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10 de set. de 2024

Um girassol nos teus cabelos

O despertador tocou, tinha uma longa mensagem sua no celular; passei uns dias decantando. 

Li numa crônica do Ivan Martins, em 2013, que “pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes”. Já revisitei muitas cidades e estava em paz com essa afirmativa até o dia que resolvi ser jovial no sul da Bahia. Na volta de uma festa desencontrada, de mil inseguranças, do chão de barro, do medo de perder um rim ou cair em algum golpe, eu abri a porta para aqueles cabelos cacheados e, sem saber, abri a porta para um sem fim de aventuras e para a desconstrução da afirmativa acima, porque eu descobri de novo aquele pedaço de areia e mar, mas dessa vez com toda uma cor local e um coração em ponto de fervura. 

Sou uma pessoa sem senso de direção, nascida em tempos de Guia Quatros Rodas impresso, e nem os satélites e os aplicativos atuais me ajudaram a desvendar e trafegar no que viria ao meu encontro. Grandes avenidas iluminadas e ruelas na penumbra, infinitos caminhos, encontros, desencontros, vistas incríveis e multas por infrações. 

Aquela porção de cachos, uma camisa de animal print, um sono tranquilo, um inesperado futuro à frente, tudo apoiado no meu braço dormente e formigando, que eu não mexeria por nada nessa vida para não estragar a cena. Era tempo de Gilsons nos streamings. Várias queixas de você, sem dúvidas, mas “algum ritmo em comum fez nos encontrar”, com pipoca e brigadeiro à vontade naquele microcosmo. 

E foram muitos cabelos, os seus e os meus, ainda que em tão pouco tempo. Se Einstein dizia que o tempo passa mais devagar para quem se move a uma velocidade alta, o que é a paixão se não a loucura no mais intenso acelerar?

- “Ih, filho, você tá diferente”, dizia minha mãe. “Tá com cara de apaixonado”. 
- Talvez eu esteja. 
- Vá devagar, hein. 

Como ir devagar se você já tinha percorrido quase dois mil quilômetros e instalado sua branquíssima roupa de cama no meu caleidoscópico apartamento?

Se tem uma coisa com a qual você não precisa se preocupar é com me despedaçar, porque alguém já dinamitou esse terreno antes, e de novo, e eu sigo acreditando que até a maneira como os corações se despedaçam é bonita. 

Até por isso virei um panfletário de "Amor Líquido", de Zygmunt Bauman, porque também acredito que “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada.” E para o quê mais vivemos senão tentar decifrar todas essas estradas, até entendermos que a viagem é tão preciosa e o destino talvez nem exista? Bora parar para abastecer e colocar a próxima playlist. 

Moreno, flor do desejo, ai, teu cheiro em meu lençol. Desço pra rua, sinto saudade. Suspiro quando o celular rememora alguma foto ou alguém me pede para contar o nosso causo. Espero e torço para que você seja feliz e siga realizando seus sonhos, no sono mais tranquilo, num abraço afetuoso, embalado em amor.



25 de jul. de 2024

Terra Altar

Entre o céu e a terra, um inesperado caminho de rios pelo qual navega um povo que tem a força de quem vive do que planta, do que pesca, do que cria, e que carrega a esperança de dias melhores nas palmas das mãos e no cortado de palma. E num sorriso que nenhuma intempérie aplaca.

Pedimos licença. Para entrar em um lugar sagrado é preciso despir-se. Pés descalços para dançar de acordo com o vento que sacode as bandeiras de São João e esculpe rocha que um dia foi mar. Mares, montes, desertos. A vida acontece no movimento, no encontro com o desconhecido. Caminhar por um santuário chamado Chapada Diamantina, uma Bahia suspensa. 

O sagrado está dentro da gente. Gente que carrega a fé na jornada de um dia. Gente que carrega fé na terra arada que tudo dá. Mãe d’água que protege o pantanal, que alimenta o Quilombo. Que traz na rede do pescador a comida que nutre a aldeia. As mãos da cozinheira que preparam a fruta verde como prato principal quando a fome chega fora de hora. Aqui os amanheceres não esperam o tempo de amadurecer. Godó de banana. Palma cortada que enche a cumbuca. Vatapá pra São Cosme & Damião. Ritual embalado em renda que se transforma em oração. 

Da arte rupestre que narra a vida que já estava ali milhares de anos antes dos nossos passos, até os passos de dança dos rituais e do caminhar para semear e colher. Venha com a gente viver a expedição Chapada Diamantina, uma Terra Altar cravada no Nordeste de um Brasil que resiste. Que existe. 

*Uma viagem com Carol Daher, coisa mais linda do mundo!®



3 de fev. de 2015

#137

A leitura dos clássicos da infância nunca me havia feito acreditar que um dia eu viveria uma história de amor envolvendo uma festa e sapatos deixados para trás.

Minha nuca encantou-se com você antes mesmo que pudesse vê-lo por inteiro, a não ser quando roubava pelos reflexos da tela do computador ou pelos cantos dos olhos. Depois meus ouvidos, certamente suscetíveis ao enredo contado pela nuca, renderam-se à sua voz rouca, modulada conforme seu interesse.

Um dia eu olhei. No outro, você levou a misturinha do café da manhã. As rodinhas de minha cadeira passaram a querer percorrer o chão branco o tempo todo para ficar mais perto, sentir seu cheiro. Encostei em você. E de novo. E você já era parte. Juntos. Dois.

De um sofá sob a brisa de uma janela em Moema até repetidas vezes no cartório. Do meu Memory Motel no Largo da Batata, onde provei que existe uma receita científica para se gostar de alguém (embora apaixonado desde a primeira linha da experiência), até as caminhadas nos dias frios 9.497 quilômetros distantes de onde estamos hoje.

Seguindo nas tags e métricas, cozinhamos risoto no Natal, com 100 quilômetros nos separando. Jantamos os fogos de 31 de dezembro dividindo os mesmos centímetros, SPHB. Não precisamos de monumentos ou grandes obras, éramos nós a principal referência em todos os guias e mapas. Ignoramos algumas das pinturas mais icônicas da humanidade porque tudo que importava era seu nome entalhado na parede. Você era tudo que me importava. Usei seus sapatos e seus casacos, usamos Estomazil, dividimos a cama, a banheira, os rodopios no parque e dias inenarráveis.

Cantei para você. Ouvi você cantando repetidas vezes. Minha vontade, ou a de meu coração, ainda com as marcas de dobra, é ouvir muitas mais.

Desisti de procurar explicações para algumas coisas. “People fall in love in mysterious ways. Maybe just the touch of a hand”. Você apareceu para, como um plano de metas de JK, me fazer viver cinco anos em cinco meses. Para me mostrar, como numa minissérie, que ainda é possível viver romances como os dos longa-metragens dos cinemas. Com tramas, mentiras, sentimentos intensos. Loucura. Escolhas. Com amor.

Mas agora é tarde em meu coração. Vou dobrá-lo para caber no bolso, sempre ao alcance da mão, mudar o canal e acordar para um novo momento. Ao lado da televisão, você será um dos pôsteres emoldurados e pendurados na parede:

- But what about us?
- We’ll always have berries.

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27 de nov. de 2014

White Collar

- You're the romantic. I mean, what's the deal with the bottle?
- It's an 82 Bordeaux.
- Yeah. Costs 800 bucks a pop.
- It does when it's full. I got it empty.
- Empty?
- Look, when Kate and I met, we had nothing. I got that bottle, and I used to fill it up with whatever cheap wine we could afford. And we'd sit in that crappy apartment and drink it over cold pizza and pretend we were living in the Côte d'Azur.
- How'd that work out for you?
- It didn't. Cause that bottle was a promise of a better life.

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Sobre outro.

25 de fev. de 2014

Um ano. Novo.

Quando penso em catalogar 2013 como ruim, lembro que pulei para os 30 anos em casa, com meus amigos, mergulhando na piscina de bolinha. Saímos para dançar logo após a meia-noite. E segui festejando com mais amigos, Lego, pizza e brownie na casa de minha mãe.

Caminhei pela Rue Balzac, tomei vinho nos degraus do Trocadéro enquanto a Torre Eiffel piscava, vi uma Rainha saindo de seu palácio, visitei um bunker de guerra. Casei a Pedra de Roseta com o Código de Hammurabi, em segredo, num cantinho de minha imaginação dentro do British Museum, com fish&chips para comemorar.

Chorei enquanto cantava “Thunder Road" muito alto e desafinado no show do Bruce Springsteen. Meu irmão me abraçou apertado e meu pai nos observava e batia raras palmas. “So you're scared and you're thinking that maybe we ain't that young anymore...”

Alguém escolheu meu shampoo pela primeira vez e fez espuma em minha cabeça numa manhã etérea.

Os Paralamas do Sucesso cantaram as melhores músicas (ou as minhas favoritas) de seus 30 anos de carreira para Fe Fontes e para mim, em nosso relógio sem órbita no Rio de Janeiro. Fui várias vezes ao Rio de Janeiro.

Elba Ramalho seguiu com a brasilidade e ameacei uns passos de forró.

Vi duas estrelas cadentes no limpo céu do interior e fiz os pedidos mais clichês.

Melhorei meu corpo, cortei o cabelo e mantive os cachos possíveis. Adotei Ruby Tuesday, mudei minha relação com minha casa. Troquei todos os lustres de casa. E a cama. E tirei muitos enfeites que já não faziam sentido. Mantive o quadrinho do Laerte na parede da escada.

Vi muito mais os meus amigos, com conversas leves e divertidas. Procurei os meus amigos. Fui convidado para ser padrinho em três casamentos e um nascimento em dose dupla.

Os trocadilhos voltaram, junto com minha empatia desengonçada e subserviente à hierarquia.

Entendi um pouco mais a minha loucura.

Reencontrei a alegria ali no finalzinho, voltando para minha casa na manhã do dia primeiro de 2014, pé ante pé para não acordar minha mãe, que preferiu dormir após a virada em vez de ir para a balada comigo. Sua respiração era tranquila em minha cama. Deitei no chão de madeira da sala, com um sorriso de adolescente safado, e percebi que tudo havia conspirado para o bem.

“...show a little faith, there's magic in the night”.

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23 de ago. de 2013

Recortes da semana

Você é uma cidade?
"(...) Você poderá voltar às mesmas ruas muitas vezes, deve fazê-lo na verdade, mas nenhum outro momento terá a surpresa daqueles instantes iniciais, quando os nossos olhos são puros e o nosso coração é virgem outra vez. Pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes.

(...) temos de ser descobertos, nomeados e mapeados. É pelo olhar amoroso do outro que nos revelamos. É no olhar do outro que nos re-conhecemos. Como uma cidade. Um país. Um mundo que o outro queira habitar – e transformar em sua casa
."

Lost in Translation: Molly Ringwald, a garota de rosa-shocking relembra época em Paris
"(...) Vendi minha casa, guardei meus móveis num depósito e coloquei o que restou em sete malas. Ao desembarcar na capital francesa, aluguei um estúdio na Rue de Montpensier, que contorna o Palais Royal – Didier Ludot, o rei do vintage na cidade, acabara de inaugurar seu brechó logo abaixo do meu apartamento. Não demorou muito para que me apaixonasse – primeiro por Paris; depois por Henri.

(...) Fiz minha família cruzar as pontes do Sena inúmeras vezes, enquanto recuperava memórias. 'Por que estamos aqui?', minha filha perguntou quando caminhávamos pela Pont Marie. 'Porque', lhe disse, 'foi aqui que a mamãe cresceu
'."

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         Dos momentos mais lindos que já vivi em Paris

28 de jan. de 2013

Janeiro

Até o meio da adolescência olhava para o Rio com a cara amarrada. Eram memórias dos tempos da separação de meus pais, a idéia de violência, a resistência com o sal e a areia. Até que, nas catracas do metrô de São Paulo, dei um passo na direção contrária e voltei a calçar meus chinelos e fazer uma pequena mala.

Gabriel me fez entender a vida no Rio, os cariocas e seu abraço. Nossos dias na Tijuca ainda tinham muito dessas linhas que escrevi acima, mas foi o começo do desmanchar. Foi o tempo da cidade, não da praia. Scrumble, Gummy, comida da Tia Wanda, família, flauta transversa e passeios alternativíssimos para o Lucasof de então. A Floresta da Tijuca de All Star, foto lá no topo e bolhas nos pés. Os amigos, a faculdade, a estação Saens Peña e a praça Varnhagen, que o sotaque transformava em algo engraçado. As despedidas. "A onda ainda quebra na praia, espumas se misturam com o vento", canta Lenine quando rememoro.

Thais, a superlativa Thata, que define o Rio como "o mar, quatro quadras e uma enorme pedra", quando fomos juntos à um casamento, me fez voltar a pisar a areia, comer empada dos vendedores ambulantes, ouvir a música que entoam para vender mate, sanduíche natural, biscoito Globo. Entrar no mar, sorrir para o sol, caminhar sem rumo, sem porquê, feliz.

Com o Caio foram dias que alguns posts anteriores sintetizam melhor do que poderia fazer neste texto. Foram lindos. Foram tantas regatas e caipirinhas na praia, lanches no quarto do hotel. Shopping, claro, porque somos paulistas. As caminhadas no calçadão, ainda que trôpegas, poderiam ser uma gravação de videoclipe para música de Avril, que perseguimos e assustamos. A graça de um macaquinho comendo bolacha no caminho para o Cristo e seus incansáveis braços erguidos. E, asseguro, as memórias todas ainda estão lá. Acabei de conferir. As melhores, as coradas, sustentadas por muita isca de peixe. As outras, nubladas, choveram, permearam a areia e refizeram-se.

Bethânia declama o lado que menos visito, mas a aura do todo. “Foi Copacabana quem me recebeu, com seu cheiro de batata-frita e gasolina, suas tardes de raios e trovões inesperados e as suas noites inesquecíveis, mágicas”. O botão "stop" apertado na década de 1970.

Toda ida para lá carrega comigo um pouco de angústia; desafiar minha inerente solidão, o nada do mundo de História Sem Fim. Passa ao desembarcar, porque sei que ali existe alegria e calor. Em vez de Fantasia se desfazendo, é Pleasantville ganhando cores. Technicolor. São todas as músicas já compostas. 



Por entre túneis escuros, ruas decadentes, casarões esfarelando, morros e artérias vermelha e amarela chega-se a visuais incríveis. São caminhos. Passagens.

O Rio e eu estamos constantemente fazendo as pazes, melancólicos como a voz de Johnny Cash. Pedindo um ao outro 'perdão pela duração dessa temporada, dizendo pros da pesada que vamos levando'.

Agora, cercado de amigos das mais diversas origens e corações, junto mais uma porção de lembranças sobre a cidade. Fe Fontes regeu esses dias com seu encanto que transborda. Lets e seu sorrisão atravessaram comigo a avenida atrás do bloco de carnaval, embaixo da chuva, depois de muito sol. É assim, mistura. Vinny e sua busca pela fuga de todo o concreto de Brasília. E gente nova. Conhecer. Rir. Mudar. Continuar.


Aprendi a fazer do Rio minha notícia boa.

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14 de jun. de 2007

Nada mais gostoso que um Bubaloo banana...

Depois de um tour latino-americano com os quatro do Minhocão - Lemp (o homem que vai onde a notícia está e crítico musical), Fountains (a sensatez rock´n roll), Lucasof (o Censo) e Yaya (a caçula mimada que faz cara de dó e intérprete com pigarro) e muitas horas – muitas – acampado em aeroportos, voltei com minha gripe para terras brasileiras e fui direto para a Bienal, acompanhar o SPFW.

Hotsite: http://www.moda.ig.com.br/especial/
Blog: http://moda.blig.ig.com.br/

Espero sobreviver e poder retomar, um dia, os post freqüentes aqui. Saudades de blogar para mim, por nada de mais.