Soprando a poeira que cobre este blog, uma do caderno de devaneios do colegial:
Gymnos
Andemos todos nus
Assim como quando nascemos
Sem temores nem pudores
Tiremos nossas vestes
Mostremos nossas vergonhas
Vivamos o Livre Arbítrio
Ignorando qualquer Édito
Admirando nus uns aos outros
Desprendamo-nos das amarras de pano
Caminhemos todos livres
Exibindo nossas equalizadas diferenças
Andemos todos nus
Acho que estou envelhecendo e ficando mais pudico.
Fervilham vontades, apontam novidades.
Parodeando meu inconstante pai: "eu, o louco, a caminho!"
Abraço com R puxado e T ressaltado, porque o Tomate está indo para o exílio voluntário.
30 de set. de 2005
24 de set. de 2005
Tempo tempo tempo
Espero poder retomar maiores viagens acerca de nada logo. Os dias têm sido curtos para tanto. Quod scripsi scripsi
21 de set. de 2005
Sexo animal
Mais uma do mundo da piada pronta:
"Um homem morreu em um sítio nos Estados Unidos frequentado por zoofilos ao ser sodomizado por um cavalo, informou a polícia nesta segunda-feira.
A vítima, de 40 anos, sofreu graves lesões internas e seu corpo foi deixado por desconhecidos em um hospital de Seattle, no dia 2 de julho, pouco depois do ato.
Seu cólon rompeu, como os órgãos inferiores da mesma região, e a hemorragia o matou.
As investigações revelaram que o sítio era especializado em zoofilia e oferecia a seus clientes cavalos, pôneis, cabras, ovelhas e até cães. Tudo era anunciado pela Internet.
A polícia apreendeu fitas de vídeo com centenas de horas de atos sexuais entre homens e animais.
O código penal do Estado de Washington não proíbe a zoofilia" AFP
"Um homem morreu em um sítio nos Estados Unidos frequentado por zoofilos ao ser sodomizado por um cavalo, informou a polícia nesta segunda-feira.
A vítima, de 40 anos, sofreu graves lesões internas e seu corpo foi deixado por desconhecidos em um hospital de Seattle, no dia 2 de julho, pouco depois do ato.
Seu cólon rompeu, como os órgãos inferiores da mesma região, e a hemorragia o matou.
As investigações revelaram que o sítio era especializado em zoofilia e oferecia a seus clientes cavalos, pôneis, cabras, ovelhas e até cães. Tudo era anunciado pela Internet.
A polícia apreendeu fitas de vídeo com centenas de horas de atos sexuais entre homens e animais.
O código penal do Estado de Washington não proíbe a zoofilia" AFP
20 de set. de 2005
Bacon
Minha barriga tem tentado dominar toda minha existência. Começou a surgir na região umbilical, tomou toda a lateral e agora vem se alastrando e crescendo, com uma rapidez e agilidade impressionantes. Vou me juntar ao Teco (meu Beagle Bala de Canhão) em seu sofrido regime. Só ração light. E, muito raro, um ou outro abacate que caia do pé.
Pudins de cachaça
Do mundo da piada pronta:
"Os amigos Carlos Roberto Aquino, 39 anos, e Joel da Silva, 23, queriam descobrir qual dos dois bebiam mais. No sábado, sentaram-se um bar, no povoado Cobra D'Água, município de Pacatuba, a 116 quilômetros de Aracaju, e beberam até morrer.
Carlos morreu no local, enquanto Joel foi levado para um dos hospitais do interior, mas não resistiu. Ambos tiveram intoxicação por excesso de álcool.
O desafio entre os amigos era saber quem teria coragem de beber um copo cheio de cachaça pura. Nesta brincadeira, consumiram oito garrafas de cachaça. O primeiro a cair, no próprio bar, foi Calos Roberto. Joel ainda chegou a ir para casa, depois foi medicado num posto de saúde. Ao retornar para casa, dormiu e não acordou mais." US
Pelo menos o Joel ganhou a aposta.
"Os amigos Carlos Roberto Aquino, 39 anos, e Joel da Silva, 23, queriam descobrir qual dos dois bebiam mais. No sábado, sentaram-se um bar, no povoado Cobra D'Água, município de Pacatuba, a 116 quilômetros de Aracaju, e beberam até morrer.
Carlos morreu no local, enquanto Joel foi levado para um dos hospitais do interior, mas não resistiu. Ambos tiveram intoxicação por excesso de álcool.
O desafio entre os amigos era saber quem teria coragem de beber um copo cheio de cachaça pura. Nesta brincadeira, consumiram oito garrafas de cachaça. O primeiro a cair, no próprio bar, foi Calos Roberto. Joel ainda chegou a ir para casa, depois foi medicado num posto de saúde. Ao retornar para casa, dormiu e não acordou mais." US
Pelo menos o Joel ganhou a aposta.
15 de set. de 2005
Cartas a mim mesmo
Hay días en que no se lo que me pasa. Nunca li Neruda e não tenho o poder de apagar o Sol. Mas alguns escritos comovem a mais pífia das almas; que dirá daqueles que se arriscam a usar os corações?
Angústia e medo são os adjetivos de que abusa. Eu diria amor e esperança. Esperança é pouco: fé. Amor é morno: paixão. Pequeno porque assim se vê, porém de vida pulsante, pujante, ultrajante pensar o oposto. Logo, grande, enorme, imenso, desmesurado amanhecer de poeta.
Havia qualquer coisa sobre medo de se abrir; pensei em vida aberta que tenta se esconder (à toa; melhor ao léu!). Algo sobre amores intensos e seus fins; senti consumação e turbilhões. Em outro momento, havia de fugir para o local ameno e campal; pura tolice: não se foge à alma quando se leva o corpo para passear. Sua casa é, e sempre será, você.
O mesmo para o colo materno, fraternal ou da amante. São seus se você os faz. Para fazer, tem que querer. Isso está claro em seu verso, sua prosa, glosa à guisa do grude! Dic mihi: quare fugere urbem? I ad pacem tuam! (Pobre do meu latim, milionária da minha intenção. De boas delas, o mundo está cheio e nem por isso melhor. Mas, vá lá, pitaco talvez tenha seu lado positivo.) Réquiem de nós mesmos, só na paz do que fazemos com nosso redor.
Há filósofos que sempre pregaram o valor inenarrável do passado e da memória. Maldito em seu tempo, idolatrado em demasia nos atuais, contudo, há outro que costuma dizer que o passado é cinza que se faz necessária bater no cinzeiro. Virtude no meio-termo? Talvez não. Reimagine-se, recrie-se e repense-se todo novo dia. Acredite, apesar de já ter sido acusado de fazer sofrer por pensar assim, que mudar é aprender a fazer com que os outros esperem menos de nós e aprender a esperar menos dos outros.
E de Nietzsche a Calvin e Besouros, Verdes dessa vez: Porque tirar sempre uma nota A? Se assim fizermos, um B será derrota. Um dia desses, pule nesse espaço, agarre o céu e não volte mais, nunca mais. Seja seu. Você será de todos mais do que imagina. Viva eu, viva o mundo, viva o Chico barrigudo! Vivamos, nessa feita, nós!
Angústia e medo são os adjetivos de que abusa. Eu diria amor e esperança. Esperança é pouco: fé. Amor é morno: paixão. Pequeno porque assim se vê, porém de vida pulsante, pujante, ultrajante pensar o oposto. Logo, grande, enorme, imenso, desmesurado amanhecer de poeta.
Havia qualquer coisa sobre medo de se abrir; pensei em vida aberta que tenta se esconder (à toa; melhor ao léu!). Algo sobre amores intensos e seus fins; senti consumação e turbilhões. Em outro momento, havia de fugir para o local ameno e campal; pura tolice: não se foge à alma quando se leva o corpo para passear. Sua casa é, e sempre será, você.
O mesmo para o colo materno, fraternal ou da amante. São seus se você os faz. Para fazer, tem que querer. Isso está claro em seu verso, sua prosa, glosa à guisa do grude! Dic mihi: quare fugere urbem? I ad pacem tuam! (Pobre do meu latim, milionária da minha intenção. De boas delas, o mundo está cheio e nem por isso melhor. Mas, vá lá, pitaco talvez tenha seu lado positivo.) Réquiem de nós mesmos, só na paz do que fazemos com nosso redor.
Há filósofos que sempre pregaram o valor inenarrável do passado e da memória. Maldito em seu tempo, idolatrado em demasia nos atuais, contudo, há outro que costuma dizer que o passado é cinza que se faz necessária bater no cinzeiro. Virtude no meio-termo? Talvez não. Reimagine-se, recrie-se e repense-se todo novo dia. Acredite, apesar de já ter sido acusado de fazer sofrer por pensar assim, que mudar é aprender a fazer com que os outros esperem menos de nós e aprender a esperar menos dos outros.
E de Nietzsche a Calvin e Besouros, Verdes dessa vez: Porque tirar sempre uma nota A? Se assim fizermos, um B será derrota. Um dia desses, pule nesse espaço, agarre o céu e não volte mais, nunca mais. Seja seu. Você será de todos mais do que imagina. Viva eu, viva o mundo, viva o Chico barrigudo! Vivamos, nessa feita, nós!
Madeira
Pau-brasil um dia existiu
Na piscina bóia flor de Flamboyant
Casca de Casco-de-vaca
Cetro de Cedro
Tapume de Eucalipto
Viaduto de Sequóia
Chiclete gruda no pneu de Seringueira
Olha os ramos da Figueira
Móvel de Cerejeira
Peroba Branca o caminho atravanca
Serra derruba a Imbuia que vira cuia
Mogno, madeira dura
Pinus que risca fácil
Canela é armário que cheira bem
Ipê você pisa e não vê
Olha lá um Jequitibá
Macaco em galho de Cumbaca
Não dá uva em Cabriuva
Petia na casa da tia
Plante já um Jacarandá
Cama de madeira qualquer
Embala o homem com cara-de-pau
Impune derruba tudo
Outro Jatobá já vai tombar
Tapa o sol com a Paineira
Na piscina bóia flor de Flamboyant
Casca de Casco-de-vaca
Cetro de Cedro
Tapume de Eucalipto
Viaduto de Sequóia
Chiclete gruda no pneu de Seringueira
Olha os ramos da Figueira
Móvel de Cerejeira
Peroba Branca o caminho atravanca
Serra derruba a Imbuia que vira cuia
Mogno, madeira dura
Pinus que risca fácil
Canela é armário que cheira bem
Ipê você pisa e não vê
Olha lá um Jequitibá
Macaco em galho de Cumbaca
Não dá uva em Cabriuva
Petia na casa da tia
Plante já um Jacarandá
Cama de madeira qualquer
Embala o homem com cara-de-pau
Impune derruba tudo
Outro Jatobá já vai tombar
Tapa o sol com a Paineira
13 de set. de 2005
Para aquele um, que tão sensivelmente devaneia
Há tempos busco inspiração. Não a espero mais, que anda tão distante de minha agitação cotidiana.
Você consegue abstrair do costumeiro, do corriqueiro, do habitual, daquilo que nem se percebe, uma excepcionalidade que torna qualquer momento em exclusivo e fundamental. Você consegue ver a poesia inerente à vida, e de tão inerente já nem percebida, ou nem percebida porque a vida moderna só pode ser feita de momentos lógicos.
É de um sabor inexplicavelmente cotidiano, com gosto de infância feliz, sentir o cheirinho de pão fresco escorregar dos seus versos. E logo adiante é a visão que se expande. A forma que você tem para expressar seus devaneios excita todos os sentidos.
Mas há devaneios interiores, que expressam sentimentos com pouco apoio do mundo sensorial. Nesses também seu lirismo é terno, mesmo quando revela angústias, distâncias, separações, solidões, perdas, dores. Nesses momentos de incerteza da alma humana as palavras normalmente se tornam rudes, amargas. Não as suas. A sensação é a de quem, mesmo sofrendo muito, não está perdido, desamparado.
Você tem lirismo, emoção, talento. Faz com que a gente não perca o sentimento, o que nos mantém humanos num mundo que nos exige cibernéticos.
Você consegue abstrair do costumeiro, do corriqueiro, do habitual, daquilo que nem se percebe, uma excepcionalidade que torna qualquer momento em exclusivo e fundamental. Você consegue ver a poesia inerente à vida, e de tão inerente já nem percebida, ou nem percebida porque a vida moderna só pode ser feita de momentos lógicos.
É de um sabor inexplicavelmente cotidiano, com gosto de infância feliz, sentir o cheirinho de pão fresco escorregar dos seus versos. E logo adiante é a visão que se expande. A forma que você tem para expressar seus devaneios excita todos os sentidos.
Mas há devaneios interiores, que expressam sentimentos com pouco apoio do mundo sensorial. Nesses também seu lirismo é terno, mesmo quando revela angústias, distâncias, separações, solidões, perdas, dores. Nesses momentos de incerteza da alma humana as palavras normalmente se tornam rudes, amargas. Não as suas. A sensação é a de quem, mesmo sofrendo muito, não está perdido, desamparado.
Você tem lirismo, emoção, talento. Faz com que a gente não perca o sentimento, o que nos mantém humanos num mundo que nos exige cibernéticos.
9 de ago. de 2005
Náufrago
Sinto soltar-me a mão a tua
Esvair-se a alma que sequer viste nua
O corpo que jamais vislumbrei
Na taça, o resto do vinho que não provei
E com o qual me embriaguei
A enxurrada que verte do teto de telhas quebradas
Leva os restos do pouco amor que me sobrou
Lava nossos rostos sujos de vergonha
E já molhados pelas lágrimas que vertem
Da alma de sonhos quebrados
Não sei que rumo tomou a rosa dos ventos
O tempo passa fora do compasso
Parece seguir teus errantes passos
Há meia hora era dia cinco
Hoje já é dia dez
Amanhã não sei se será
Os beijos que te roubei
Hoje tem gosto de fel
Os que me deste e os que não dei
Vagam perdidos por bocas frias
Náufrago à deriva em alto mar
Espero a tormenta ir-se
E um navio que não irá passar
Nada me preenche e tudo me desfaz
Minha boca salgada balbucia pedidos perdidos
O frio adormece meu corpo
Logo a alma calma adormece
Já não quero abrir os olhos
Talvez nunca mais possa acordar
Esvair-se a alma que sequer viste nua
O corpo que jamais vislumbrei
Na taça, o resto do vinho que não provei
E com o qual me embriaguei
A enxurrada que verte do teto de telhas quebradas
Leva os restos do pouco amor que me sobrou
Lava nossos rostos sujos de vergonha
E já molhados pelas lágrimas que vertem
Da alma de sonhos quebrados
Não sei que rumo tomou a rosa dos ventos
O tempo passa fora do compasso
Parece seguir teus errantes passos
Há meia hora era dia cinco
Hoje já é dia dez
Amanhã não sei se será
Os beijos que te roubei
Hoje tem gosto de fel
Os que me deste e os que não dei
Vagam perdidos por bocas frias
Náufrago à deriva em alto mar
Espero a tormenta ir-se
E um navio que não irá passar
Nada me preenche e tudo me desfaz
Minha boca salgada balbucia pedidos perdidos
O frio adormece meu corpo
Logo a alma calma adormece
Já não quero abrir os olhos
Talvez nunca mais possa acordar
20 de jul. de 2005
Ciao, Adendo!
Isso estava no primeiro Água de Tomate, companheiro de madrugadas de vã reflexão: “Sou o menino paranóia. Quando mudei pra SBC ano passado, uma das maiores expectativas que tinha era se faria algum amigo aqui ou ficaria sozinho durante longo tempo, falando com as paredes verdes da faculdade e branco-encardidas desse apartamento. Medo tolo...”
Esse é dos poucos excertos que me sobraram depois que os arquivos foram tragados pelo buraco-negro do severo provedor. Mas isso já me faz pensar no “quando mudei pra SBC” e no agora, que já mudei de SBC. Sentia-me tão adulto assumindo algumas responsabilidades naquela época. Manter uma casa (ainda que não com meu dinheiro), me virar na cidade grande, dormir sozinho com meus medos. E tanta coisa aprendi, tantas vezes quebrei a cara.
Foi morando lá, no apartamento carinhosamente apelidado de Adendo da Capital, que fiz bons amigos, que recebi pessoas queridas, que quis enxotar os mal quistos, que me vi sozinho e miúdo algumas vezes. Foi lá que senti ser possível amar de novo, ter um grande amor, outro grande amor, e quebrar a cara, de novo. Que tudo deixa sua marca, e que podemos sempre tentar outra vez. A vida é uma construção de todo dia, na qual muda a água, mas continua o tomate. Atrasei contas, fiz amigos. “Confesso que vivi!”
E o pedacinho de vida passado ali vai deixar saudades, daquelas boas, que não torturam. Que afagam o coração. Tendemos a olhar pra trás e achar que as coisas eram melhores, os problemas menores, tão mais felizes parecíamos. Não... A Lua parece maior quando perto da linha do horizonte. Mudam os referenciais.
De lá ficam saudades de um tempo diferente. Tantas.
Devagar vou aprendendo a me sentir em casa no ap novo, que ainda não tem um nome, mas já tem suas histórias.
No Caminho de Kandahar: Advocacia – Dr. De Paula Pinto.
Esse é dos poucos excertos que me sobraram depois que os arquivos foram tragados pelo buraco-negro do severo provedor. Mas isso já me faz pensar no “quando mudei pra SBC” e no agora, que já mudei de SBC. Sentia-me tão adulto assumindo algumas responsabilidades naquela época. Manter uma casa (ainda que não com meu dinheiro), me virar na cidade grande, dormir sozinho com meus medos. E tanta coisa aprendi, tantas vezes quebrei a cara.
Foi morando lá, no apartamento carinhosamente apelidado de Adendo da Capital, que fiz bons amigos, que recebi pessoas queridas, que quis enxotar os mal quistos, que me vi sozinho e miúdo algumas vezes. Foi lá que senti ser possível amar de novo, ter um grande amor, outro grande amor, e quebrar a cara, de novo. Que tudo deixa sua marca, e que podemos sempre tentar outra vez. A vida é uma construção de todo dia, na qual muda a água, mas continua o tomate. Atrasei contas, fiz amigos. “Confesso que vivi!”
E o pedacinho de vida passado ali vai deixar saudades, daquelas boas, que não torturam. Que afagam o coração. Tendemos a olhar pra trás e achar que as coisas eram melhores, os problemas menores, tão mais felizes parecíamos. Não... A Lua parece maior quando perto da linha do horizonte. Mudam os referenciais.
De lá ficam saudades de um tempo diferente. Tantas.
Devagar vou aprendendo a me sentir em casa no ap novo, que ainda não tem um nome, mas já tem suas histórias.
No Caminho de Kandahar: Advocacia – Dr. De Paula Pinto.
14 de jul. de 2005
Mais do mesmo
Da revista Caras (desculpa para ter lido: estava com a Tê no Fran’s Café de Sorocs, fazendo um de nossos incontáveis pit-stops gastronômicos, quando achamos esse fantástico relato de simplicidade): “...Silvia Pfeifer se diverte com pequenos prazeres, como descascar laranja e beber champanhe”.
Acho que estou cada vez mais capitalista. Como posso ter parado de ver o valor do momento de “descasque” da laranja, fruta assim tão cítrica, e de uma mera taça de champanhe?? Vou seguir a Tati e virar budista.
Confuso. Com frio.
Em tempo de confluências inesperadas.
Coisas.
Acho que estou cada vez mais capitalista. Como posso ter parado de ver o valor do momento de “descasque” da laranja, fruta assim tão cítrica, e de uma mera taça de champanhe?? Vou seguir a Tati e virar budista.
Confuso. Com frio.
Em tempo de confluências inesperadas.
Coisas.
12 de jul. de 2005
Cartas a mim mesmo
Os dias tem sido pensar e sentir; inconstantes e incontáveis. Acho que passa, deve passar. A dor serve para mover-nos. Queira Deus, para bem. Às vezes, nessas horas, descobrimo-nos pequenos diante da vida; minúsculos em sua ausência, essência das saudades. Nesse tom, a modéstia é medo; a humildade, refúgio. Para caminharmos, preciso é saber-se sem direção. Para a direção é preciso termos consciência de nossas virtudes e defeitos, limites e capacidades. Assim, humildade é via de mão dupla. Se serve para orientar, pode ajudar a perder-se. Prepotência salva o fraco, para quem apenas a resposta humilhante e devastadora basta. O verdadeiro sábio ajoelha-se para falar com a criança; lava os pés de seus discípulos; tem consciência e humildade para aprender com quem tem ensinado; perdoa quem tem ofendido; verga a força bruta com a leveza da pena; explode em energia no último e invisível momento.
O que quero dizer hoje é obrigado. Você proporcionou mudanças, mostrou verdades, abriu arquivos. Fomentou esta retomada. Seja lá o que for, pra onde for, o segredo é olhar com admiração para a imagem, ainda que cada dia mais tosca e pálida pregada na memória. Porque nem tudo é água de tomate. Alguns são caroço, e estão pra sempre no âmago.
O que quero dizer hoje é obrigado. Você proporcionou mudanças, mostrou verdades, abriu arquivos. Fomentou esta retomada. Seja lá o que for, pra onde for, o segredo é olhar com admiração para a imagem, ainda que cada dia mais tosca e pálida pregada na memória. Porque nem tudo é água de tomate. Alguns são caroço, e estão pra sempre no âmago.
20 de jun. de 2005
Caminho
Voltei pra casa chorando. Era vergonha, mal estar. Não poderia jamais ficar estagnado depois de ver aquilo tudo; estava certo de que faria alguma coisa.
O resto da noite foi tentar digerir os fatos e pensar em como muda-los.
Na manhã seguinte a cara de espanto era menor, mas não a indignação. Passei pé ante pé, tentando não fazer barulho, como se o horário comercial ao redor já não zumbisse o suficiente. Queria não incomodar, confiante na idéia de que dormir era a redenção, um passeio por outro mundo. Que tipo de sonhos?
Eu sonhava inquietudes.
Levei algumas roupas e distribuí umas moedas, animado por fazer tudo que estava ao meu alcance. E continuava arquitetando um plano maior.
Um dia mais e me distraí com a torre da igreja. Acabei tropeçando em um. Fiquei acabado, morto de vergonha. Como podia?! Não sou uma pedra!
Jamais vou contar isso pra alguém.
Ontem já os pulava com agilidade, numa corrida de estranhos obstáculos, admirado com minha destreza. Um, dois, cuidado com aquele. Giro para a esquerda, esquivada e cheguei.
Hoje, na correria do atraso, fiquei irritado em não poder andar em linha reta e nauseado com aquele cheiro que revira o estômago ainda vazio.
Amanhã eu me formo. Festa incrível. E eles continuam ali, emporcalhando a praça.
O resto da noite foi tentar digerir os fatos e pensar em como muda-los.
Na manhã seguinte a cara de espanto era menor, mas não a indignação. Passei pé ante pé, tentando não fazer barulho, como se o horário comercial ao redor já não zumbisse o suficiente. Queria não incomodar, confiante na idéia de que dormir era a redenção, um passeio por outro mundo. Que tipo de sonhos?
Eu sonhava inquietudes.
Levei algumas roupas e distribuí umas moedas, animado por fazer tudo que estava ao meu alcance. E continuava arquitetando um plano maior.
Um dia mais e me distraí com a torre da igreja. Acabei tropeçando em um. Fiquei acabado, morto de vergonha. Como podia?! Não sou uma pedra!
Jamais vou contar isso pra alguém.
Ontem já os pulava com agilidade, numa corrida de estranhos obstáculos, admirado com minha destreza. Um, dois, cuidado com aquele. Giro para a esquerda, esquivada e cheguei.
Hoje, na correria do atraso, fiquei irritado em não poder andar em linha reta e nauseado com aquele cheiro que revira o estômago ainda vazio.
Amanhã eu me formo. Festa incrível. E eles continuam ali, emporcalhando a praça.
7 de jun. de 2005
Súdito
Antônio Abujamra não chorou quando nasceu. Queria provocar os médicos e dissociar-se do comum logo na aurora de sua carrancuda vida. E fez desse seu talento inato, a destreza para provocar com maestria, seu meio de vida. Foi um dos poucos entre seus tão ímpares pares profissionais que se sujeitou a televisão, grande referencial simbólico brasileiro. Com cara de avô ranzinza, que reclama de dores nas costas mas insiste em dormir no sofá, Abujamra capitaneia nos finais de domingo o Provocações, seu programa de entrevistas na TV Cultura.
O projeto inicial previa apenas treze entrevistas a serem exibidas durante três meses, mas para os que dizem que a qualidade na TV sempre sucumbe a bunda, agradou tanto que está há anos pondo sal em feridas abertas com a promessa de que ainda há muito cloreto de sódio no estoque.
Com ar de Tomás de Torquemada dissimulado, envolto por um cenário pálido, suportado pelo clima de Hitchcock e enquadramentos incertos, não amarra o entrevistado na fogueira, mas coloca fogo na vaidade. No programa quem triunfa é o provocado, que tem espaço e liberdade para expor idéias e responder a altura das perguntas, desde que apto a isso. Tem uma proposta que não é nova, mas é perpetuamente boa. Repelente do discurso em voga.
Da trinca de gordos que despontam no comando de talk-shows no Brasil, as diferenças entre eles salientam mais que a barriga. A irreverência de João Gordo, que prima pelo escracho sem distar da inteligência e o vazio narcisista de Jô Soares, o condutor da massa, que é graduado em auto-afirmação e projeção do quanto sabe, Abujamra segue outra trilha. e mostra sua periclitante diferença genial.
Provocações dá total liberdade para os entrevistados, sejam eles quem forem, de onde forem, com o título que tiverem. Como um "grande circo místico", provê os prometidos 15 minutos de Warhol para representantes de minorias, artistas, médicos, fãs do programa e muitos outros tipos, como mendigos, que já tiveram sua vez e espaço para se expressarem e não raro surpreendem-nos com sua provocações, dando sutis alfinetadas em nosso preconceito. Todos podem enforcar-se na corda da liberdade com nó apertado pelas mãos de Antônio. E, para entreter além dos bate-papos, textos declamados com maestria e reportagens diversas sobre os mais variados e curiosos temas.
Expoente estranhamente mendicante e glorioso desse gênero jornalístico, comandado por um niilista auto-crítico, ácido e lancinante o programa de pouca verba triunfa pela muita inteligência e pelo desconforto que não raro causa no espectador. Torna astuta e incômoda nossa macilenta televisão e provoca as (de)cadentes estrelas de nossos triviais programas de entrevistas.
O projeto inicial previa apenas treze entrevistas a serem exibidas durante três meses, mas para os que dizem que a qualidade na TV sempre sucumbe a bunda, agradou tanto que está há anos pondo sal em feridas abertas com a promessa de que ainda há muito cloreto de sódio no estoque.
Com ar de Tomás de Torquemada dissimulado, envolto por um cenário pálido, suportado pelo clima de Hitchcock e enquadramentos incertos, não amarra o entrevistado na fogueira, mas coloca fogo na vaidade. No programa quem triunfa é o provocado, que tem espaço e liberdade para expor idéias e responder a altura das perguntas, desde que apto a isso. Tem uma proposta que não é nova, mas é perpetuamente boa. Repelente do discurso em voga.
Da trinca de gordos que despontam no comando de talk-shows no Brasil, as diferenças entre eles salientam mais que a barriga. A irreverência de João Gordo, que prima pelo escracho sem distar da inteligência e o vazio narcisista de Jô Soares, o condutor da massa, que é graduado em auto-afirmação e projeção do quanto sabe, Abujamra segue outra trilha. e mostra sua periclitante diferença genial.
Provocações dá total liberdade para os entrevistados, sejam eles quem forem, de onde forem, com o título que tiverem. Como um "grande circo místico", provê os prometidos 15 minutos de Warhol para representantes de minorias, artistas, médicos, fãs do programa e muitos outros tipos, como mendigos, que já tiveram sua vez e espaço para se expressarem e não raro surpreendem-nos com sua provocações, dando sutis alfinetadas em nosso preconceito. Todos podem enforcar-se na corda da liberdade com nó apertado pelas mãos de Antônio. E, para entreter além dos bate-papos, textos declamados com maestria e reportagens diversas sobre os mais variados e curiosos temas.
Expoente estranhamente mendicante e glorioso desse gênero jornalístico, comandado por um niilista auto-crítico, ácido e lancinante o programa de pouca verba triunfa pela muita inteligência e pelo desconforto que não raro causa no espectador. Torna astuta e incômoda nossa macilenta televisão e provoca as (de)cadentes estrelas de nossos triviais programas de entrevistas.
2 de jun. de 2005
Por uma causa nobre
Essa é velha e já estava no outro Água, mas sempre rememoro:
Há tempos que anoto várias coisas que leio nas portas de banheiros, nos bancos de ônibus e que escuto pelas calçadas da vida. Qualquer coisa que me desperte a atenção, telefonemas estranhos, seja lá o que for. Frases captadas, impressões escritas, protestos, opiniões e diálogos do dia-a-dia.
Aqui vai um, tragicamente hilário em seu propósito:
Era uma conferência entre pessoas HIV positivo e pessoas com Parkinson. Discutiam como angariar, em conjunto, verbas para suas causas e quais as estratégias de uma campanha antipreconceito que lançariam. Até que, após algumas divergências, um senhor negro, soropositivo, lançou:
- Ah, Parkinson é doença de rico! De quem não tem o que fazer.
O idoso com Parkinson para quem a frase foi desferida retrucou, a altura:
- Olha, eu não escolhi essa doença que eu tenho. Vocês sim é que foram atrás da sua! Atráaaasss...
- E quem é que tem Parkinson e não tem dinheiro?? Olha só o Papa, leva um vidão.
- Como assim? Vidão?? E eu tenho a doença e não sou rico, muito pelo contrário! Seu viado!
- Olha, seu velho britadeira, eu te meto a mão na cara!
- Então desce da tamanca e vem! Rogélia!
- Com essa mão tremendo, o senhor serve mais pra safadezas que pra briga!
E a conversa seguiu nesse patamar até que alguém, já satisfeito com o espetáculo, pôs fim a troca de palavras de conforto. Clima estranho, a reunião acabou logo. Sem um veredicto final. Aguardemos a próxima.
E assim caminhamos. É só achar uma brecha, que vamos logo cuspindo impropérios. Salve o preconceito velado...
Há tempos que anoto várias coisas que leio nas portas de banheiros, nos bancos de ônibus e que escuto pelas calçadas da vida. Qualquer coisa que me desperte a atenção, telefonemas estranhos, seja lá o que for. Frases captadas, impressões escritas, protestos, opiniões e diálogos do dia-a-dia.
Aqui vai um, tragicamente hilário em seu propósito:
Era uma conferência entre pessoas HIV positivo e pessoas com Parkinson. Discutiam como angariar, em conjunto, verbas para suas causas e quais as estratégias de uma campanha antipreconceito que lançariam. Até que, após algumas divergências, um senhor negro, soropositivo, lançou:
- Ah, Parkinson é doença de rico! De quem não tem o que fazer.
O idoso com Parkinson para quem a frase foi desferida retrucou, a altura:
- Olha, eu não escolhi essa doença que eu tenho. Vocês sim é que foram atrás da sua! Atráaaasss...
- E quem é que tem Parkinson e não tem dinheiro?? Olha só o Papa, leva um vidão.
- Como assim? Vidão?? E eu tenho a doença e não sou rico, muito pelo contrário! Seu viado!
- Olha, seu velho britadeira, eu te meto a mão na cara!
- Então desce da tamanca e vem! Rogélia!
- Com essa mão tremendo, o senhor serve mais pra safadezas que pra briga!
E a conversa seguiu nesse patamar até que alguém, já satisfeito com o espetáculo, pôs fim a troca de palavras de conforto. Clima estranho, a reunião acabou logo. Sem um veredicto final. Aguardemos a próxima.
E assim caminhamos. É só achar uma brecha, que vamos logo cuspindo impropérios. Salve o preconceito velado...
30 de mai. de 2005
Tempo rei
Não adianta ler em alguma poesia, em uma crônica, escutar meus pais, amigos ou ouvir qualquer sermão templo afora. São os fios de cabelo em incessante queda de minha cabeça que me apresentam intimamente ao caduco lugar comum: o tempo é inexorável. Quando algum cadente for então de cor branca, aí então terei me tornado irmão do bordão. Só me resta viver satisfatoriamente, ouvindo ao longe a mentirosa canção de acalento “é do careca que elas gostam mais”. Numa análise aprofundada, até pode ser. Fica para a imaginação de cada pensar nisso, pois, como diria meu hilário chefe: “Não contarei o resto da piada, por três motivos: em primeiro lugar, porque não é esse o objetivo; depois, por se tratar de piada provavelmente conhecida, o que lhe tiraria a graça; e, principalmente, por causa dos chamados “bons costumes”, os da Moral, que não recomendam o uso de palavrório chulo em portais de boa reputação”. Não tenho medo de ficar velho, mas me apavora não ter aproveitado suficientemente o ontem.
“Não temos de nos preocupar em viver longos anos, mas em vive-los satisfatoriamente; porque viver longo tempo depende do destino, viver satisfatoriamente depende da tua alma. A vida é longa quando é plena; e se faz plena quando a alma recuperou a posse de seu próprio bem e transferiu para si o domínio de si mesma.”
(Sêneca – Cartas a Lucílio)
“Não temos de nos preocupar em viver longos anos, mas em vive-los satisfatoriamente; porque viver longo tempo depende do destino, viver satisfatoriamente depende da tua alma. A vida é longa quando é plena; e se faz plena quando a alma recuperou a posse de seu próprio bem e transferiu para si o domínio de si mesma.”
(Sêneca – Cartas a Lucílio)
25 de mai. de 2005
E a cidade
Aí vem mais um João, Maria, Zacarias
O rosto enrugado de melancolia
Nas costas o peso da vida
Barriga magra e estufada de saudades
As mãos carcomidas da lida
Os pés calejados de pedras
Quer ir para longe da seca
Fugir da miséria que o persegue
Anda para qualquer outro novo lugar
Que cruzará os braços
Para mais um qualquer filho de Deus
Afunda os pés na lama que já foi rio
Erra por terra em busca de seu chão
O seco corpo não deixa marcas nem rastros
Não há sol, nem luar
O tempo segue a cadência das entranhas famintas
Só quem faz sombra é a morte
Ceifando verdes campos de corpos desidratados
Cada passo uma fuga da foice
Guerra de todo dia em terra que não há
O rosto enrugado de melancolia
Nas costas o peso da vida
Barriga magra e estufada de saudades
As mãos carcomidas da lida
Os pés calejados de pedras
Quer ir para longe da seca
Fugir da miséria que o persegue
Anda para qualquer outro novo lugar
Que cruzará os braços
Para mais um qualquer filho de Deus
Afunda os pés na lama que já foi rio
Erra por terra em busca de seu chão
O seco corpo não deixa marcas nem rastros
Não há sol, nem luar
O tempo segue a cadência das entranhas famintas
Só quem faz sombra é a morte
Ceifando verdes campos de corpos desidratados
Cada passo uma fuga da foice
Guerra de todo dia em terra que não há
18 de mai. de 2005
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte...
Sou de uma família metade protestante, por parte de mãe, e metade católica, por parte de pai. Por serem ambas muito fervorosas, cada qual para seu lado da fé, meus pais acabaram por distanciar-se de qualquer religião quando, mais velhos, puderam optar.
Por conseqüência eu cresci uma ovelha desgarrada do rebanho. Tenho fé nas coisas que acredito, muita, mas devo assumir que só recorro a ela nos momentos de dificuldades, como esperança última e raramente pra agradecer.
Mas às vezes acho que recebo indiretas do plano espiritual.
Pouco tempo atrás eu estava em uma fase turbulenta, daquelas que nos deixam bem pra baixo, de kalundum. Um dia saí mais cedo da aula e resolvi voltar pra casa da minha mãe, em Sorocaba, que é meu porto-seguro.
Cheguei lá e logo soube que era dia do velório do Eduardo Alvarenga, o dentista sorocabano que morreu no Aconcágua e era amigo da minha família. Eu só o conhecia de vista, mas cismei que tinha que ir. Não suporto velórios, nunca vou a nenhum, mas fui impulsionado a ir nesse. Sem saber direito porque.
Fui sozinho. Era na Igreja Presbiteriana Independente de Sorocaba e logo que entrei o pastor anunciou que iriam cantar um hino, “Com Tua Mão”, que é o mesmo que minha mãe cantava para que eu e meu irmão dormíssemos e que minha cabeça me sussurrava nos tempos mais difíceis da separação dos meus pais. Depois que cresci acabei esquecendo dele, que foi trocado pelo meu absolutismo, pelo bordão “eu estou bem, não preciso de ajuda”.
Sei que é pretensão, egoísmo e que muitos ali sentiram o mesmo, mas tive aquilo como um sinal pra mim. Que estava no rumo errado, que deveria sacudir a vida, levantar a cabeça, dar graças a tudo que tenho. Não sei direito. Mas foi um misto de medo e conforto, de dor e acolhimento.
Hoje soube que meu Tio Domenico (meu padrinho de batismo na igreja católica) está com câncer. Não tem como não ficar com medo quando se escuta isso. Ele me é muito querido, foi sempre muito presente e importante em minha vida. Tenho fé que ele sai fácil dessa. Se Deus quiser.
Sozinho no Adendo da Capital. Cantando. “Com Tua mão/segura bem a minha/pois eu tão frágil sou, ó Salvador (...)”
...não temerei mal algum, porque tu estás comigo.
Por conseqüência eu cresci uma ovelha desgarrada do rebanho. Tenho fé nas coisas que acredito, muita, mas devo assumir que só recorro a ela nos momentos de dificuldades, como esperança última e raramente pra agradecer.
Mas às vezes acho que recebo indiretas do plano espiritual.
Pouco tempo atrás eu estava em uma fase turbulenta, daquelas que nos deixam bem pra baixo, de kalundum. Um dia saí mais cedo da aula e resolvi voltar pra casa da minha mãe, em Sorocaba, que é meu porto-seguro.
Cheguei lá e logo soube que era dia do velório do Eduardo Alvarenga, o dentista sorocabano que morreu no Aconcágua e era amigo da minha família. Eu só o conhecia de vista, mas cismei que tinha que ir. Não suporto velórios, nunca vou a nenhum, mas fui impulsionado a ir nesse. Sem saber direito porque.
Fui sozinho. Era na Igreja Presbiteriana Independente de Sorocaba e logo que entrei o pastor anunciou que iriam cantar um hino, “Com Tua Mão”, que é o mesmo que minha mãe cantava para que eu e meu irmão dormíssemos e que minha cabeça me sussurrava nos tempos mais difíceis da separação dos meus pais. Depois que cresci acabei esquecendo dele, que foi trocado pelo meu absolutismo, pelo bordão “eu estou bem, não preciso de ajuda”.
Sei que é pretensão, egoísmo e que muitos ali sentiram o mesmo, mas tive aquilo como um sinal pra mim. Que estava no rumo errado, que deveria sacudir a vida, levantar a cabeça, dar graças a tudo que tenho. Não sei direito. Mas foi um misto de medo e conforto, de dor e acolhimento.
Hoje soube que meu Tio Domenico (meu padrinho de batismo na igreja católica) está com câncer. Não tem como não ficar com medo quando se escuta isso. Ele me é muito querido, foi sempre muito presente e importante em minha vida. Tenho fé que ele sai fácil dessa. Se Deus quiser.
Sozinho no Adendo da Capital. Cantando. “Com Tua mão/segura bem a minha/pois eu tão frágil sou, ó Salvador (...)”
...não temerei mal algum, porque tu estás comigo.
Fotos, infância e besouros
Ontem à noite, para espantar um pouco a solidão, comecei a rever algumas fotos que trouxe comigo para o apartamento na capital. São poucos álbuns, três ou quatro, mas cada um deles traz uma infinidade de histórias. Fotos de aniversários, formaturas, reuniões de família em casa. Detenho-me um pouco mais de tempo em um deles, onde aparecemos eu e meu irmão, há tempos atrás.
A diferença de idade entre nós é de três anos e meio, sendo ele o mais velho. A vida toda nos demos muito bem. Durante anos dividimos o mesmo quarto, estudamos na mesma escola, partilhamos as mesmas brincadeiras e até alguns amigos.
Um acontecimento saltou do arquivo da memória ao olhar uma das fotos e me fez rir. Quando tínhamos entre cinco e onze anos, éramos grandes aspirantes a biólogos. Uma de nossas várias experiências genéticas com animas (formigas, grilos, mosquitos...) era congelar besouros em potes com água no freezer, esperando que ao descongelarmos os pobres animais eles pudessem voltar a viver normalmente. E tenho claro em minhas lembranças que um deles deu um pequeno passo, embora meu irmão insista que o movimento foi causado pelo gelo que derreteu.
Outra coisa curiosa é que sempre que víamos um besouro virado com as patas para cima (eles são como tartarugas, não conseguem se virar), com muito cuidado nós o colocávamos na posição certa. Todas as noites, diversas vezes. Paramos com nossas experiências, crescemos, tivemos que separar um pouco nossas vidas, mas até hoje, quando na casa da minha mãe, continuamos desvirando todos os besouros do caminho. Podemos estar prontos para sair, com pressa, seja lá o que for, que paramos para socorrer os pequenos animais. Acabamos contagiando alguns outros membros da família com nossa ação. Minha mãe e minha prima, embora com menos entusiasmo e mais nojo, com a ponta do sapato, fazem o mesmo.
Não sei quando foi que isso começou e tampouco sei ao certo porque fazemos (talvez para nos retratar após os congelamentos), mas já devemos ter salvado vários ao longo desses anos. É sempre frustrante encontrar algum deles morto pela manhã.
Será que um dia meu filho (será que vou ter um filho?) terá a mania de salvar besouros de seu trágico destino de morrer chacoalhando as pernas viradas para cima?
A diferença de idade entre nós é de três anos e meio, sendo ele o mais velho. A vida toda nos demos muito bem. Durante anos dividimos o mesmo quarto, estudamos na mesma escola, partilhamos as mesmas brincadeiras e até alguns amigos.
Um acontecimento saltou do arquivo da memória ao olhar uma das fotos e me fez rir. Quando tínhamos entre cinco e onze anos, éramos grandes aspirantes a biólogos. Uma de nossas várias experiências genéticas com animas (formigas, grilos, mosquitos...) era congelar besouros em potes com água no freezer, esperando que ao descongelarmos os pobres animais eles pudessem voltar a viver normalmente. E tenho claro em minhas lembranças que um deles deu um pequeno passo, embora meu irmão insista que o movimento foi causado pelo gelo que derreteu.
Outra coisa curiosa é que sempre que víamos um besouro virado com as patas para cima (eles são como tartarugas, não conseguem se virar), com muito cuidado nós o colocávamos na posição certa. Todas as noites, diversas vezes. Paramos com nossas experiências, crescemos, tivemos que separar um pouco nossas vidas, mas até hoje, quando na casa da minha mãe, continuamos desvirando todos os besouros do caminho. Podemos estar prontos para sair, com pressa, seja lá o que for, que paramos para socorrer os pequenos animais. Acabamos contagiando alguns outros membros da família com nossa ação. Minha mãe e minha prima, embora com menos entusiasmo e mais nojo, com a ponta do sapato, fazem o mesmo.
Não sei quando foi que isso começou e tampouco sei ao certo porque fazemos (talvez para nos retratar após os congelamentos), mas já devemos ter salvado vários ao longo desses anos. É sempre frustrante encontrar algum deles morto pela manhã.
Será que um dia meu filho (será que vou ter um filho?) terá a mania de salvar besouros de seu trágico destino de morrer chacoalhando as pernas viradas para cima?
13 de mai. de 2005
Uma noite no semi-árido
Saio exausto do trabalho, irritado com a brutal diferença de temperatura entre meu agradável escritório e o chuvoso frio se São Paulo. No aglomerado de carros da Marginal Pinheiros não há outra coisa na qual pense senão no aconchego de meu apartamento, longe dos problemas e barulhos capitais, onde posso descansar e esquecer a agitação cotidiana.
Estaciono o carro na garagem, subo e vou direto saciar minha latente vontade de ir ao banheiro. Aliviado, aperto a descarga. Nada acontece. Aperto outra vez, mais uma, e nada. Vou lavar as mãos na pia. Também não funciona. Corro para o tanque da lavanderia, meu último reduto e, surpresa, nada de água!
O porteiro interfona para avisar que o prédio ficará sem água até amanhã, para que seja feita a manutenção da caixa d´água. Diz que tentou me avisar antes, mas eu não estava.
Cansado e furioso, lembro ironicamente que hoje é Dia Internacional do Meio-ambiente. A manchete do jornal sobre a mesa rememora a suspensão, em fevereiro, de gastos no Orçamento do Governo Federal, que paralisou as obras do Proágua Semi-árido, deixando dez Estados à espera de recursos. Vivo uma noite de semi-árido em plena terra da garoa.
Algumas horas sem água já bastam para desestruturar todo meu desejado descanso. Meu egoísmo traz outra lembrança: 1,1 bilhão de pessoas não tem acesso a água potável e 2,4 bilhões não têm acesso nem ao saneamento básico. Dados do jornal. E eu aqui, praguejando minha má sorte.
As mãos sujas, navegando pela internet, o cheiro vencendo a barreira formada pela porta do banheiro e se alastrando pelo apartamento. Algumas horas, uma noite, a geladeira cheia de bebidas. Do que reclamam os que não têm sequer água para beber e vêem seus filhos brincando no esgoto que corre aberto logo ao lado de sua janela, com o feijão acabando em pleno dia 10?
Estaciono o carro na garagem, subo e vou direto saciar minha latente vontade de ir ao banheiro. Aliviado, aperto a descarga. Nada acontece. Aperto outra vez, mais uma, e nada. Vou lavar as mãos na pia. Também não funciona. Corro para o tanque da lavanderia, meu último reduto e, surpresa, nada de água!
O porteiro interfona para avisar que o prédio ficará sem água até amanhã, para que seja feita a manutenção da caixa d´água. Diz que tentou me avisar antes, mas eu não estava.
Cansado e furioso, lembro ironicamente que hoje é Dia Internacional do Meio-ambiente. A manchete do jornal sobre a mesa rememora a suspensão, em fevereiro, de gastos no Orçamento do Governo Federal, que paralisou as obras do Proágua Semi-árido, deixando dez Estados à espera de recursos. Vivo uma noite de semi-árido em plena terra da garoa.
Algumas horas sem água já bastam para desestruturar todo meu desejado descanso. Meu egoísmo traz outra lembrança: 1,1 bilhão de pessoas não tem acesso a água potável e 2,4 bilhões não têm acesso nem ao saneamento básico. Dados do jornal. E eu aqui, praguejando minha má sorte.
As mãos sujas, navegando pela internet, o cheiro vencendo a barreira formada pela porta do banheiro e se alastrando pelo apartamento. Algumas horas, uma noite, a geladeira cheia de bebidas. Do que reclamam os que não têm sequer água para beber e vêem seus filhos brincando no esgoto que corre aberto logo ao lado de sua janela, com o feijão acabando em pleno dia 10?
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