colo. No fim, sempre tira de mim uma expressão de 'ooooown, que fofo!', que eu odeio. Passou de chefe a conselheiro e ganhou um status incrível no meu coração.

Só posso dizer que hoje, 1 ano e meio depois de ter te conhecido, sorrio ao lembrar de cada conversa, cada bronca, cada piada, cada Skittles... E carrego por todos os cantos daquele prédio na marginal, as tuas últimas palavras, no meu dia de despedida da Rua Amauri. Você, Lucasof, é foda!"

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Obrigado, Alininha! =)
Direto "daquele prédio na marginal", o qual dividimos por pouco tempo, infelizmente. 

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"(...) Lo importante no es entrar
en todas la casas, sino no estar
totalmente afuera de ellas (...)"

6 de ago. de 2013

Caleidoscópio

A aproximação foi via amigos em comum na faculdade, mas não consigo recordar se houve um momento específico depois do qual estreitamos ou se foi uma evolução natural da espécie.

Um ano após a formatura, em 2007, falei sobre você. Era um testemunho no Orkut - bons tempos - no qual grifava aspectos divertidos. A síntese era uma menina que habitava um mundo "Rock & Roll hype vintage hypercool", seja lá o que isso signifique, e me ensinava que "amizade não é sufoco e silêncios podem ser cúmplices, não constrangedores". Já era linda aos meus olhos e ao meu coração. Amiga lá de longe, da beira da capital, e nas caronas de ida e vinda sempre aproveitei para dividir pedaços de mim. Talvez você seja a primeira-dama do Cibié.

Agora você mora perto, posso ir andando. E como fujo para sua casa! Com paredes de chita colorida e quadros de viagem, cinema e rock. E, sim, com um terracinho todo seu. Gosto de saber que sou parte disso. Gosto de poder achar que estou cochilando escondido enquanto vemos filmes, e que você vela essa soneca porque sabe que, nesse momento, é o que preciso além do seu abraço. Em troca, aceito dividir a pipoca no cinema.

Quando não trabalhávamos juntos, ia de São Bernardo até a Casa das Rosas para passar tardes com você e Lemp, comendo cocada e falando besteiras.

Viajamos. Desde o planejamento de longas viagens, tentando encaixar 153 lugares e afazeres em 30 dias de férias, até fugas rápidas para a praia ou indo aos shows de bandas de nossa adolescência.

Você me leva ao estádio para os jogos do Corinthians, ao samba, dança minhas músicas, cantamos juntos caminhando pelo bairro. “Quando piso em folhas secas”. "We came to far to give up who we are". "Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho". Elogia a bricolagem, embora nem sempre confie de primeira nos meus feitos. Diz que sou forte quando carrego coisas pesadas, me faz dançar forró e diz que dancei direitinho. Não pelo peso ou pela força, pelos passos corretos ou pelo ritmo, mas pela graça.

Sabe meus maduros e meus podres. E dá broncas! Você me desarma. Faz com que eu entenda a vida, meus pais, meus amigos, meu irmão. Meus irmãos, talvez. E quão importante é entender algo antes de alguns sentimentos.

Não sei mais imaginar um dia sem pensar que você será parte dele. Se não imediatamente ao lado, nas mensagens, nas ligações, nas ideias. Tenho a sensação de sermos infinitos. Todavia, caso o mundo físico se altere, você vai continuar para sempre a fazer parte da minha existência, disso estou certo. Em meus pensamentos, em minha pele, em minhas palavras e em meu coração.

Você é um terremoto que bota tudo no lugar e me dá fôlego. Você me salva dia após dia durante tempestades e engrandece meu sorriso quando não estou envolto em besteiras.

Obrigado. Te amo.


     Desde 2003, a gente só fez foi ficar cada vez mais lindo. =)

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15 de jul. de 2013

Adolescência

Pudesse eu ter nascido em seu mundo, andar livre pelas hoje escuras ruas de seu tortuoso e escondido coração. Soltar-me da razão e ser só sentimento, render-me a imaginação. Pudesse viver com você em um constante exílio, dizer bobagens ao pé do ouvido, dançar tudo o que não sei. Pegar no sono deitado ao seu lado em um sofá perdido no tempo, passear, rir, render-me, me perder em você. Pudesse eu saber você.

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Andre Kertesz - Art Fair, painting of reader

1 de jul. de 2013

Paris-Manhattan

- E a sua loucura? Eu não sei nada sobre você. Mas ela deve ter sido muito sacana.

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- Onde você está?
- No banheiro. Por quê?
- Já leu "Belle du Seigneur"?
- Já chega, estou indo.
- Chegue logo.

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- Aos 15 anos, achava que Cole Porter era uma marca de jeans.
- Sério?
- Ele me contou a verdade.
- Que verdade?
- Aquela que se pode tocar de olhos fechados.
- Entendi.

26 de jun. de 2013

A parte mais fácil

O exercício de nos imaginarmos adultos. Tudo parece distante e, honestamente, não tão difícil de alcançar. A folha está em branco e a cabeça explode em traços e cores.

Firmei que aos trinta seria um cara casado, com carro, casa, trabalhando em um determinada empresa. A casa cheia de amigos e isso seria a plenitude. Assim pensava faz uns dez, quinze anos. Tenho a casa, o carro, trabalho nessa empresa; os amigos vêm sempre que as agendas permitem. Tive longos namoros, não me casei. Pulei um monte de etapas do plano inicial, não fiz um monte de coisas, errei bastante. Machuquei bastante. Perdi oportunidades. Viajei pra caramba. Mudei. A parte complexa acontece agora, em que estou entendendo que mudei.

Desdobrei a folha e estou olhando com olhos franzidos. Evoluir em cima dessa mesma? Rabiscar por cima de planos tão honestos e cheios de juventude? Jogar fora e pegar uma nova? "Meet me in Montauk", suspiro.

Sobre mudança e cabelos, uma vez a amiga Adília, com madeixas que concorrem como as mais elegantes do mundo, disse a receita:

"Aos 15, pinte o cabelo de azul e compre uma mochila que combine
Aos 20, esqueça o cabelo e mantenha-o amarrado num rabo de cavalo
Aos 25, faça permanente, para se despedir dos cachos
Aos 30, levante o queixo e solte as madeixas
Aos 35, corte o cabelo bem rente, pinte de cor de cobre, a correria exige coisas práticas
Aos 40, brinque de luzes, faça chapinha hoje, escova amanhã, perca tempo
Aos 45, chanel, para curtir a elegância
Aos 46, na noite de ano-novo, prometa a si mesma que não vai mais pintar o cabelo, raspe a cabeça com máquina 4 e encontre um cabeleireiro que ouse ajudar você a se reinventar…"

Eu acolhi os cachos aos 25 e levantei o queixo aos 30, questionando os fios que branqueiam em velocidade acelerada. É importante nos reinventarmos. Encontrarmos novos significados para partes, despedirmo-nos de outras, fincar algumas decisões. "To everything there is a season and a time to every purpose under heaven". Tudo bem, eu sei que sou um pouco repetitivo com esses versos.

Gostava da música dos Byrds antes mesmo de ter lido Eclesiastes. Nunca fui um menino da Bíblia, sempre fui um cara de fé.

Mas há um tempo em que um homem não é uno. Seus vícios e virtudes estão em descompasso e as mãos agem com intensidade de pés. O mundo perde as referências e, por reflexo, ele reage por acúmulo e explode. Há um tempo de entender. Há um tempo de se arrepender, refazer. Haverá a idade das coisas leves. Haverá a unidade e o amor.

Aos trinta, pegue uma garrafa de vinho, entre no metrô, desça na estação Trocadéro e peça alguém em casamento em frente à Torre Eiffel. Não interessa onde isso vá desaguar, um momento infinito terá sido vivido. Uma nova tatuagem terá sido feita. Um novo desenho adicionado na folha. Nada poderá mudar aquela pausa na existência. Mesmo que seja o tempo de encontrar outros significados e ter uma longa noite de sono para renovar os sonhos até alguma outra idade.

O cabelo, agora, está vermelho. Estou voltando de mais uma viagem. Duas, talvez, já que regresso à Terra depois de alguns dias brincando de Neil Armstrong. If you believe they put a man on the Moon.

Memórias e vontades. A página está cheia de coisas e de espaços.


7 de mai. de 2013

Amor numa madrugada qualquer

Estou na firma, voltando agora do curso que lota minhas noites de segunda e quarta e alguns sábados. Deveria estar pilhado refletindo sobre tudo que vi por lá, sobre os projetos e desafios. Ou sobre o incrível show dos Paralamas, que comemoraram 30 anos - meus e deles - no Rio de Janeiro e que curti com pulos adolescentes, cantando em voz alta e dançandinho com Fe Fontes até duas e tanto da madrugada. "Você não sabe quantos planos eu já fiz, tudo que eu tinha pra perder eu já perdi, o seu exército invadindo o meu país". No trabalho. No filme que assisti. Mas estou pensando no amor. Não na paixão, na conquista, no frisson, mas no amor. E pensei nele antes da aula e do show, durante a aula e o show, durante o vôo de volta, durante o trabalho, na praia, ao longo do filme, o tempo todo.

Estou na firma porque não quero o silêncio cheio de lembranças de casa. O filme está no aparelho de DVD, o bolo está em cima do fogão, com apenas uma fatia comida. O colchão branco está no chão da sala, tem bebidas na geladeira. Eu estou na firma e o lustre colorido está com suas sete lâmpadas apagadas.

Tudo já foi dito sobre o amor, é verdade. Escrito, cantado, versado, vendido, acertado, estragado, gritado, chorado, sorrido...

Ele é fogo que arde sem se ver, é líquido, impulsiona heróis, gera ridículas cartas de amor. É como ser poeta, coisa difícil de definir. "É amar-te, assim perdidamente, é seres alma e sangue e vida em mim e dizê-lo cantando a toda a gente". É rédea, é deslumbre. Não tem fim.

Eu não sabia nada sobre amor até que passei um ano olhando para meu reflexo. Um ano dolorido e sozinho. Eu sabia sobre paixão, disputas, medo, concorrência, sexo (talvez), companhia, ser deixado para trás e replicar modelos. No entanto, nunca soube o amor e o respeito. E a alegria dessa dupla.

“... I watched you suffer a dull aching pain, now you decided to show me the same...”

Aí, ao fim desse ano e de uma década, eu tive um estalo. Eu me vi nos livros, nas cartas, nos poemas, filmes e tudo mais. Eu quis olhar de dentro, não com um pé no resguardo. O que, sejamos honestos, ferve a cabeça e confunde ainda mais o dia a dia.

Talvez eu até agora não saiba, ninguém nunca vá saber, mas acredito na Carolina Ferraz. Diz ela que foi um amor, um único amor que veio, cruzou sua vida, tocou sua alma e ficou marcado em sua pele. E que numa quinta-feira a tarde de um ano qualquer, tropeçamos nesse amor já supostamente esquecido e percebemos que amor igual não há, e que aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referência afetiva mais sincera e profunda.

Marcado na pele. Elis está cantando algo semelhante ao lado deste post.

E acredito em Dante e que, ao fim de todo inferno, “do ledo céu as cousas belas, por circular aberta divisamos: saindo a ver tornamos as estrelas”.

Ele é oposto aos planos e aos portos seguros. Talvez eu esteja começando a entender o que é amar. Talvez esteja com síndrome do pânico.

O amor não é tecnologia. Sua história é batucada em uma máquina de escrever. Seu som é o de teclas, firme, lúdico, identificável, decifrável apenas se decodificado na página timbrada. O amor é o enroscar do mecanismo da máquina de escrever ao se digitar duas teclas simultaneamente. Velho, inevitável, errado e charmoso.

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Porque essa noite eu tive um pesadelo recorrente sem ter sido um mau menino.

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30 de abr. de 2013

As canções que você fez pra mim

- Ela adora um caráter jesuíta nas amizades
- Você é muito diferente, né
- Sou muito diferente. Meu caráter jesuíta não é só para amizades, é para o universo. E todos mais que houver
- (Risos) Para a galáxia
- Dou espelhos e quero devoção. E fé
- Cega
- Faca amolada
- Vaca atolada. Minha mãe cantava assim pra mim, demorei pra descobrir
- Eu demorei a saber que faca amolada não era uma faca que alguém deixou de saco cheio

24 de abr. de 2013

Bellini

O relâmpago “Je serais content quand tu seras mort” a despertou. Era o resto da fita que pusera para tocar.

Talvez por discordar do verso é que tenha conseguido voltar à consciência. “Je t'ai reçu à bras ouvert”, e de braços paralelos ao corpo seria a despedida. Aquilo fora uma construção, sufocante e linda. Este último dueto – não o fim da ópera – servira apenas para marcar na pele o início de uma ária.

Aquela foi a última vez em que se viram fisicamente. Quando conseguiu levantar da poltrona, sem saber se passou horas ou tempo demais escangalhada ali, pensou em fugir de sua própria vida e tentar algo novo e longe.

O pensamento óbvio era por onde começar. Por onde recomeçar. O que?

Jogou a comida, fria e enrugada. A comida fora sempre uma personagem coadjuvante. Lavou a louça, virou e recombinou a mobília. Abriu o armário do quarto. Os melhores textos foram no baú que ele mandou buscar dias antes. Sem rascunhos. As roupas foram na primeira mala. Lembrava-se da blusa listrada, com furos para os dedos. Pela foto imortalizada digitalmente, talvez. De resto não tinha memória exata.

Espreguiçou-se e resolveu ficar. Andar.

Por mais que fugisse, tocasse fogo na casa, corresse, é certo que carregaria aquela construção consigo. A cabeça não poderia ser renovada ou deixada no passado, estava pregada ao corpo e era muito mais rápida e honesta que o desejável para o tempo. Os tijolos e telhas seriam pesados demais e os alicerces teriam que ficar para trás.

Mudou alguns hábitos.

Teve outros amores, nunca acreditou em apenas um. Do terceiro trazia a agonia de nunca tê-lo deixado passar do tapete da porta de entrada. Do quinto, uma sensação morna. Do sexto, a retomada da sensação de beleza e segurança. Perdeu as contas. Não por serem muitos, mas por serem outros.

Tê-lo como seu nunca mais era o que menos lhe azedava a boca. Tê-lo como uma bruma envolvendo a estrada e obrigando a transitar sempre devagar e com atenção é que empapuçava. Já sabia que ele não era a personificação da beleza e alegria, tal qual Tadzio, mas ainda não sabia como não tropeçar em um narcísico fim similar ao de Aschenbach. A morte pelo desejo do reflexo.

Tantos anos que perdeu tentando ser o filme, quando poderia ser a trilha sonora. Esta ária era para que ela aprendesse sobre ela mesma! Obrigada a assumir. Pediu, em sua mente, algumas desculpas. Ah, como se arrependeu de coisas...

Ele e ela trocaram mensagens, algumas mais que amenas. Cartas íntimas. Ela conversava com os filmes. Foram desconhecendo-se em um terreno de intimidade que espectadores jamais entenderiam e julgavam a todo tempo. Ela mantinha poucos amigos.

O que ele estaria fazendo enquanto ela escrevia? O que ela fez enquanto ele assistiu ao filme do qual cita um trecho na última carta? Por que não podemos ser amigos, ele pergunta? Porque nunca fomos, responde a tela. Qual lugar mais teria gostado de conhecer? Com quem comentar coisas cotidianas? Seu toque fora superado? Esquecido?!

Descontou no cartão de crédito a ausência de uma companhia com quem fazer planos em conjunto. Tempo.

Um dia pendurou-se na escada, sacudiu o corpo, como quem dança ao balançar suspenso pelos braços, soltou um sorriso tímido, de cantinho. Era um passo. A névoa começava a orvalhar.

A vida possui mais fantasmas que nossos sonhos.

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"É como se eu não te convidasse pra festa, e mesmo assim ficasse bravo por você não ir."

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Este post é uma continuação de "A vida em preto e branco"

13 de fev. de 2013

O que leva um dia até outro dia

Eu nasci apressado em uma quarta-feira de cinzas. Eu sou um pouco quarta-feira de cinzas - a Marcha da Quarta-feira de Cinzas -, característica que tatuei na panturrilha esquerda. Solidões e eterna sensação de fim. Não sei se isso está mudando com a idade ou se estou passando a entender melhor.

Na véspera desta quarta, cheguei em casa um pouco mais tarde do que planejei. Carnaval por todas as ruas, por todas as pessoas, diversão obrigatoriamente imensa. As coisas estavam em silêncio e, estranhamente, não liguei a TV ao entrar, gesto praticamente automático. Subi lentamente as escadas, tomei banho, organizei algumas coisas e roupas. Durante esse ritual, sussurrei a música "The Parting Glass". Não sei o que ela fazia em minha cabeça após tantas marchinhas, sambas e axés. O tom talvez fosse um pouco mais melancólico que o desejável para a data. 

A primeira vez que ouvi essa canção foi em um seriado, durante uma cena em que uma família se despede da sede de seus negócios, que chegam ao fim. Apagam as luzes, uma a uma, desejam boa noite à empresa. Não se despedem uns dos outros, mas do lugar. Do tempo. Muitos simbolismos para ilustrar um daqueles raros momentos em que temos a consciência de que as coisas não mais serão as mesmas. Podem ser melhores, mas certamente mudarão.

Aproveito a sensação para pegar meu caderno de rascunhos e a caixa de lembranças. Estranho vasculhar dentro da gente. Quem fomos, o que somos, o que planejamos, o que aconteceu. Algumas frases ainda fazem sentido, soam, quem sabe, como uma mensagem enviada ao futuro. Passo a vasculhar memórias digitais. Há um post de setembro de 2004 com uma foto do prédio da firma e a legenda: “Quem sabe um dia”. Este, agora. Estão ali grandes amores, grandes momentos. Encenação, também. Escolhas. Muita coisa mudou, dentro e ao redor, mas ainda sou um menino (menino?) das mesmas músicas, dos mesmos poemas, das mesmas besteiras.

Ouço "The Parting Glass", três versões diferentes. Encontro a cena do seriado. O sono, tão raro, veio. E a calma. Apaguei as luzes, desejei boa noite. Este talvez seja um desses momentos.

Eu comecei em uma quarta-feira de cinzas.

“E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar (...)
Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
”

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