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18 de abr. de 2021

A química do imponderável

Sempre que vou dar um conselho ou palpite para um dos meus melhores amigos, mais novo do que eu, começo a frase dizendo: “Eu, aqui do futuro...” . Obviamente a diferença de idade não me coloca no futuro, estamos vivendo simultaneamente. Cada um com suas especificidades e seu próprio tempo, mas juntos no calendário. Logo seremos todos mais uma camada geológica na terra.

A diferença de idade não me coloca no futuro nesse cenário, mas os anos de 2021 no calendário gregoriano ou de 5781 no calendário judaico me colocam no futuro para o Lucasof de uns 20 anos atrás. Vez por outra me pego pensando o que ele me perguntaria. E, o mais complicado, o que eu responderia?

Como diria Gabriel Garcia Marquez, eu não venho fazer um discurso ou interferir no seu caminho, afinal, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar e eu não quero tirar-lhe a imensidão e a beleza dessa trilha. Aqui, do futuro, posso dizer que as coisas estão indo bem. Loucas. Os carros não voam, mas os aviões estão mais rápidos. Interagimos e conversamos com pequenas telas que carregamos no bolso ou na bolsa e viramos nós mesmos paisagens solitárias de cartões postais chamados selfies. Escrevemos pequenas legendas para preencher um grande vazio, parecido com o que você sente sozinho em São Bernardo do Campo durante a faculdade, e enviamos para o mundo inteiro, sem saber ao certo quem vai receber. Em vez de um selo para poder enviar, esperamos carimbos de aprovação após o envio. Curtiu, amou?

Você virou mesmo um jornalista, trabalhou nas maiores editoras do país, realizou seu sonho naquele icônico prédio à margem do Rio Pinheiros. Hoje constrói novos sonhos trabalhando na bandeira do cartão de crédito. Fique tranquilo, ela também tem se reinventado ultimamente. Alguns dizem que você se casou, outros que só morou junto. Foi uma baita aventura! E tem outras por aí. Você teve - e nós teremos! - grandes e únicos amores.

Sim, você é gay. A mini Beyoncé que tomava conta do seu corpo durante as aulas de piano já nos dava uma pista. Poderia dizer para você Googlar esse nome, Beyoncé, mas também não faria sentido. Você ainda usa a enciclopédia da biblioteca para fazer suas pesquisas. Um dia você vai saber quem ela é e talvez tomem uma limonada juntos. Você vai ler Brecht e, em outros dias, vai usar toda a angústia como força para tentar fazer uma mínima diferença no mundo. O Duda vai abrir caminhos e a mãe vai peitar tudo e todos por você. Aliás, isso vai te livrar de passar um ano servindo o exército. “Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Você ainda não sabe dançar direito e nem andar de patins. Vai aceitar os cachos do seu cabelo, até que ele vai cansar e começar a cair. Tudo bem, você vai incentivar os cachos de um dos seus melhores amigos e raspar a cabeça durante uma pandemia. Pois é!

Uma a uma, você criou coragem pra pintar as unhas que parou de roer em nome da higiene e de frear a contaminação pelo corona vírus, o da pandemia. Estamos usando máscaras o tempo todo! Veja só se não é um grifo de Fernando Pessoa. Alguns dos seu maiores medos também cruzaram o caminho e você ainda duvida de suas qualidades e competências. No meio disso tudo e de uma jornada com a mãe, você vai tirar forças de várias caixas e gavetas para seguir adiante. A gente chora muito mais hoje em dia, enquanto vê o colágeno pelo retrovisor.

Falando em retrovisor, seus “amigos pra vida toda” viraram boas lembranças pra vida inteira. Ou até onde o cérebro mantiver arquivado. Mas você encontrou uma família pelo caminho, já que a sua oficial nem sempre cabia muito. Você escolheu o nome de uma de suas músicas favoritas para batizar sua cachorra, grande demais pro apartamento em que você vai morar. Ela, Ruby Tuesday, vai se mancomunar com a mãe e se refugiar na chácara. E vem o Costelinha, tão pitico. Eles são grandes companheiros.

As máquinas estão evoluindo e aprendendo, já a humanidade eu não posso confirmar. A gente ainda monta Lego. Digo a gente porque suas sobrinhas gêmeas também gostam! É mais fácil encaixar essas peças do que colocar cada pensamento e cada sentimento em seu devido lugar. Não bata muito a cabeça com isso. Agora chega de eu fazer o que a juventude atual chama de spoiler. Um último palpite: escreva muito, porque as novas gerações não são dadas a “textões”.

Encontre boas maneiras para falar o que pensa e o que sente. Você tem uma mágica que talvez perca pelo caminho. Ou esconda. A gente duvida do ar, mas acredita no vento. Confie na dica do Rugol e banho gelado da sua avó. Engate a marcha e venha tranquilo, porque a areia da ampulheta é macia ao tocar os pés. “A matéria-prima do ar, das rochas e da vida foi e continua sendo forjada pelas pressões gigantescas que existem no coração das maiores estrelas.” Somos todos poeira de estrelas. E eu, aqui do futuro, só existo porque você é uma supernova.
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1 de jul. de 2020

Sobre sermos todos seres humanos

Quando eu era mais novo as pessoas eram mais homogêneas. Não porque o mundo era mais legal ou as coisas eram melhores, mas porque somos pasteurizados. Nossas individualidades são podadas desde cedo, o diferente é excluído. Por isso, a gente cresce aprendendo a ser a beirada. Aprendendo a mimetizar o que é socialmente aceito para driblar os preconceitos. Meninos não podem pentear a boneca. Poxa, isso talvez não gerasse meninos que penteassem suas namoradas com carinho, que aprendessem a demonstrar o amor aos amigos afagando, não batendo? Que entendessem melhor o corpo da mulher? Que respeitassem? As meninas não podem brincar com ferramentas, quando poderiam se divertir mais e abrir caminhos, inclusive profissionais. Não podemos todos jogar futebol juntos?

Somos segregados desde a mais tenra idade, quando ainda estamos abertos para o mundo. Meninos e meninas. Rosa e azul. Do mais alto pro mais baixo. Dos que foram melhor em matemática pros que foram pior. Futebol para eles e vôlei para elas. Saias e shorts. Tênis e sapatilhas. Esse só pode casar com aquela. E assim seguimos, sufocados e silenciados.

Depois disso sofremos demais para entender o que acontece dentro da gente. Para aprendermos a nos aceitar, a nos amar. Daí vem o hábito de soltar as mãos quando vemos um conhecido se aproximando ou quando estamos em mar aberto, não em algum porto seguro. É um reflexo de sobrevivência, pois o nosso redor é tormenta. A gente amealha amigos pelo caminho para compor uma família que nos ampara, aceita, abraça e fortalece. Que nos ama, no meio da trilha de rejeição.

O mais correto talvez não seja seja dizer que a gente cresce, mas sim que a maior parte de nós sobrevive. Sobrevive a um ódio à toa. Ninguém deveria ser obrigado a viver marginal ao amor, a sobreviver a uma raiva descabida. A gente engole o choro e se cobre com uma armadura de arco-íris. A gente apanha e cai. E ouve que certamente apanhou por algum motivo, por ter feito algo. Sim, por ser quem e como sou e não entender porque isso gera tanta recusa em algumas pessoas. Mas, por toda essa vida, a gente aprende a levantar com a cabeça mais erguida e a voz mais alta.

Eu era beirada até acordar da dolorida realidade das calçadas, mesmo em minha bolha de privilégios e padrões. Era festa ao meu redor e me foi imposta uma concussão. E foi o que precisei para elevar minha voz. E para o amor transbordar por essas feridas. Para que eu use o que tenho ao meu alcance para fomentar a mudança e para fortalecer essa causa e as causas com as quais dialogo.

Encerramos ontem o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e começamos hoje um novo mês em que não seremos mais beirada, ao longo do qual vamos nos orgulhar ainda mais. Nós somos todos os meses, todos os dias, todas as horas. Do nascer ao pôr do sol. Somos o mundo, somos uma explosão de cores, somos amor. E que abram caminho, porque também somos os cabelos das bonecas e as partidas de futebol, únicos em nossas semelhanças, imensos em nossas singularidades.

Eu sou grato a todos que cruzaram minha vida e me trouxeram até aqui, que são minha família e me possibilitaram ser quem sou. Meu irmão, minha mãe, o Carlão, a Bete, o Dr. Lauro, Gabriel, André Lucas, Vinny, Victor, Johnny, Pomba, Fe Fontes, Mayara, Lemp, Caio, Aline, meu pai, Karen, Raquel, Malu, Rod, Rafa Cescon, Pedro. Obrigado! Eu tenho muito orgulho. De mim, da gente. 

Como disse a atriz Dominique Jackson, “somos todos seres humanos. Trata-se de inclusão e nunca pedirei respeito a nenhum de vocês. Eu demando. Você não vai me dizer que me aceita. Você não vai dizer que me tolera. Você não tem esse poder. Você vai me respeitar por quem eu sou”.

É sobre o amor. E sobre não calar. 🌈

23 de jul. de 2019

Há 50 anos o homem chegava à Lua

Gabriel Garcia Marques foi tema de nossa conversa esses dias. Bem como todos os temas que podem caber em 73 perguntas. E são todos. Todos do mundo que podemos desenhar com as cores que escolhamos ao olhar pela janela de uma nave espacial. E é de Garcia Marques um livro com o título “Viver para contar”. Talvez seja isso que queiramos, a longevidade para as fábulas. Ou talvez apenas queiramos contar para viver.

Contamos muito um ao outro, mas não existimos para sermos contados. Nem em texto, nem em imagem, nem em hyperlink ou hashtag. Não somos. Talvez por isso nos dissolvamos tão facilmente na líquida modernidade. E o que contamos, então, é a verdade? Ou publicamos a ficção e nos escondemos num romance biográfico? Arrependo-me por ter vivido o início e o fim, o miolo vai me perseguir para sempre. Mas eu não venho aqui para dizer um discurso (outro título dele). Talvez venha apenas para dizer que a janela é pequena demais para o tamanho do grito que gostaria de dar.

29 de out. de 2018

Super far

Não consigo definir a sensação de entrar em minha casa e parecer a primeira vez. Ter que reocupar os espaços e redecorar a memória. Mesmo após mais de uma década por aqui, são sensações tão novas, desconhecidas, intensas e desenfreadas que quebram a porteira, derramam. É estranho acompanhar as coisas sumindo aos poucos, assim como no filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Assim como sua risada rouca foi esmaecendo nos últimos tempos. Uma dolorida amnésia consciente.

A oposição entre as partes vazias dos armários, onde antes estavam suas coisas, com alguns objetos que ainda coabitam aquelas paredes é similar ao que se passa dentro de mim. Tento disfarçar, tento recuperar uma rotina antiga, mas não tem adiantado muito.

Sei que ainda vou, por um tempo, me pegar pensando se você está coberto ao dormir. Se vou encontrar um fio dental no ralo do box do banheiro. Se vai gostar da janta, quais seriam os planos para um fim de semana a dois. Não vou mais ter que esperar o cochilo para mudar o canal da TV, saber se você está em casa ou não pelas duas voltas da chave da porta. São coisas tão bobas, mas que se avolumam num tanto! As manhãs, agora, são silêncio sem os imaginários programas de TV na cozinha.

As luzinhas, por todos os cantos da casa, vão passar um tempo apagadas, até que tudo isso irá, aos poucos, arar a terra para que brotem novos planos. As músicas, que usualmente parecem sempre tão bobas, ainda mais para quem vive no dial das notícias, passam a fazer todo o sentido. Parecem plantadas em momentos específicos para nos fazer titubear.

Nos conhecemos à beira do furacão e encaramos o olho como uma calmaria perene. Até que a outra margem do vendaval passou, levando tudo. Eu teimei em não te encaixotar ao primeiro alerta e desdobrei meu coração, que havia guardado no bolso. Foi bom, pois com você eu aprendi que o amor pode ter uma deliciosa rotina. O cachorrinho e eu ainda ficamos olhando para a porta, pensando se algo poderia ter sido diferente. Escolhas e caminhos.

As fases da vida têm seus ritos de passagem. Talvez seja realmente o percurso a fazer a história, não a linha de chegada. Mas a dificuldade em mudar o caminho, em entender o caminhar, é de todo ser humano. A inércia talvez seja, além da física, inerente à nossa inexplicável existência emocional. Ainda que tenhamos caminhado lado a lado, nunca estivemos pisando a mesma terra.

Estou falando demais, né? Armando Antenore escreveu que "há despedidas que não encontram tradução. O que falar diante de um amigo que se muda para bem longe, um amor que morre, um projeto querido que se interrompe? Às vezes, o melhor - o mais preciso e eloquente - é dar adeus em silêncio." Mas eu nunca soube lidar direito com o silêncio.

Shiu! Consegue ouvir? O som de um coração espatifando? “Como cristal em um mundo de vidro”. Como uma sinfonia de infinitos silêncios, até que as cortinas se abaixem, as palmas cessem, a plateia seja trocada. Agora temos nossas vidas espatifadas em diversas telas. Logo mais teremos um quebra-cabeça, uma obra de arte em exibição no Memory Motel, um novo espetáculo.

Das berries eu farei um bolo. Afinal, da dupla, sempre fui o carboidrato.









“The idea that we are so capable of love, but still choose to be toxic.”
Rupi Kaur

11 de mar. de 2018

Call me by your name...

“We had the stars, you and I. And this is given once only.”

"... if there is pain, nurse it, and if there is a flame, don't snuff it out, don't be brutal with it. Withdrawal can be a terrible thing when it keeps us awake at night, and watching others forget us sooner than we'd want to be forgotten is no better. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything — what a waste!”

... and I'll call you by mine.

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20 de mar. de 2015

Sem miolo

Eu quero te encaixotar e esquecer tudo que tivemos, mas a memória nem sempre é obediente e simples como as líquidas conexões digitais. Não temos como nos esquivar de pequenos lembretes espalhados pela vida, como nos desconectar de estopins que nos remetem a momentos e pessoas, momentos com pessoas, pessoas em nossos momentos.

Lavo o rosto com água gelada para esfriar a cabeça e sua escova está ali, na caneca, ao lado da minha. Vou me trocar e a pequeníssima peça de roupa misturada entre as minhas ainda me faz rir. A camiseta de pinheirinhos junta-se aos escritos na janela pelo meu caminho. O prato de formigas não combina mais com meu brigadeiro de capim-limão.

Lembro quando você entrou em minha casa pela primeira vez, analisou tudo com as mãos para trás, como quem desbrava algo novo. Para mim, você parecia pertencer àquele lugar desde sempre. O seu sofá - e a brisa que nos acompanha - me desmanchou em poucos minutos.

Lembro quando vejo as flores de canudo, a cadeira branca de almofada florida ocupada por quem quer que seja, já sem graça alguma. Com os Aperof Spritzers e com tudo mais que fizemos nosso e trouxemos para o nosso mundo.

Para pegar a estrada, onde sempre consigo deixar tudo para trás, desenterro um CD e, surpresa, impossível brincar de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". A segunda música é Sugar Pie Honey Bunch, a terceira diz: "Se me acaba el argumento y la metodología cada vez que se aparece frente a mí tu anatomia".

O amor é realmente uma coisa brega. Mais que meu cabelo outrora vermelho ou minhas roupas mais coloridas e estampadas. Mas é tão mais fácil abrir mão dessas outras coisas todas! Você puxou pra preto e suas poucas variações o tom das minhas roupas e coloriu minha vida.

Por mais que tenhamos voado milhares de quilômetros, caminhado por terras ultramarinas, usado o banheiro para os fins tradicionais nos lugares mais inusitados, trocado presentes, forjado um vocabulário próprio, nos beijado à meia-noite de 31 de dezembro sob pontualidade britânica e um sem fim de coisas nesses poucos meses, depois que eu soube seu verdadeiro estado e ele prevaleceu, você será para sempre um amor que não aconteceu, como o anexo desta mensagem.

Ontem passei mal. Saí do trabalho cambaleando e fui para casa no começo da tarde. Minha vontade era usar isso como desculpa, já que agora você trabalha perto de casa, e pedir socorro. Não por estar mal, mas para te ver. Adormeci, acordei no meio da madrugada um pouco feliz, ainda que zonzo e dolorido. Estava melhor e havia conseguido me segurar. Não te ver e manter meu argumento. Amar também é entender momentos e saber a hora de afastar. De perder. De reescrever todas essas palavras e imaginar quanto tempo o ritual vai levar desta vez.

"A arte de perder não é nenhum mistério; (...)
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério
"

Forget about Montauk. Meet me in Berries.

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3 de fev. de 2015

#137

A leitura dos clássicos da infância nunca me havia feito acreditar que um dia eu viveria uma história de amor envolvendo uma festa e sapatos deixados para trás.

Minha nuca encantou-se com você antes mesmo que pudesse vê-lo por inteiro, a não ser quando roubava pelos reflexos da tela do computador ou pelos cantos dos olhos. Depois meus ouvidos, certamente suscetíveis ao enredo contado pela nuca, renderam-se à sua voz rouca, modulada conforme seu interesse.

Um dia eu olhei. No outro, você levou a misturinha do café da manhã. As rodinhas de minha cadeira passaram a querer percorrer o chão branco o tempo todo para ficar mais perto, sentir seu cheiro. Encostei em você. E de novo. E você já era parte. Juntos. Dois.

De um sofá sob a brisa de uma janela em Moema até repetidas vezes no cartório. Do meu Memory Motel no Largo da Batata, onde provei que existe uma receita científica para se gostar de alguém (embora apaixonado desde a primeira linha da experiência), até as caminhadas nos dias frios 9.497 quilômetros distantes de onde estamos hoje.

Seguindo nas tags e métricas, cozinhamos risoto no Natal, com 100 quilômetros nos separando. Jantamos os fogos de 31 de dezembro dividindo os mesmos centímetros, SPHB. Não precisamos de monumentos ou grandes obras, éramos nós a principal referência em todos os guias e mapas. Ignoramos algumas das pinturas mais icônicas da humanidade porque tudo que importava era seu nome entalhado na parede. Você era tudo que me importava. Usei seus sapatos e seus casacos, usamos Estomazil, dividimos a cama, a banheira, os rodopios no parque e dias inenarráveis.

Cantei para você. Ouvi você cantando repetidas vezes. Minha vontade, ou a de meu coração, ainda com as marcas de dobra, é ouvir muitas mais.

Desisti de procurar explicações para algumas coisas. “People fall in love in mysterious ways. Maybe just the touch of a hand”. Você apareceu para, como um plano de metas de JK, me fazer viver cinco anos em cinco meses. Para me mostrar, como numa minissérie, que ainda é possível viver romances como os dos longa-metragens dos cinemas. Com tramas, mentiras, sentimentos intensos. Loucura. Escolhas. Com amor.

Mas agora é tarde em meu coração. Vou dobrá-lo para caber no bolso, sempre ao alcance da mão, mudar o canal e acordar para um novo momento. Ao lado da televisão, você será um dos pôsteres emoldurados e pendurados na parede:

- But what about us?
- We’ll always have berries.

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6 de dez. de 2014

Manu e Maria Tereza

Acredito que, de formas diretas ou indiretas, todos passamos grande parte do tempo tentando entender a vida, nossa existência, qual o propósito desse magical mistery tour.

Talvez por isso apreciemos tanto os artistas, a música, a poesia. Por conseguirem dar forma a alguns sentimentos, sugerir alguns caminhos. Talvez por isso alguns procurem uma religião ou misticismo. Por darem um alento e algumas pistas. Talvez por isso eu vague algumas noites pelas ruas ou me encolha no silêncio da minha casa. Todas essas coisas trazem em palavras, quadros, canções, fé, poesias, bebidas e afins um pouco da síntese desse mistério.

Eu já não tinha mais a clareza da busca até que recebi a notícia, primeiro via SMS - tempos modernos! - e depois via telefone. Em alguns meses eu seria tio! E de uma dupla! Que tarde cheia de encanto, sonhos e planos. Pouco tempo depois, na noite em que Duda e Aline fizeram o chá de bebê, passei a fazer parte do time que tem um vislumbre de uma possível resposta. Foi com as mãos na barriga da Aline, sentindo um chute de Maria Tereza, um soco da Manoela e toda a vida ali dentro, prestes a se espalhar pelas nossas.

Após elas rebentarem, na maternidade, aqueles dois pacotinhos já se mostravam uma indústria e deixavam pouco tempo para reflexões! Centenas de fraldas e de litros de leite divididos em banhos, horas e mililitros. Madrugada adentro e pouco sono para meu irmão que, o oposto de mim, que busco confundir as coisas pelas noites e pelas ruas, sempre gostou de dormir cedo e muito. Mas elas já eram, além da trabalheira toda, uma espécie de materialização do imensurável amor que sinto pelo Duda.

Já tivemos o primeiro passeio, o primeiro sorriso, a primeira papinha, a primeira febre, o primeiro resmungo, o primeiro dente apontando… A primeira festa, com todos aqui reunidos para partilhar dessa alegria e de todo esse mundo que elas têm a desbravar! E reunidos também para testemunhar a promessa que tenho a protocolar. Oficialmente estou aqui, como tio e padrinho, para firmar que, caso algo aconteça, me responsabilizo pelo futuro das meninas. Mas, se Deus quiser, meu papel vai ser um só e vai passar muito longe disso.

E é por isso que minha promessa, hoje, é um desdobramento dessa. Prometo, com todos vocês aqui, que vou ser o tio mais babão do universo e fazer tudo que essas mimadas possam querer. E por um motivo muito simples: porque o tempo que passo com elas é um tempo de certezas. Quando estou com Manu e Maria Tereza, cada vez que elas passam a mão em meu rosto, sorriem, fazem birra ou dormem, em cada um desses momentos elas são toda a música, toda a poesia, toda a fé, todas as respostas, todo o sentido da minha vida.

4 de dez. de 2014

Anglo-saxônico

You make me feel drunk when I'm highly sober. Maybe that's why I like you. And it's not about being lonely, it's about feeling complete.

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2 de dez. de 2014

Bad blood, mad love

"A good partnership is not so much one between two healthy people (there aren’t many of these on the planet), it’s one between two demented people who have had the skill or luck to find a non-threatening conscious accommodation between their relative insanities"

In "On Marrying the Wrong Person"

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18 de nov. de 2014

Ontem

Tive um flash do passado, assassinei um apelido, fui embora descalço e empilhei a noite como os arquivos do Instagram. Mais um quadrado sendo sobreposto lentamente por outros momentos. A câmera está a postos.

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8 de out. de 2014

It takes two to tango

Olhares de entrada, a gente para o jantar e minhas mãos sobre a mesa. Um brinde, sem contas a pagar.

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      Poorly Drawn Lines

10 de ago. de 2014

Hermitage

Eu escrevo sobre tudo, mas ainda não tinha escrito sobre você. Talvez por você ter toda a erudição que sonhei ter, pelos textos e poesias que deixava com nosso café pelas manhãs. Talvez por ainda ter questões pendentes desde que você encerrou as atividades do meu Banco Sacul S/A e o despejou do guarda-roupa de sua casa, aos meus oito anos, quando, com todas as resoluções de um menino dessa idade, decidi que não queria mais te ver e dei um mosh na vida. Mãe, Du, Cecília (minha professora da 4ª série), Tuto, Tio Domenico, Carlão e outros tantos braços que me carregaram no alto até eu descer nos 18 anos, quando você me procurou.

Era bem diferente de tudo que eu lembrava e imaginava. Adolescente clichê, chutei portas e tentei botar pra fora toda a raiva acumulada. Você se desculpou, explicou, aguentou, insistiu. Até que, no ano mais difícil da minha vida, me carregou no colo sem fazer muitas perguntas, deixando claro que me entendia, aceitava e permitindo que eu fizesse da sua casa em SP um bunker onde me escondi inúmeras vezes.

Nesse tempo, você fazia janta e deixava bilhetes pela manhã, ao sair pro trabalho. Ah, os bilhetes pela manhã! Escrevia longos e-mails pra mim, ouvia minhas baboseiras, criou coragem pra me dar a primeira bronca. Do fundo do meu poço, entendi minha solidão – o eremita que herdei de você – e, em vez de dividi-la, deixei que me ajudasse a sair dela e fizesse companhia. Você segurou uma barra imensa e voltei a te chamar de pai em meus pensamentos.

Abaixei a guarda e ganhamos o mundo. Rimos alto quando você foi trapaceado por uma pimenta disfarçada na Cidade do México. Bebemos vodka nas noites de sol infinito do verão russo. Vi uma alegria infantil nos seus olhos azuis, sempre camuflados pelos óculos, e seus pés balançando quando pode pilotar uma lancha pela primeira vez na vida, ladeado por ilhas cheias de vinhedos.

Fomos ao show do Eric Clapton, seu primeiro show em estádio. Ao Paul McCartney. Vimos juntos Bruce Springsteen cantar Thunder Road nos meus 30 anos. Gosto de ver você batendo tímidas palmas e levantando os pés, no que não caracteriza um pulo, quando está curtindo um show. E não seguro um sorriso emocionado quando você transcende e pula na pista ao som de Jump, do Van Halen.

Conversamos muito sobre a vó e família. Du e eu vivemos tantas coisas com ela, como netos, e é bonito poder unir com suas lembranças de filho. Eu gosto da sua história, até das partes em que troca os pés pelas mãos.

Foi por sua história torta que acabei destituído do meu posto de caçula para ganhar uma irmã mais nova, entender isso tudo e me emocionar ao vê-la de noiva e casando.

Jantamos juntos, ficamos trilili tomando vinho, que você tanto gosta e eu faço graça ao avaliar aromas, falamos sobre a vida e rimos. Gosto quando faço você rir com minhas besteiras.

Hoje estamos todos indo para a casa do Duda, eu como tio e padrinho, você como avô babão de gêmeas, para comemorar o primeiro dia dos pais dele. Vamos cozinhar!

Você está em duas das minhas tatuagens. Está no meu coração. Eu não escrevi sobre você até hoje porque esperei a hora e a coragem de dizer pra todo mundo o quanto eu te amo.

Feliz dia dos pais.  =)


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Um pouco do pai, para o pai

(...) Viajamos nós quatro, ou com avós e tios, rimos juntos e vivemos uma festa. Que grande infância pudemos ter graças a isso. Mesmo quando as noites na chácara tornavam-se um breu de escuras, com as constantes quedas de energia que havia, ele nos levava para o quarto dele com a mãe, acendia um abajur, e lia capítulos de livros que jamais esquecemos: Tarzan, a Ilha do Tesouro e Origens (com um fóssil na capa!) foram acompanhados como novela, um capítulo atrás do outro, noite após a outra... Não à toa a leitura estar entranhada nos seus filhos!

(...) O Rui pai voltou com sua timidez, seu sorriso por detrás de um par de óculos. Seus olhos azuis traziam a companhia de cabelos grisalhos. Mas era o Rui pai, disposto a voltar a sê-lo. Nenhuma história de separação é completa se não flertar com a história da volta, da reconciliação, do perdão. Mútuo e definitivo. Perdoar não significa esquecer, mas lembrar para que não mais ocorra e, com isso, renovar as chances de erro mutuamente. Dar a chance para incontáveis acertos e poucos e novos erros. Perdoamo-nos, construímo-nos de novo. E isso foi muito legal.

(...) Mas, acima de tudo, sonhamos e desejamos ver se iluminar o quarto do menino que você tem dentro de si e que ele possa mirar seus próprios olhos azuis no espelho de seu coração e sorrir, sem medo de mais nada: você é um grande pai, o melhor que poderíamos ter.

11 de jul. de 2014

Memory Motel

Em oito dias não vence nem um queijo branco, mas vence um amor.

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        Post it noturno, Luiza Pannunzio

11 de mai. de 2014

Tenho medo de ser um só

Paixão é furtar uma blusa de alguém e vesti-la pra se sentir abraçado, o toque, o cheiro.

Amor é lavar uma camiseta esquecida em seu quarto junto com as suas, porque você emprestou outra limpa para o trabalho, e sorrir ao vê-la dobrada na gaveta de seu guarda-roupa, torcendo pra ela querer voltar sempre ou nunca mais sair.

Namorar é tentar nunca parar de roubar a blusa e rir ao olhar pra camiseta. E ter vontade de usar tudo ao mesmo tempo, até no verão.

Mas, na maioria das vezes, a gente só percebe isso quando vê a blusa em algum canto de algum brechó, por um preço simbólico, e acha a camiseta, desbotada e esgarçada, no fundo da pilha de pijamas e pondera se é tempo dela deixar o armário.

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5 de abr. de 2014

This is our last dance

Aquela foi uma das poucas noite - talvez a única - que nunca consegui decifrar por completo. Suas causas, seus motivos, o saldo. O que sei é que algo mudou. Como nos filmes e nas séries, como na mais fácil das receitas da ficção, aquela foi uma noite fora do comum, com elementos fantásticos, que fez o amanhecer diferente de todos os anteriores e dos subsequentes. Muito havia mudado. Eu, embora as coisas talvez seguissem as mesmas. Dormi no prenúncio, acordei na mensagem, um carro caiu da ponte, cheguei de ônibus à praça ao lado de casa. Peguei meu carro, coloquei as músicas certas e tentei dissipar tudo na estrada. Eu me vi por inteiro, eu vi através de mim, e o ricochete me derrubou.  Não sei quanto fiquei sem dormir, até que peguei no sono em algum tempo. Acordei arrependido por ter sido a causa e a consequência. Acordei.

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"I told him everything and I let my love there, by the river. All that I felt, he kept it. When I got home, I decided I would sleep on the couch. A last sacrifice. I would suffer for him. And I did. And it was awesome. I woke up at 5am and then I went to my bed (…)"

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E eu ainda não sei.

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29 de jan. de 2014

Cantigas de amigo

- As cantigas de amigo sempre foram as mais legais. Gosto de uma na qual a moça lava as garcetas. Tempos de pura ousadia.
- Gosto que você lembra de alguma coisa. Eu jamais conseguiria.
- Eu sei a Cantiga da Ribeirinha de cor, achava que poderia, um dia, flertar em galego-português. Nunca me serviu de nada, além de ocupar espaço em um cérebro com uma organização e prioridades duvidosas.
- As que eu sabia de cor são todas da escola mais óbvia, Romantismo.
- Eu adorava, o Lulu Santos também.
- Mal do Século era meu assunto favorito. Não conversava muito.
- Talvez vocês sejam os últimos românticos. Spleen.
- Bom, pelo menos um de nós ganhou uma puta grana com isso.
- Nãnãnãnã, aperta minha mão. Agora eu sou Dadaísta, o trabalho me fez empacar nessa escola.
- Antes Dadaísmo que Parnasianismo, detesto Parnasianismo. Gostava de Modernismo, também. O 'r-r-r' no meio das estrofes dava uma sonoridade bacana.
- Rapaz! É o triunfo das rimas ricas, arte pela arte!
- Adoro rimas ricas, mas não aguentava aqueles poemas longos, que não diziam nada.
- É, não diziam nada, fato. Prefiro o Simbolismo de rimas paupérrimas. E amanhã podemos falar sobre Haroldo de Campos.
- Adoro a palavra 'paupérrima', devia usar mais no cotidiano.
- Eu gosto demais. Vem a Elis cantando em minha cabeça, tipo o sax da barba: "É pau, é pérrima, é o fim do caminho, tchararara".
- Nossos tópicos são meio que experiências cognitivas.
- Um tratado para gerações futuras, que estarão evaporando a liquidez destes tempos, sem entender nada.
- Já temos mais para a introdução do nosso livro.
- Pirata barba macia, vou me recolher aos meus aposentos.
- Não soa como um nome de pirata de grande credibilidade, mas funciona. Também vou dormir para ver se amanhã faço algo que preste, tipo uma Cantiga de Amigo.
- Acho bem contemporâneo e consistente. E patrocinável. Eu vou lavar minhas garcetas pela manhã e perguntar algo tenso para as flores de meu verde pinho. Boa noite, até amanhã, beijo simbolista.

- O meu beijo de boa noite vai seguir o clichê e ser romântico. Beijo e boa noite.
- Um beijo subjetivo e idealizado ou grotesco e sublime? A resposta você confere na próxima aula.
- Aguardaremos. Eu, o subjetivo, o idealizado, o grotesco e o sublime.

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"We'd like to know a little bit about you for our files, we'd like to help you learn to help yourself"

21 de jan. de 2014

There is a truth and it's on our side

- Sabe do que mais sinto falta do nosso namoro?
- O que?
- A borda de massa tostadinha da pizza do lado da sua casa.
- E eram só R$ 7,90, calabresa ou mussarela.
- Casávamos um pedaço de cada, sem sequer sabermos ficar juntos.
- Foram anos incríveis.

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7 de jan. de 2014

Ground Control to Major Tom

Passando 2013 em revista e relendo alguns comentários aqui do blog achei um da Bean, que, dez mil anos atrás, dizia: “Li uma vez que a maioria das nossas memórias de infância vêm de fotos e vídeos caseiros. Provavelmente a gente se lembre dos pais com uma roupa X, com um cabelo Y, com um sorriso congelado. Porque são ‘retalhos’ de várias fotos armazenadas na cabeça. Será?”.

Estou embalando coisas rumo ao congelador. Essa não precisa ser uma sensação ruim, finalmente passo a entender. É a composição da memória de uma forma que restem apenas os fragmentos que nos rasgam um sorriso ao serem resgatados. Os pés de uma tarde na praia, os cabelos de uma manhã de vento, o sorriso bobo da graça cotidiana que um dia houve, a blusa da festa, a camiseta do trabalho, uma careta, a calça já fora de moda, danças desengonçadas, pequenos lugares secretos de viagens... Toda essa marmita é de imagens estáticas, mas tem uma trilha sonora. Animada, como estes dias.

Eu não escovo os dentes toda noite, por mais cansado ou em qualquer estado físico ou mental que esteja, só por asseio ou costume. É porque, bem como sempre lavo os cabelos e nunca deixo de secar os vãos dos dedos dos pés, quero deixar para trás tudo que tenha acontecido e começar um tempo novo pelas manhãs. As lembranças boas não irão com a água, comporão meu corpo, e as ruins escorrem pelo ralo. Assim me renovo, com pequenos rituais particulares.

Minhas lembranças, hoje, voltam a ter o som de páginas virando. E a caixa do último brinquedo que ganhei diz “a partir de 30 anos”, embora continue sendo um quebra-cabeça.

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“... mas se arriscar ainda é a única forma de não se tornar uma pessoa amarga. É preciso insistir no amor, apesar de tanta desordem por aí. (...) ‘Só me arrependo do que não faço’ é conversa fiada de gente bêbada. Você vai se arrepender de muita coisa que fez. Nem tudo que é quebrado pode ser consertado”

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