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22 de out. de 2024

Freud, explica?

De todas as pessoas ao meu redor, das que foram e das que ainda nem conheci, foi você quem acampou essa noite nos meus sonhos.



25 de out. de 2023

Chicken or pasta?

Esses dias, para tentar aplacar um pouco a ansiedade fugindo da rotina (e me aproximando cada vez mais do Serasa), fui de última hora encontrar um amigo em Salvador. Um pulinho, de quinta à domingo. Os dias estavam nublados, mas iluminados por tranquilidade e sorrisos. Fomos jantar. Surpresa, eram frutos do mar. 

Eu comi bem, Rod comeu o dobro, pois eu não gosto de frutos do mar. Então ele desatou a refletir que, mesmo depois de uns dez anos de amizade, ainda não sabia que eu não gosto de frutos do mar. Quem me apresentou o Rod foi a Malu, um dia em que a convidei pra jantar em casa e ela perguntou se poderia levar um amigo. Trabalhávamos todos na Editora Abril, eu fiz pão de linguiça; éramos jovens, a digestão era boa, o fluxo ainda não trazia o “re” e as veias eram mais abertas que as da América Latina (uma piada “sin grasa”). Aquela noite foi um encontro de três almas perdidas nadando em uma cumbuca. Ele e eu engatamos uma amizade que já viu mais coisas do que nossa kombi filosófica possa imaginar. 

Por falar em filosofia, ele é a parte mais racional da dupla, mas o espírito obsessor paira em ambos e o tanto de aventuras e loucuras que somamos já foge da possibilidade de auditoria para confirmar os números atuais. E as conversas reflexivas atritando o asfalto nas idas e vindas entre Sorocaba, nossa terra natal, e São Paulo, onde moro, sempre me sacodem e engrandecem. 

Ele andou quilômetros à toa - e à pé - comigo enquanto um ex-namorado tirava as coisas de casa após o término. Ele me acolheu na casa dele, na vida dele, estando eu sóbrio ou não. Ele cuida do Costelinha com todo o carinho, ele visita minha mãe e anima os fins de tarde e noites de domingo, nos enchendo de fôlego e fazendo tudo parecer mais leve e divertido.

É um dos amigos mais nômades, um cigano vagando pelo mundo em busca de um acordo entre a luxúria e o afeto. Onde quer que ele esteja, entre as outras inúmeras coisas que me lembram da nossa amizade, toda vez que driblo um tentáculo ou preciso tomar um imenso gole de água para engolir uma ostra eu dou um largo sorriso.

O Rod não sabia que eu não gosto de frutos do mar, mas conhece cada cantinho do emaranhado de sinapses do meu cérebro e cada loucurinha do repique das sístoles e diástoles do meu coração. Ele sabe me abraçar e me fazer feliz. E, afinal, o que seriam das próximas horas e novas histórias de uma boa amizade sem uma pitada do desconhecido e do mistério, não é mesmo?



1 de jul. de 2020

Sobre sermos todos seres humanos

Quando eu era mais novo as pessoas eram mais homogêneas. Não porque o mundo era mais legal ou as coisas eram melhores, mas porque somos pasteurizados. Nossas individualidades são podadas desde cedo, o diferente é excluído. Por isso, a gente cresce aprendendo a ser a beirada. Aprendendo a mimetizar o que é socialmente aceito para driblar os preconceitos. Meninos não podem pentear a boneca. Poxa, isso talvez não gerasse meninos que penteassem suas namoradas com carinho, que aprendessem a demonstrar o amor aos amigos afagando, não batendo? Que entendessem melhor o corpo da mulher? Que respeitassem? As meninas não podem brincar com ferramentas, quando poderiam se divertir mais e abrir caminhos, inclusive profissionais. Não podemos todos jogar futebol juntos?

Somos segregados desde a mais tenra idade, quando ainda estamos abertos para o mundo. Meninos e meninas. Rosa e azul. Do mais alto pro mais baixo. Dos que foram melhor em matemática pros que foram pior. Futebol para eles e vôlei para elas. Saias e shorts. Tênis e sapatilhas. Esse só pode casar com aquela. E assim seguimos, sufocados e silenciados.

Depois disso sofremos demais para entender o que acontece dentro da gente. Para aprendermos a nos aceitar, a nos amar. Daí vem o hábito de soltar as mãos quando vemos um conhecido se aproximando ou quando estamos em mar aberto, não em algum porto seguro. É um reflexo de sobrevivência, pois o nosso redor é tormenta. A gente amealha amigos pelo caminho para compor uma família que nos ampara, aceita, abraça e fortalece. Que nos ama, no meio da trilha de rejeição.

O mais correto talvez não seja seja dizer que a gente cresce, mas sim que a maior parte de nós sobrevive. Sobrevive a um ódio à toa. Ninguém deveria ser obrigado a viver marginal ao amor, a sobreviver a uma raiva descabida. A gente engole o choro e se cobre com uma armadura de arco-íris. A gente apanha e cai. E ouve que certamente apanhou por algum motivo, por ter feito algo. Sim, por ser quem e como sou e não entender porque isso gera tanta recusa em algumas pessoas. Mas, por toda essa vida, a gente aprende a levantar com a cabeça mais erguida e a voz mais alta.

Eu era beirada até acordar da dolorida realidade das calçadas, mesmo em minha bolha de privilégios e padrões. Era festa ao meu redor e me foi imposta uma concussão. E foi o que precisei para elevar minha voz. E para o amor transbordar por essas feridas. Para que eu use o que tenho ao meu alcance para fomentar a mudança e para fortalecer essa causa e as causas com as quais dialogo.

Encerramos ontem o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e começamos hoje um novo mês em que não seremos mais beirada, ao longo do qual vamos nos orgulhar ainda mais. Nós somos todos os meses, todos os dias, todas as horas. Do nascer ao pôr do sol. Somos o mundo, somos uma explosão de cores, somos amor. E que abram caminho, porque também somos os cabelos das bonecas e as partidas de futebol, únicos em nossas semelhanças, imensos em nossas singularidades.

Eu sou grato a todos que cruzaram minha vida e me trouxeram até aqui, que são minha família e me possibilitaram ser quem sou. Meu irmão, minha mãe, o Carlão, a Bete, o Dr. Lauro, Gabriel, André Lucas, Vinny, Victor, Johnny, Pomba, Fe Fontes, Mayara, Lemp, Caio, Aline, meu pai, Karen, Raquel, Malu, Rod, Rafa Cescon, Pedro. Obrigado! Eu tenho muito orgulho. De mim, da gente. 

Como disse a atriz Dominique Jackson, “somos todos seres humanos. Trata-se de inclusão e nunca pedirei respeito a nenhum de vocês. Eu demando. Você não vai me dizer que me aceita. Você não vai dizer que me tolera. Você não tem esse poder. Você vai me respeitar por quem eu sou”.

É sobre o amor. E sobre não calar. 🌈

10 de abr. de 2020

Hoje eu quero ser...

...uma ampulheta, para fazer o passar parecer lúdico e só revelar o fim ao deslizar do último grão de areia pela goela de vidro, quando já não há mais tempo.

...uma agulha, para juntar partes, ajudar a tirar farpas, cutucar e causar dor.

...uma Coca-Coca de máquina, um pouco aguada, bem gelada, descendo por uma garganta áspera.

...um relógio, para poder parar de trabalhar sem muitas conseqüências, mas achar que, assim, tenho o poder de controlar as horas e dominar o mundo.

...uma roupa extravagante atravessando uma passarela, sustentada por um corpo esquálido iluminado por flashes.

...um apagão aéreo, para deixar pessoas ilhadas em outros países e testar os limites do ser humano.

...um bobo apaixonado, com tudo a que tenho direito.

...um balão meteorológico, para voar alto e longe e ouvir: "É OVNI!".

...uma bunda, daquelas bem redondas, que parecem ter sido desenhadas com compasso, para ser admirada depois da passagem por cabeças que torcem pescoços.

...o estepe de um carro, para ficar esquecido a maior parte do tempo e virar protagonista nas horas mais chatas.

...o movimento de rotação da Terra, para inverter minha lógica de funcionamento e fazer o dia virar noite.

...um milho de pipoca, que em pouco tempo muda de cor, forma e sabor, mas mantém a essência.

...uma garrafa de vinho vazia ao lado de um grupo sorridente de pessoas ruborizadas, que discutem coisas bobas como se fossem o que de mais importante há no mundo.

...um clássico do cinema europeu, no qual o tempo passa arrastado em preto e branco, com ótima trilha sonora, numa coleção menos acessada que a dos blockbusters e séries.

...uma roda-gigante, com luzes super coloridas, para girar o dia inteiro e nunca ficar zonzo. E vez ou outra flagrar um jovem casalzinho apaixonado.

...um pingüim, para ser uma ave que nada, protagonizar filmes e anda como se estivesse com as calças no tornozelo.

...um bicho preguiça, para passar o dia grudado numa árvore com cara de sono.

...um perfume doce para, em um esbarrão numa calçada, sair grudado em um corpo anônimo.

...uma batedeira, para misturar coisas rapidamente e sem medo.

...o tapete azul do meu banheiro, que não liga para fios de cabelo caídos e os pisões úmidos.

...uma pausa de mil compassos.

16 de out. de 2019

Serendipity

Passamos um ao lado do outro na calçada, focados em nossas telas de celular, entretidos nos aplicativos. Foi bem ali, quase onde a rua da improvável floricultura encontra com a do café. Por dentro, carregávamos inúmeros pontos em comum e interessantes diferenças complementares.

Poderíamos ter trocado olhares, um sorriso tímido de canto de boca, puxado alguma conversa e tomado um drink com bate-papo ali pertinho, no número 168. Mas não estávamos nas telas um do outro. Apenas na calçada. E não levantamos nossas cabeças. Talvez eu tenha sentido seu perfume na brisa leve daquele dia e achado interessante. E isso foi toda a nossa relação, esses foram os sentidos explorados, embora eu tenha me apaixonado por essa ficção.

 

29 de nov. de 2015

Chef's Table - Francis Mallmann

Cozinhar, amar, viver e incendiar:

"I don’t believe in flip and flopping food."

"When you cook with fire it’s much like making love. It could be huge, strong, or it could go very slow in ashes, a little cold. And that’s the beauty of fire. It goes 0 to 10 in strength, and in between 0 and 10 you have all these little peaks and different ways of cooking with it, and its very tender and fragile."

"Love is one of the most difficult things in life, certainly one of the most beautiful ones."

"You don’t grow on a secure path, all of us should conquer in life and it needs a lot of work and it needs a lot of risk."

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4 de dez. de 2014

Anglo-saxônico

You make me feel drunk when I'm highly sober. Maybe that's why I like you. And it's not about being lonely, it's about feeling complete.

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8 de out. de 2014

It takes two to tango

Olhares de entrada, a gente para o jantar e minhas mãos sobre a mesa. Um brinde, sem contas a pagar.

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      Poorly Drawn Lines

10 de ago. de 2014

Hermitage

Eu escrevo sobre tudo, mas ainda não tinha escrito sobre você. Talvez por você ter toda a erudição que sonhei ter, pelos textos e poesias que deixava com nosso café pelas manhãs. Talvez por ainda ter questões pendentes desde que você encerrou as atividades do meu Banco Sacul S/A e o despejou do guarda-roupa de sua casa, aos meus oito anos, quando, com todas as resoluções de um menino dessa idade, decidi que não queria mais te ver e dei um mosh na vida. Mãe, Du, Cecília (minha professora da 4ª série), Tuto, Tio Domenico, Carlão e outros tantos braços que me carregaram no alto até eu descer nos 18 anos, quando você me procurou.

Era bem diferente de tudo que eu lembrava e imaginava. Adolescente clichê, chutei portas e tentei botar pra fora toda a raiva acumulada. Você se desculpou, explicou, aguentou, insistiu. Até que, no ano mais difícil da minha vida, me carregou no colo sem fazer muitas perguntas, deixando claro que me entendia, aceitava e permitindo que eu fizesse da sua casa em SP um bunker onde me escondi inúmeras vezes.

Nesse tempo, você fazia janta e deixava bilhetes pela manhã, ao sair pro trabalho. Ah, os bilhetes pela manhã! Escrevia longos e-mails pra mim, ouvia minhas baboseiras, criou coragem pra me dar a primeira bronca. Do fundo do meu poço, entendi minha solidão – o eremita que herdei de você – e, em vez de dividi-la, deixei que me ajudasse a sair dela e fizesse companhia. Você segurou uma barra imensa e voltei a te chamar de pai em meus pensamentos.

Abaixei a guarda e ganhamos o mundo. Rimos alto quando você foi trapaceado por uma pimenta disfarçada na Cidade do México. Bebemos vodka nas noites de sol infinito do verão russo. Vi uma alegria infantil nos seus olhos azuis, sempre camuflados pelos óculos, e seus pés balançando quando pode pilotar uma lancha pela primeira vez na vida, ladeado por ilhas cheias de vinhedos.

Fomos ao show do Eric Clapton, seu primeiro show em estádio. Ao Paul McCartney. Vimos juntos Bruce Springsteen cantar Thunder Road nos meus 30 anos. Gosto de ver você batendo tímidas palmas e levantando os pés, no que não caracteriza um pulo, quando está curtindo um show. E não seguro um sorriso emocionado quando você transcende e pula na pista ao som de Jump, do Van Halen.

Conversamos muito sobre a vó e família. Du e eu vivemos tantas coisas com ela, como netos, e é bonito poder unir com suas lembranças de filho. Eu gosto da sua história, até das partes em que troca os pés pelas mãos.

Foi por sua história torta que acabei destituído do meu posto de caçula para ganhar uma irmã mais nova, entender isso tudo e me emocionar ao vê-la de noiva e casando.

Jantamos juntos, ficamos trilili tomando vinho, que você tanto gosta e eu faço graça ao avaliar aromas, falamos sobre a vida e rimos. Gosto quando faço você rir com minhas besteiras.

Hoje estamos todos indo para a casa do Duda, eu como tio e padrinho, você como avô babão de gêmeas, para comemorar o primeiro dia dos pais dele. Vamos cozinhar!

Você está em duas das minhas tatuagens. Está no meu coração. Eu não escrevi sobre você até hoje porque esperei a hora e a coragem de dizer pra todo mundo o quanto eu te amo.

Feliz dia dos pais.  =)


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Um pouco do pai, para o pai

(...) Viajamos nós quatro, ou com avós e tios, rimos juntos e vivemos uma festa. Que grande infância pudemos ter graças a isso. Mesmo quando as noites na chácara tornavam-se um breu de escuras, com as constantes quedas de energia que havia, ele nos levava para o quarto dele com a mãe, acendia um abajur, e lia capítulos de livros que jamais esquecemos: Tarzan, a Ilha do Tesouro e Origens (com um fóssil na capa!) foram acompanhados como novela, um capítulo atrás do outro, noite após a outra... Não à toa a leitura estar entranhada nos seus filhos!

(...) O Rui pai voltou com sua timidez, seu sorriso por detrás de um par de óculos. Seus olhos azuis traziam a companhia de cabelos grisalhos. Mas era o Rui pai, disposto a voltar a sê-lo. Nenhuma história de separação é completa se não flertar com a história da volta, da reconciliação, do perdão. Mútuo e definitivo. Perdoar não significa esquecer, mas lembrar para que não mais ocorra e, com isso, renovar as chances de erro mutuamente. Dar a chance para incontáveis acertos e poucos e novos erros. Perdoamo-nos, construímo-nos de novo. E isso foi muito legal.

(...) Mas, acima de tudo, sonhamos e desejamos ver se iluminar o quarto do menino que você tem dentro de si e que ele possa mirar seus próprios olhos azuis no espelho de seu coração e sorrir, sem medo de mais nada: você é um grande pai, o melhor que poderíamos ter.

11 de jul. de 2014

Memory Motel

Em oito dias não vence nem um queijo branco, mas vence um amor.

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        Post it noturno, Luiza Pannunzio

30 de jan. de 2014

Pkou!

Uns oito anos atrás, não tenho muita certeza, quando "vacilava entre a infância e a juventude" e tremulava entre a adolescência e a vida adulta, vi um quadrinho do Laerte na Folhateen que conseguiu colocar em uma página – de jornal, para compor da melhor forma aquele momento de um estudante de jornalismo – toda a intensa enxurrada de sentimentos do período.

Separei a página, com o bonito som da folha rasgando na lombada do caderno, e enquadrei. Pendurei na parede do apartamento de São Bernardo. Postei em meu fotolog. Lembrei do quadrinho em várias ocasiões, dias, tardes, noites. Mudei para São Paulo e, até hoje, o quadro está pendurado na escada de casa, onde passo todos os dias. Ora adulto, ora adolescente. Sempre pensando no Apache.

E foi essa mesma história, foram esses traços e texto que Laerte escolheu para inaugurar seu espaço no Brasil Post (The Huffington Post Brasil). Talvez uma parte de minha alma confusa se encontre com a dele ao longo desses inesquecíveis nove retângulos.

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P.S.: Hoje, coincidentemente, é o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. =)

29 de jan. de 2014

Cantigas de amigo

- As cantigas de amigo sempre foram as mais legais. Gosto de uma na qual a moça lava as garcetas. Tempos de pura ousadia.
- Gosto que você lembra de alguma coisa. Eu jamais conseguiria.
- Eu sei a Cantiga da Ribeirinha de cor, achava que poderia, um dia, flertar em galego-português. Nunca me serviu de nada, além de ocupar espaço em um cérebro com uma organização e prioridades duvidosas.
- As que eu sabia de cor são todas da escola mais óbvia, Romantismo.
- Eu adorava, o Lulu Santos também.
- Mal do Século era meu assunto favorito. Não conversava muito.
- Talvez vocês sejam os últimos românticos. Spleen.
- Bom, pelo menos um de nós ganhou uma puta grana com isso.
- Nãnãnãnã, aperta minha mão. Agora eu sou Dadaísta, o trabalho me fez empacar nessa escola.
- Antes Dadaísmo que Parnasianismo, detesto Parnasianismo. Gostava de Modernismo, também. O 'r-r-r' no meio das estrofes dava uma sonoridade bacana.
- Rapaz! É o triunfo das rimas ricas, arte pela arte!
- Adoro rimas ricas, mas não aguentava aqueles poemas longos, que não diziam nada.
- É, não diziam nada, fato. Prefiro o Simbolismo de rimas paupérrimas. E amanhã podemos falar sobre Haroldo de Campos.
- Adoro a palavra 'paupérrima', devia usar mais no cotidiano.
- Eu gosto demais. Vem a Elis cantando em minha cabeça, tipo o sax da barba: "É pau, é pérrima, é o fim do caminho, tchararara".
- Nossos tópicos são meio que experiências cognitivas.
- Um tratado para gerações futuras, que estarão evaporando a liquidez destes tempos, sem entender nada.
- Já temos mais para a introdução do nosso livro.
- Pirata barba macia, vou me recolher aos meus aposentos.
- Não soa como um nome de pirata de grande credibilidade, mas funciona. Também vou dormir para ver se amanhã faço algo que preste, tipo uma Cantiga de Amigo.
- Acho bem contemporâneo e consistente. E patrocinável. Eu vou lavar minhas garcetas pela manhã e perguntar algo tenso para as flores de meu verde pinho. Boa noite, até amanhã, beijo simbolista.

- O meu beijo de boa noite vai seguir o clichê e ser romântico. Beijo e boa noite.
- Um beijo subjetivo e idealizado ou grotesco e sublime? A resposta você confere na próxima aula.
- Aguardaremos. Eu, o subjetivo, o idealizado, o grotesco e o sublime.

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"We'd like to know a little bit about you for our files, we'd like to help you learn to help yourself"

7 de jan. de 2014

Ground Control to Major Tom

Passando 2013 em revista e relendo alguns comentários aqui do blog achei um da Bean, que, dez mil anos atrás, dizia: “Li uma vez que a maioria das nossas memórias de infância vêm de fotos e vídeos caseiros. Provavelmente a gente se lembre dos pais com uma roupa X, com um cabelo Y, com um sorriso congelado. Porque são ‘retalhos’ de várias fotos armazenadas na cabeça. Será?”.

Estou embalando coisas rumo ao congelador. Essa não precisa ser uma sensação ruim, finalmente passo a entender. É a composição da memória de uma forma que restem apenas os fragmentos que nos rasgam um sorriso ao serem resgatados. Os pés de uma tarde na praia, os cabelos de uma manhã de vento, o sorriso bobo da graça cotidiana que um dia houve, a blusa da festa, a camiseta do trabalho, uma careta, a calça já fora de moda, danças desengonçadas, pequenos lugares secretos de viagens... Toda essa marmita é de imagens estáticas, mas tem uma trilha sonora. Animada, como estes dias.

Eu não escovo os dentes toda noite, por mais cansado ou em qualquer estado físico ou mental que esteja, só por asseio ou costume. É porque, bem como sempre lavo os cabelos e nunca deixo de secar os vãos dos dedos dos pés, quero deixar para trás tudo que tenha acontecido e começar um tempo novo pelas manhãs. As lembranças boas não irão com a água, comporão meu corpo, e as ruins escorrem pelo ralo. Assim me renovo, com pequenos rituais particulares.

Minhas lembranças, hoje, voltam a ter o som de páginas virando. E a caixa do último brinquedo que ganhei diz “a partir de 30 anos”, embora continue sendo um quebra-cabeça.

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“... mas se arriscar ainda é a única forma de não se tornar uma pessoa amarga. É preciso insistir no amor, apesar de tanta desordem por aí. (...) ‘Só me arrependo do que não faço’ é conversa fiada de gente bêbada. Você vai se arrepender de muita coisa que fez. Nem tudo que é quebrado pode ser consertado

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22 de ago. de 2013

Fui ao Orkut e resgatei um testimonial

"Lucasof é um menino-homem travestido de ditador mexicano que, apesar de toda a sua experiência e maturidade, persiste em esconder seus medos e sua fragilidade por trás de lindos olhos azuis. É tão genial que consegue construir uma imagem de 'cara insuportável', mas logo se contradiz, quando deixa seu lado moleque-palhaço a solta. Filosofa e chora e canta e ri e abraça e pede colo. No fim, sempre tira de mim uma expressão de 'ooooown, que fofo!', que eu odeio. Passou de chefe a conselheiro e ganhou um status incrível no meu coração.

Só posso dizer que hoje, 1 ano e meio depois de ter te conhecido, sorrio ao lembrar de cada conversa, cada bronca, cada piada, cada Skittles... E carrego por todos os cantos daquele prédio na marginal, as tuas últimas palavras, no meu dia de despedida da Rua Amauri. Você, Lucasof, é foda!"

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Obrigado, Alininha! =)
Direto "daquele prédio na marginal", o qual dividimos por pouco tempo, infelizmente. 

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"(...) Lo importante no es entrar
en todas la casas, sino no estar
totalmente afuera de ellas (...)"

6 de ago. de 2013

Caleidoscópio

A aproximação foi via amigos em comum na faculdade, mas não consigo recordar se houve um momento específico depois do qual estreitamos ou se foi uma evolução natural da espécie.

Um ano após a formatura, em 2007, falei sobre você. Era um testemunho no Orkut - bons tempos - no qual grifava aspectos divertidos. A síntese era uma menina que habitava um mundo "Rock & Roll hype vintage hypercool", seja lá o que isso signifique, e me ensinava que "amizade não é sufoco e silêncios podem ser cúmplices, não constrangedores". Já era linda aos meus olhos e ao meu coração. Amiga lá de longe, da beira da capital, e nas caronas de ida e vinda sempre aproveitei para dividir pedaços de mim. Talvez você seja a primeira-dama do Cibié.

Agora você mora perto, posso ir andando. E como fujo para sua casa! Com paredes de chita colorida e quadros de viagem, cinema e rock. E, sim, com um terracinho todo seu. Gosto de saber que sou parte disso. Gosto de poder achar que estou cochilando escondido enquanto vemos filmes, e que você vela essa soneca porque sabe que, nesse momento, é o que preciso além do seu abraço. Em troca, aceito dividir a pipoca no cinema.

Quando não trabalhávamos juntos, ia de São Bernardo até a Casa das Rosas para passar tardes com você e Lemp, comendo cocada e falando besteiras.

Viajamos. Desde o planejamento de longas viagens, tentando encaixar 153 lugares e afazeres em 30 dias de férias, até fugas rápidas para a praia ou indo aos shows de bandas de nossa adolescência.

Você me leva ao estádio para os jogos do Corinthians, ao samba, dança minhas músicas, cantamos juntos caminhando pelo bairro. “Quando piso em folhas secas”. "We came to far to give up who we are". "Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho". Elogia a bricolagem, embora nem sempre confie de primeira nos meus feitos. Diz que sou forte quando carrego coisas pesadas, me faz dançar forró e diz que dancei direitinho. Não pelo peso ou pela força, pelos passos corretos ou pelo ritmo, mas pela graça.

Sabe meus maduros e meus podres. E dá broncas! Você me desarma. Faz com que eu entenda a vida, meus pais, meus amigos, meu irmão. Meus irmãos, talvez. E quão importante é entender algo antes de alguns sentimentos.

Não sei mais imaginar um dia sem pensar que você será parte dele. Se não imediatamente ao lado, nas mensagens, nas ligações, nas ideias. Tenho a sensação de sermos infinitos. Todavia, caso o mundo físico se altere, você vai continuar para sempre a fazer parte da minha existência, disso estou certo. Em meus pensamentos, em minha pele, em minhas palavras e em meu coração.

Você é um terremoto que bota tudo no lugar e me dá fôlego. Você me salva dia após dia durante tempestades e engrandece meu sorriso quando não estou envolto em besteiras.

Obrigado. Te amo.


     Desde 2003, a gente só fez foi ficar cada vez mais lindo. =)

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2 de ago. de 2013

Nada ficou no lugar

Eu estava com medo de ter falado demais. Eu estou aprendendo a lidar com a imensa exposição gerada pela honestidade. Com toda a insegurança. Eu estou reaprendendo a caminhar. Eu tinha saudade da sua voz.

A reposta veio em forma de canção na manhã de uma noite muito cansada.

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"(...) Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria (...)"

15 de jul. de 2013

Adolescência

Pudesse eu ter nascido em seu mundo, andar livre pelas hoje escuras ruas de seu tortuoso e escondido coração. Soltar-me da razão e ser só sentimento, render-me a imaginação. Pudesse viver com você em um constante exílio, dizer bobagens ao pé do ouvido, dançar tudo o que não sei. Pegar no sono deitado ao seu lado em um sofá perdido no tempo, passear, rir, render-me, me perder em você. Pudesse eu saber você.

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Andre Kertesz - Art Fair, painting of reader

27 de jun. de 2013

Um evento cotidiano

- Vocês ficaram noivos?!
- Sim!
- Uau! Parabéns! Quero saber a receita dessa amarração aí!
- Ih, rapaz, é muito simples. Memória fraca e muita risada. Ajuda pra caramba!

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30 de abr. de 2013

As canções que você fez pra mim

- Ela adora um caráter jesuíta nas amizades
- Você é muito diferente, né
- Sou muito diferente. Meu caráter jesuíta não é só para amizades, é para o universo. E todos mais que houver
- (Risos) Para a galáxia
- Dou espelhos e quero devoção. E fé
- Cega
- Faca amolada
- Vaca atolada. Minha mãe cantava assim pra mim, demorei pra descobrir
- Eu demorei a saber que faca amolada não era uma faca que alguém deixou de saco cheio