26 de out. de 2005

Seus pés estavam doendo...

...e ela recusou-se a ceder seu lugar. Porque sabia muito bem que lugar era esse.

Até mais, Rosa Parks.

23 de out. de 2005

Desfibrilando

O tempo era cinza e o passo era trôpego. Ainda assim, você estendeu-me a mão e, acalentando-me, traçou no chão de terra seca um caminhar de quatro pés, lado a lado. Das pegadas fazia-se luz e campos verdes, e brotou a vida ao meu redor. Vesti a minha pele e lhe dei a mão. Em momentos todos você estava ali. Da entrevista ao primeiro dia de trabalho, do jantar de comemoração, das frescuras, crises, risos, ao fim.
Mas que ele não seja a retomada de um outrora, mas um novo agora para nós. Quero sempre estar ao seu lado, porque sua grandeza abraça a alma e acolhe. Pensar em você é inundar-me de elogios e ternas lembranças; todos os agradecimentos e as desculpas não bastam.
Pudera um “eu te adoro” bastar, suprir, consertar.
Eu te adoro.
“You got a fast car...”
Sem beijo,
Lucasof

17 de out. de 2005

Enquanto isso, no Terra da Gente...

"Brasil Telecom funde IG, BrTurbo e Ibest

Está marcada para começar dentro de instantes em São Paulo reunião que anunciará a fusão dos três grandes portais controlados pela Brasil Telecom - o IG, o BrTurbo e o Ibest.

Uri Rabinovicht, executivo da Brasil Telecom, passará a responder diante da direção da empresa pelos negócios da área de internet.

O responsável pelo conteúdo dos três portais reunidos será Bruno Sena, atual presidente do BrTurbo.

O jornalista Matinas Suzuki, atual presidente do IG, ficará três meses como consultor da Brasil Telecom. Depois irá montar a rede de jornais de um amigo no interior de São Paulo.

A fusão dos três portais ocorre pouco tempo depois que o Banco Oportunitty de Daniel Dantas deixou de ser o principal controlador da Brasil Telecom.

Ela passou ao controle de um grupo de fundos de pensão.
Enviada por: Ricardo Noblat" Blog do Noblat, 17/10/2005.
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Uh, Sorocaba, uh, Sorocaba!! Todos em polvorosa nas terras do querido Baltazar Fernandes! Nativos e a TV Tem, a TV Que Tem Você, esperando o estremecedor e revolucionário “jornal de um amigo do interior”.
Atenção senhores passageiros, reclinem suas poltronas e apertem seu cinto de segurança.

Essa cidade é o que há. E nem só Blog do Noblat tem fuuuuros de notícia.
Ora ora ora...

7 de out. de 2005

Só o que sobra é a memória

Meu avô morreu e minha avó não quis morar sozinha. Desfez-se da casa e passou a morar três meses na casa de cada um dos seis filhos. Menos na de um, “porcão”, ela dizia, “porque a casa dele é muito suja”.

Poucos anos e alguns desentendimentos depois, ficava apenas na casa de quatro deles. Depois, na de três. Os filhos começaram a sentir-se incomodados, a tratá-la não tão bem como deveriam. E ela nunca conseguia fincar raízes em um lugar, ter seu cantinho, suas coisas todas juntas.

Foi aí que minha mãe – sempre ela – chamou minha avó em um canto e disse que já era hora dela parar de agüentar humilhações e ter uma casa onde ela pudesse receber filhos, amigos e netos.Ela, que tão amuadinha andava, titubeou. Mas foi. Penou um pouco no começo, mas depois renasceu.

Recebia as amigas para um chá, o pessoal da igreja para o arroz-doce depois do culto, cultivava suas lindas plantas, recebia os netos todos para dormir lá nos fins de semana, fazia café para os filhos aos domingos, começou (isso mesmo, não voltou, começou) a ler (adorava romances água-com-açúcar, ao melhor estilo Cinco Minutos de José de Alencar)...

...e fez uma amiga, Dorothy. Eram vizinhas de porta e se adoraram. Apresentava a nova amiga assim: “Essa é Dorothy, minha amigona. Ela é poetisa! Da Academia Sorocabana de Letras, julgadora em concursos de literatura”. Era uma amizade encantadora.

Minha avó foi, pela mão de um “anjo do senhor”, zelar por nós lá do alto. Deixou, além das saudades, de suas plantinhas, suas histórias, da prova de que é possível renascer e ser muito feliz a qualquer hora da vida, a amiga poeta:

Tive quatro premiações este ano. A Therezinha era sempre a primeira a ouvir as minhas bobaginhas. Como ela gostava muito, mando-as aqui Sei que você e os meninos gostam:

Niterói - tema Promessa

Ora eloqüente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de Tudo,
no fútil revés... do Nada!

São Paulo - tema Cristal

Atravessando o vitral,
a luz do sol se desvela,
pondo, em chispas de cristal,
seu brilho à humilde capela.

Pirapetinga - tema Saudade

Persuasiva e eloqüente,
saudade fala de afeto,
com sete letras, somente,
que valem todo o alfabeto.

Pouso Alegre - tema Coragem
Coragem?! Ah quem me dera
que por graça ou bruxaria,
aquela mulher que eu era
ressuscitasse algum dia!

Dorothy Moretti”

Como Assim?

www.igjovem.com.br/comoassim

30 de set. de 2005

Fuuuuuuuuuu!!!!! Cof, cof, cof...

Soprando a poeira que cobre este blog, uma do caderno de devaneios do colegial:

Gymnos
Andemos todos nus
Assim como quando nascemos
Sem temores nem pudores
Tiremos nossas vestes

Mostremos nossas vergonhas
Vivamos o Livre Arbítrio
Ignorando qualquer Édito
Admirando nus uns aos outros

Desprendamo-nos das amarras de pano
Caminhemos todos livres
Exibindo nossas equalizadas diferenças
Andemos todos nus

Acho que estou envelhecendo e ficando mais pudico.
Fervilham vontades, apontam novidades.
Parodeando meu inconstante pai: "eu, o louco, a caminho!"
Abraço com R puxado e T ressaltado, porque o Tomate está indo para o exílio voluntário.

24 de set. de 2005

Tempo tempo tempo

Espero poder retomar maiores viagens acerca de nada logo. Os dias têm sido curtos para tanto. Quod scripsi scripsi

21 de set. de 2005

Sexo animal

Mais uma do mundo da piada pronta:

"Um homem morreu em um sítio nos Estados Unidos frequentado por zoofilos ao ser sodomizado por um cavalo, informou a polícia nesta segunda-feira.

A vítima, de 40 anos, sofreu graves lesões internas e seu corpo foi deixado por desconhecidos em um hospital de Seattle, no dia 2 de julho, pouco depois do ato.

Seu cólon rompeu, como os órgãos inferiores da mesma região, e a hemorragia o matou.

As investigações revelaram que o sítio era especializado em zoofilia e oferecia a seus clientes cavalos, pôneis, cabras, ovelhas e até cães. Tudo era anunciado pela Internet.
A polícia apreendeu fitas de vídeo com centenas de horas de atos sexuais entre homens e animais.

O código penal do Estado de Washington não proíbe a zoofilia" AFP

20 de set. de 2005

Bacon

Minha barriga tem tentado dominar toda minha existência. Começou a surgir na região umbilical, tomou toda a lateral e agora vem se alastrando e crescendo, com uma rapidez e agilidade impressionantes. Vou me juntar ao Teco (meu Beagle Bala de Canhão) em seu sofrido regime. Só ração light. E, muito raro, um ou outro abacate que caia do pé.

Pudins de cachaça

Do mundo da piada pronta:

"Os amigos Carlos Roberto Aquino, 39 anos, e Joel da Silva, 23, queriam descobrir qual dos dois bebiam mais. No sábado, sentaram-se um bar, no povoado Cobra D'Água, município de Pacatuba, a 116 quilômetros de Aracaju, e beberam até morrer.

Carlos morreu no local, enquanto Joel foi levado para um dos hospitais do interior, mas não resistiu. Ambos tiveram intoxicação por excesso de álcool.

O desafio entre os amigos era saber quem teria coragem de beber um copo cheio de cachaça pura. Nesta brincadeira, consumiram oito garrafas de cachaça. O primeiro a cair, no próprio bar, foi Calos Roberto. Joel ainda chegou a ir para casa, depois foi medicado num posto de saúde. Ao retornar para casa, dormiu e não acordou mais." US

Pelo menos o Joel ganhou a aposta.

15 de set. de 2005

Cartas a mim mesmo

Hay días en que no se lo que me pasa. Nunca li Neruda e não tenho o poder de apagar o Sol. Mas alguns escritos comovem a mais pífia das almas; que dirá daqueles que se arriscam a usar os corações?

Angústia e medo são os adjetivos de que abusa. Eu diria amor e esperança. Esperança é pouco: fé. Amor é morno: paixão. Pequeno porque assim se vê, porém de vida pulsante, pujante, ultrajante pensar o oposto. Logo, grande, enorme, imenso, desmesurado amanhecer de poeta.
Havia qualquer coisa sobre medo de se abrir; pensei em vida aberta que tenta se esconder (à toa; melhor ao léu!). Algo sobre amores intensos e seus fins; senti consumação e turbilhões. Em outro momento, havia de fugir para o local ameno e campal; pura tolice: não se foge à alma quando se leva o corpo para passear. Sua casa é, e sempre será, você.

O mesmo para o colo materno, fraternal ou da amante. São seus se você os faz. Para fazer, tem que querer. Isso está claro em seu verso, sua prosa, glosa à guisa do grude! Dic mihi: quare fugere urbem? I ad pacem tuam! (Pobre do meu latim, milionária da minha intenção. De boas delas, o mundo está cheio e nem por isso melhor. Mas, vá lá, pitaco talvez tenha seu lado positivo.) Réquiem de nós mesmos, só na paz do que fazemos com nosso redor.

Há filósofos que sempre pregaram o valor inenarrável do passado e da memória. Maldito em seu tempo, idolatrado em demasia nos atuais, contudo, há outro que costuma dizer que o passado é cinza que se faz necessária bater no cinzeiro. Virtude no meio-termo? Talvez não. Reimagine-se, recrie-se e repense-se todo novo dia. Acredite, apesar de já ter sido acusado de fazer sofrer por pensar assim, que mudar é aprender a fazer com que os outros esperem menos de nós e aprender a esperar menos dos outros.

E de Nietzsche a Calvin e Besouros, Verdes dessa vez: Porque tirar sempre uma nota A? Se assim fizermos, um B será derrota. Um dia desses, pule nesse espaço, agarre o céu e não volte mais, nunca mais. Seja seu. Você será de todos mais do que imagina. Viva eu, viva o mundo, viva o Chico barrigudo! Vivamos, nessa feita, nós!

Madeira

Pau-brasil um dia existiu
Na piscina bóia flor de Flamboyant
Casca de Casco-de-vaca
Cetro de Cedro
Tapume de Eucalipto
Viaduto de Sequóia
Chiclete gruda no pneu de Seringueira
Olha os ramos da Figueira
Móvel de Cerejeira
Peroba Branca o caminho atravanca
Serra derruba a Imbuia que vira cuia
Mogno, madeira dura
Pinus que risca fácil
Canela é armário que cheira bem
Ipê você pisa e não vê
Olha lá um Jequitibá
Macaco em galho de Cumbaca
Não dá uva em Cabriuva
Petia na casa da tia
Plante já um Jacarandá
Cama de madeira qualquer
Embala o homem com cara-de-pau
Impune derruba tudo
Outro Jatobá já vai tombar
Tapa o sol com a Paineira

13 de set. de 2005

Para aquele um, que tão sensivelmente devaneia

Há tempos busco inspiração. Não a espero mais, que anda tão distante de minha agitação cotidiana.

Você consegue abstrair do costumeiro, do corriqueiro, do habitual, daquilo que nem se percebe, uma excepcionalidade que torna qualquer momento em exclusivo e fundamental. Você consegue ver a poesia inerente à vida, e de tão inerente já nem percebida, ou nem percebida porque a vida moderna só pode ser feita de momentos lógicos.
É de um sabor inexplicavelmente cotidiano, com gosto de infância feliz, sentir o cheirinho de pão fresco escorregar dos seus versos. E logo adiante é a visão que se expande. A forma que você tem para expressar seus devaneios excita todos os sentidos.

Mas há devaneios interiores, que expressam sentimentos com pouco apoio do mundo sensorial. Nesses também seu lirismo é terno, mesmo quando revela angústias, distâncias, separações, solidões, perdas, dores. Nesses momentos de incerteza da alma humana as palavras normalmente se tornam rudes, amargas. Não as suas. A sensação é a de quem, mesmo sofrendo muito, não está perdido, desamparado.

Você tem lirismo, emoção, talento. Faz com que a gente não perca o sentimento, o que nos mantém humanos num mundo que nos exige cibernéticos.

9 de ago. de 2005

Náufrago

Sinto soltar-me a mão a tua
Esvair-se a alma que sequer viste nua
O corpo que jamais vislumbrei

Na taça, o resto do vinho que não provei
E com o qual me embriaguei

A enxurrada que verte do teto de telhas quebradas
Leva os restos do pouco amor que me sobrou
Lava nossos rostos sujos de vergonha
E já molhados pelas lágrimas que vertem
Da alma de sonhos quebrados

Não sei que rumo tomou a rosa dos ventos
O tempo passa fora do compasso
Parece seguir teus errantes passos

Há meia hora era dia cinco
Hoje já é dia dez
Amanhã não sei se será

Os beijos que te roubei
Hoje tem gosto de fel
Os que me deste e os que não dei
Vagam perdidos por bocas frias

Náufrago à deriva em alto mar
Espero a tormenta ir-se
E um navio que não irá passar

Nada me preenche e tudo me desfaz
Minha boca salgada balbucia pedidos perdidos
O frio adormece meu corpo
Logo a alma calma adormece
Já não quero abrir os olhos
Talvez nunca mais possa acordar

20 de jul. de 2005

Ciao, Adendo!

Isso estava no primeiro Água de Tomate, companheiro de madrugadas de vã reflexão: “Sou o menino paranóia. Quando mudei pra SBC ano passado, uma das maiores expectativas que tinha era se faria algum amigo aqui ou ficaria sozinho durante longo tempo, falando com as paredes verdes da faculdade e branco-encardidas desse apartamento. Medo tolo...”
Esse é dos poucos excertos que me sobraram depois que os arquivos foram tragados pelo buraco-negro do severo provedor. Mas isso já me faz pensar no “quando mudei pra SBC” e no agora, que já mudei de SBC. Sentia-me tão adulto assumindo algumas responsabilidades naquela época. Manter uma casa (ainda que não com meu dinheiro), me virar na cidade grande, dormir sozinho com meus medos. E tanta coisa aprendi, tantas vezes quebrei a cara.
Foi morando lá, no apartamento carinhosamente apelidado de Adendo da Capital, que fiz bons amigos, que recebi pessoas queridas, que quis enxotar os mal quistos, que me vi sozinho e miúdo algumas vezes. Foi lá que senti ser possível amar de novo, ter um grande amor, outro grande amor, e quebrar a cara, de novo. Que tudo deixa sua marca, e que podemos sempre tentar outra vez. A vida é uma construção de todo dia, na qual muda a água, mas continua o tomate. Atrasei contas, fiz amigos. “Confesso que vivi!”
E o pedacinho de vida passado ali vai deixar saudades, daquelas boas, que não torturam. Que afagam o coração. Tendemos a olhar pra trás e achar que as coisas eram melhores, os problemas menores, tão mais felizes parecíamos. Não... A Lua parece maior quando perto da linha do horizonte. Mudam os referenciais.
De lá ficam saudades de um tempo diferente. Tantas.
Devagar vou aprendendo a me sentir em casa no ap novo, que ainda não tem um nome, mas já tem suas histórias.

No Caminho de Kandahar: Advocacia – Dr. De Paula Pinto.

14 de jul. de 2005

Mais do mesmo

Da revista Caras (desculpa para ter lido: estava com a Tê no Fran’s Café de Sorocs, fazendo um de nossos incontáveis pit-stops gastronômicos, quando achamos esse fantástico relato de simplicidade): “...Silvia Pfeifer se diverte com pequenos prazeres, como descascar laranja e beber champanhe”.

Acho que estou cada vez mais capitalista. Como posso ter parado de ver o valor do momento de “descasque” da laranja, fruta assim tão cítrica, e de uma mera taça de champanhe?? Vou seguir a Tati e virar budista.

Confuso. Com frio.
Em tempo de confluências inesperadas.
Coisas.

12 de jul. de 2005

Cartas a mim mesmo

Os dias tem sido pensar e sentir; inconstantes e incontáveis. Acho que passa, deve passar. A dor serve para mover-nos. Queira Deus, para bem. Às vezes, nessas horas, descobrimo-nos pequenos diante da vida; minúsculos em sua ausência, essência das saudades. Nesse tom, a modéstia é medo; a humildade, refúgio. Para caminharmos, preciso é saber-se sem direção. Para a direção é preciso termos consciência de nossas virtudes e defeitos, limites e capacidades. Assim, humildade é via de mão dupla. Se serve para orientar, pode ajudar a perder-se. Prepotência salva o fraco, para quem apenas a resposta humilhante e devastadora basta. O verdadeiro sábio ajoelha-se para falar com a criança; lava os pés de seus discípulos; tem consciência e humildade para aprender com quem tem ensinado; perdoa quem tem ofendido; verga a força bruta com a leveza da pena; explode em energia no último e invisível momento.

O que quero dizer hoje é obrigado. Você proporcionou mudanças, mostrou verdades, abriu arquivos. Fomentou esta retomada. Seja lá o que for, pra onde for, o segredo é olhar com admiração para a imagem, ainda que cada dia mais tosca e pálida pregada na memória. Porque nem tudo é água de tomate. Alguns são caroço, e estão pra sempre no âmago.

20 de jun. de 2005

Caminho

Voltei pra casa chorando. Era vergonha, mal estar. Não poderia jamais ficar estagnado depois de ver aquilo tudo; estava certo de que faria alguma coisa.
O resto da noite foi tentar digerir os fatos e pensar em como muda-los.
Na manhã seguinte a cara de espanto era menor, mas não a indignação. Passei pé ante pé, tentando não fazer barulho, como se o horário comercial ao redor já não zumbisse o suficiente. Queria não incomodar, confiante na idéia de que dormir era a redenção, um passeio por outro mundo. Que tipo de sonhos?
Eu sonhava inquietudes.
Levei algumas roupas e distribuí umas moedas, animado por fazer tudo que estava ao meu alcance. E continuava arquitetando um plano maior.
Um dia mais e me distraí com a torre da igreja. Acabei tropeçando em um. Fiquei acabado, morto de vergonha. Como podia?! Não sou uma pedra!
Jamais vou contar isso pra alguém.
Ontem já os pulava com agilidade, numa corrida de estranhos obstáculos, admirado com minha destreza. Um, dois, cuidado com aquele. Giro para a esquerda, esquivada e cheguei.
Hoje, na correria do atraso, fiquei irritado em não poder andar em linha reta e nauseado com aquele cheiro que revira o estômago ainda vazio.
Amanhã eu me formo. Festa incrível. E eles continuam ali, emporcalhando a praça.

7 de jun. de 2005

Súdito

Antônio Abujamra não chorou quando nasceu. Queria provocar os médicos e dissociar-se do comum logo na aurora de sua carrancuda vida. E fez desse seu talento inato, a destreza para provocar com maestria, seu meio de vida. Foi um dos poucos entre seus tão ímpares pares profissionais que se sujeitou a televisão, grande referencial simbólico brasileiro. Com cara de avô ranzinza, que reclama de dores nas costas mas insiste em dormir no sofá, Abujamra capitaneia nos finais de domingo o Provocações, seu programa de entrevistas na TV Cultura.
O projeto inicial previa apenas treze entrevistas a serem exibidas durante três meses, mas para os que dizem que a qualidade na TV sempre sucumbe a bunda, agradou tanto que está há anos pondo sal em feridas abertas com a promessa de que ainda há muito cloreto de sódio no estoque.
Com ar de Tomás de Torquemada dissimulado, envolto por um cenário pálido, suportado pelo clima de Hitchcock e enquadramentos incertos, não amarra o entrevistado na fogueira, mas coloca fogo na vaidade. No programa quem triunfa é o provocado, que tem espaço e liberdade para expor idéias e responder a altura das perguntas, desde que apto a isso. Tem uma proposta que não é nova, mas é perpetuamente boa. Repelente do discurso em voga.
Da trinca de gordos que despontam no comando de talk-shows no Brasil, as diferenças entre eles salientam mais que a barriga. A irreverência de João Gordo, que prima pelo escracho sem distar da inteligência e o vazio narcisista de Jô Soares, o condutor da massa, que é graduado em auto-afirmação e projeção do quanto sabe, Abujamra segue outra trilha. e mostra sua periclitante diferença genial.
Provocações dá total liberdade para os entrevistados, sejam eles quem forem, de onde forem, com o título que tiverem. Como um "grande circo místico", provê os prometidos 15 minutos de Warhol para representantes de minorias, artistas, médicos, fãs do programa e muitos outros tipos, como mendigos, que já tiveram sua vez e espaço para se expressarem e não raro surpreendem-nos com sua provocações, dando sutis alfinetadas em nosso preconceito. Todos podem enforcar-se na corda da liberdade com nó apertado pelas mãos de Antônio. E, para entreter além dos bate-papos, textos declamados com maestria e reportagens diversas sobre os mais variados e curiosos temas.
Expoente estranhamente mendicante e glorioso desse gênero jornalístico, comandado por um niilista auto-crítico, ácido e lancinante o programa de pouca verba triunfa pela muita inteligência e pelo desconforto que não raro causa no espectador. Torna astuta e incômoda nossa macilenta televisão e provoca as (de)cadentes estrelas de nossos triviais programas de entrevistas.

2 de jun. de 2005

Por uma causa nobre

Essa é velha e já estava no outro Água, mas sempre rememoro:

Há tempos que anoto várias coisas que leio nas portas de banheiros, nos bancos de ônibus e que escuto pelas calçadas da vida. Qualquer coisa que me desperte a atenção, telefonemas estranhos, seja lá o que for. Frases captadas, impressões escritas, protestos, opiniões e diálogos do dia-a-dia.
Aqui vai um, tragicamente hilário em seu propósito:

Era uma conferência entre pessoas HIV positivo e pessoas com Parkinson. Discutiam como angariar, em conjunto, verbas para suas causas e quais as estratégias de uma campanha antipreconceito que lançariam. Até que, após algumas divergências, um senhor negro, soropositivo, lançou:

- Ah, Parkinson é doença de rico! De quem não tem o que fazer.

O idoso com Parkinson para quem a frase foi desferida retrucou, a altura:

- Olha, eu não escolhi essa doença que eu tenho. Vocês sim é que foram atrás da sua! Atráaaasss...
- E quem é que tem Parkinson e não tem dinheiro?? Olha só o Papa, leva um vidão.
- Como assim? Vidão?? E eu tenho a doença e não sou rico, muito pelo contrário! Seu viado!
- Olha, seu velho britadeira, eu te meto a mão na cara!
- Então desce da tamanca e vem! Rogélia!
- Com essa mão tremendo, o senhor serve mais pra safadezas que pra briga!

E a conversa seguiu nesse patamar até que alguém, já satisfeito com o espetáculo, pôs fim a troca de palavras de conforto. Clima estranho, a reunião acabou logo. Sem um veredicto final. Aguardemos a próxima.

E assim caminhamos. É só achar uma brecha, que vamos logo cuspindo impropérios. Salve o preconceito velado...